Whatsapp é uma rede social, sim



 A discussão sobre o que é ou não uma rede social voltou a ganhar força depois que a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro alegou que o Whatsapp não se enquadraria nessa categoria. Confesso que quando ouvi isso, a primeira coisa que pensei foi em como essa afirmação ignora a maneira como a ferramenta funciona no dia a dia da população. A verdade é simples: o Whatsapp já ultrapassou há muito tempo a ideia de ser apenas um aplicativo de mensagens, ele se tornou uma verdadeira rede social com alcance de massa.

Quando falamos em rede social, a definição básica é de um espaço virtual que conecta pessoas, possibilita a troca de informações, a criação de comunidades e a disseminação de conteúdos em escala. Ora, o Whatsapp faz tudo isso. Ele conecta amigos, famílias, grupos de trabalho, igrejas, associações de bairro, torcidas de futebol e também grupos de debates políticos. A noção de que ele seria apenas um “mensageiro” é insuficiente diante da realidade do seu impacto.

O primeiro ponto que comprova isso é a dimensão do alcance. O Whatsapp é utilizado por milhões de brasileiros todos os dias e já se consolidou como uma das principais ferramentas de comunicação do país. Ao permitir que uma única mensagem seja encaminhada para centenas ou até milhares de pessoas por meio de grupos, listas de transmissão e compartilhamentos em cascata, o aplicativo cumpre exatamente a mesma função de difusão de conteúdo que qualquer outra rede social.

Outro aspecto importante é o formato da interação. Diferentemente do que acontecia nos antigos serviços de SMS, o Whatsapp permite a criação de comunidades inteiras. São grupos com regras próprias, trocas constantes de imagens, vídeos, áudios, memes e até transmissões ao vivo. É um ambiente no qual opiniões são formadas, reforçadas e confrontadas. Nesse sentido, é impossível negar que ele age como uma plataforma de socialização digital, no mesmo patamar de outras redes sociais conhecidas, como Facebook, Twitter ou Instagram.

Há ainda a questão da personalização do perfil. Mesmo que de maneira mais simples, cada usuário escolhe foto, status, legenda e, em alguns casos, até links externos que mostram aspectos da sua identidade. Isso pode parecer pequeno, mas é exatamente o tipo de característica que compõe o funcionamento das redes sociais. Ninguém utiliza apenas para falar um “oi” rápido, existe um processo de construção de presença digital ali.

Não podemos esquecer do impacto político. O Whatsapp se transformou em uma ferramenta central para campanhas, movimentos sociais e discussões públicas. Foi por meio dele que correntes de informação circularam em velocidade recorde, alcançando eleitores em regiões remotas e influenciando percepções sobre candidatos e projetos. Se isso não é o funcionamento de uma rede social, o que seria? Ignorar esse aspecto seria fechar os olhos para a forma como a sociedade se informa e se organiza atualmente.

Do ponto de vista da comunicação de massa, o aplicativo também se assemelha a um palco aberto. Ainda que não exista um “feed” tradicional como em outras plataformas, os grupos e listas de transmissão funcionam como verdadeiros murais digitais, onde conteúdos são lançados e consumidos por um grande público de forma imediata. É a dinâmica do compartilhamento coletivo que o transforma em um espaço social.

Por fim, existe a questão cultural. As pessoas não falam que estão “no aplicativo de mensagens”, elas dizem que estão “no Whatsapp”. Isso significa que a plataforma deixou de ser apenas uma ferramenta técnica e passou a ocupar um lugar simbólico na vida cotidiana. Quando algo se torna parte integrante da cultura digital de uma sociedade, já não cabe reduzi-lo a uma categoria limitada.

Na minha opinião, negar que o Whatsapp é uma rede social é mais do que um erro conceitual, é uma estratégia para minimizar sua responsabilidade e sua força política. Ele cumpre todos os critérios que caracterizam uma rede social e, por isso, deve ser reconhecido como tal. Afinal, estamos falando de um espaço virtual que reúne milhões de pessoas, molda debates, influencia decisões e se tornou indispensável para a comunicação moderna.

Whatsapp é rede social, sim. Não adianta a defesa insistir em negar isso, porque a realidade não muda com argumentos vazios. O ex-presidente continuará respondendo na Justiça por seus atos, independentemente da tentativa de transformar a natureza do aplicativo em desculpa.