O palete de caixas de leite parecia mais pesado naquela tarde de quinta-feira. Rasgar o plástico, pegar as caixas de doze em doze e alinhar os rótulos na gôndola do supermercado era o tipo de trabalho mecânico que geralmente me ajudava a esvaziar a cabeça. Mas, naquele dia, cada movimento parecia arrastar uma tonelada de pensamentos.
Trabalhar como repositor exige que você preste atenção nos detalhes: o produto mais antigo na frente, o mais novo atrás, o preço visível. Organização pura. Pena que a minha vida fora dali estivesse uma bagunça completa.
No bolso da calça, o celular vibrou com a mensagem que eu já sabia o que significava, mas que insistia em ignorar. Estela estava arrumando as malas. Em menos de duas semanas, ela pegaria um ônibus rumo a outra cidade, a centenas de quilômetros de distância, para agarrar uma oportunidade que, segundo ela, não dava para recusar. E eu ficaria.
Voltei para casa caminhando devagar, sentindo o peso do uniforme e o frio do início da noite. Quando abri a porta do meu apartamento, o silêncio me deu um soco no estômago. O espaço era pequeno, o suficiente para um guarda-roupa, uma cama e uma mesa de canto, mas parecia um palácio vazio.
Sentado na beira do colchão, olhando para as paredes sem quadros, a dúvida veio forte. Será que morar sozinho tinha sido mesmo uma boa ideia?
Eu mudei de bairro, me afastei da rotina dos meus pais e acabei perdendo o contato com os meus melhores amigos de infância. Fiz tudo isso por ela. Para estar mais perto, para construir um teto onde a gente pudesse, quem sabe um dia, dividir a vida. Eu tinha deixado minha zona de conforto e as pessoas que me conheciam de verdade para apostar em um futuro a dois. E agora, o "dois" estava virando "um". Eu me sentia completamente sozinho no meio de um projeto que já não fazia mais sentido.
O barulho da chave na fechadura interrompeu o meu nó na garganta. Era Estela. Ela entrou para buscar o restante dos livros que tinham ficado na minha prateleira. O clima estava denso, o ar parecido com o de uma sala de espera de hospital.
— Você vai mesmo, não vai? — perguntei, quebrando o silêncio, sem conseguir esconder o cansaço na voz.
Ela guardou o último livro na mochila, fechou o zíper com calma e se virou para mim. Não havia raiva no olhar dela, apenas uma frieza que me machucou mais do que qualquer grito.
— Vou, Vitor. Eu preciso ir — ela disse, respirando fundo. — E quer saber? Parte do motivo de eu ir é isso aqui. Você mudou de vida por mim, mudou de trabalho, largou seus planos. Você sempre estava disponível para mim, vinte e quatro horas por dia, aceitando tudo, esperando por mim. E honestamente? Isso cansa.
Estela pegou a mochila, passou por mim e bateu a porta, me deixando sozinho com suas últimas palavras e o layout perfeitamente arrumado de um apartamento vazio.
