Basta olhar pela janela ou acompanhar os principais portais de notícias para perceber que o clima no Brasil parece ter saído completamente dos eixos neste ano de 2026. A volta das discussões sobre o retorno e a persistência dos impactos extremos do fenômeno Super El Niño colocou o tema no topo do interesse público nesta semana, despertando um misto de preocupação e cansaço na população. No entanto, o que mais assusta não é a força da natureza em si, mas a sensação incômoda de estarmos vivendo em um eterno ciclo de "dejavu", onde os mesmos alertas são emitidos, os mesmos desastres acontecem e as autoridades parecem manter o mesmo nível de perplexidade inédita diante de cenários que já eram amplamente previstos pela ciência.
Para compreender a gravidade do que estamos enfrentando, é preciso descer ao papel educativo e entender o que é, afinal, esse fenômeno. O El Niño caracteriza-se pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, uma alteração que modifica a circulação de ventos e massas de ar em escala global. Quando esse aquecimento atinge patamares extraordinários, ganhando o prefixo de "Super", o impacto no território brasileiro é devastador e assimétrico: enquanto a região Norte e o Nordeste sofrem com secas severas e prolongadas que secam rios históricos, o Sul do país enfrenta tempestades implacáveis, volumes de chuva que superam as médias históricas em poucos dias e enchentes catastróficas.
Essas anomalias climáticas não se restringem a calçadas alagadas ou dias excessivamente quentes; elas atacam diretamente a espinha dorsal do país. A produção de alimentos é uma das primeiras a sofrer as consequências, com quebras de safra de grãos e hortaliças que pressionam os preços nos supermercados e alimentam a inflação. Além disso, os reservatórios das usinas hidrelétricas ficam sob constante ameaça, elevando o custo da energia elétrica e pesando no bolso do consumidor. O Super El Niño é, portanto, um motor de encarecimento da vida e de ampliação da vulnerabilidade social, afetando desde o pequeno agricultor familiar até o morador das grandes metrópoles.
É justamente nesse ponto que o debate deixa de ser puramente meteorológico e passa a ser político e estrutural. A grande verdade inconveniente que precisamos encarar é que as cidades brasileiras continuam operando sob uma lógica amadora de reação tardia. Há anos os cientistas e institutos de pesquisa emitem relatórios detalhados, com meses de antecedência, mapeando exatamente quais regiões serão castigadas. Ainda assim, governantes e prefeituras parecem ignorar a ciência, preferindo tratar eventos climáticos extremos como "fatalidades imprevisíveis" para eximir-se da culpa pela falta de planejamento urbano e investimentos em infraestrutura.
O Brasil se especializou em gerenciar crises pós-desastre em vez de evitá-las. Gastam-se milhões de reais em recursos de emergência, reconstrução de pontes e auxílios assistenciais após as tragédias se consolidarem, mas quase nada é investido em obras de macrodrenagem, contenção de encostas, desassoreamento de rios e, acima de tudo, na remoção e habitação digna para as famílias que vivem em áreas de risco. Continuamos utilizando uma cartilha do século passado para lidar com uma crise climática que já bate à nossa porta com força total em 2026. É uma postura negligente que custa caro aos cofres públicos e, pior, custa vidas.
O clima mudou e o "antigo normal" não vai voltar. Atribuir a destruição das nossas cidades unicamente à fúria do Super El Niño é uma narrativa conveniente para gestores públicos incompetentes. O fenômeno é um catalisador que apenas expõe, de forma violenta, as vísceras de um urbanismo desigual, focado no asfalto e na especulação imobiliária, que ignora a geografia e os limites da própria natureza. Ser pego de surpresa pelo clima em 2026 não é um azar geográfico; é uma escolha política baseada na omissão e no imediatismo eleitoreiro.
Até quando aceitaremos passivamente o papel de vítimas de surpresas anunciadas? O fantasma do Super El Niño deveria servir como o derradeiro choque de realidade para redesenharmos nossas estruturas urbanas e rurais. Precisamos exigir planos de adaptação climática sérios, com metas orçamentárias rígidas e monitoramento contínuo, transformando a prevenção em uma política de Estado inegociável. Enquanto a prevenção for tratada como gasto e não como investimento prioritário, continuaremos reféns do céu, assistindo o país submergir na chuva ou secar sob o sol, sob o olhar atônito de quem deveria estar no comando.
