CAPÍTULO 2

Lula antes do Planalto

Antes de ocupar o Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva passou décadas construindo uma trajetória política que começou muito longe dos gabinetes de Brasília. Sua história começou entre trabalhadores, sindicatos, fábricas e movimentos sociais, em um período em que o Brasil ainda vivia sob uma ditadura militar.

Para compreender o Lula presidente, portanto, é preciso conhecer o Lula metalúrgico. É nesse período que aparecem algumas das ideias que acompanhariam sua carreira política durante décadas: a defesa dos trabalhadores, a organização sindical, a negociação com o poder público e a percepção de que trabalhadores também deveriam participar diretamente da política.

Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no interior de Pernambuco. Era filho de uma família de poucos recursos e, ainda criança, mudou-se com a mãe e os irmãos para o estado de São Paulo. A família acabou se estabelecendo na região do ABC Paulista, uma das áreas industriais mais importantes do país.

Foi no ABC que sua vida profissional e política começou a ganhar forma.

Ainda jovem, Lula trabalhou em diferentes atividades até chegar à indústria metalúrgica. Em uma época em que as grandes fábricas empregavam milhares de trabalhadores, o sindicato tinha uma importância muito maior na vida cotidiana dos trabalhadores do que muitas pessoas conseguem imaginar hoje.

O Brasil daquele período era governado por militares. Depois do golpe de 1964, o país passou por anos de restrições políticas, censura, perseguição a opositores e limitações à organização política. Os sindicatos continuavam existindo, mas a atuação sindical acontecia dentro de um ambiente político bastante controlado.

Lula entrou para a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema na década de 1970. Em 1975, foi eleito presidente da entidade.

Sua ascensão sindical coincidiu com uma transformação importante na região do ABC.

As grandes empresas industriais haviam transformado a região em um dos principais centros econômicos brasileiros. Milhares de trabalhadores estavam empregados nas montadoras e em empresas fornecedoras. Ao mesmo tempo, a inflação e as condições de trabalho provocavam insatisfação entre os trabalhadores.

No final da década de 1970, essa insatisfação ganhou as ruas.

Em 1978, trabalhadores de grandes empresas metalúrgicas do ABC começaram a realizar greves por melhores salários. As paralisações cresceram e, nos anos seguintes, transformaram-se em um dos movimentos trabalhistas mais importantes da história recente do Brasil.

Lula tornou-se uma das principais figuras dessas mobilizações.

As greves não eram apenas uma discussão sobre o salário recebido no final do mês. Elas também questionavam a forma como as relações entre trabalhadores, empresas e governo eram conduzidas naquele momento.

O movimento sindical passou a defender maior autonomia para os sindicatos e maior participação dos trabalhadores nas decisões políticas.

Em 1979, novas greves aconteceram no ABC. Em 1980, uma grande paralisação dos metalúrgicos levou milhares de trabalhadores às ruas. O governo reagiu de maneira dura, e Lula acabou sendo preso durante o movimento.

A experiência ajudou a transformar o líder sindical em uma figura nacional.

Mas havia uma questão que começava a aparecer com cada vez mais força entre Lula e outros sindicalistas: se os trabalhadores queriam participar das decisões que afetavam suas vidas, por que não deveriam também participar diretamente da política institucional?

Essa pergunta ajudaria a produzir uma das maiores novidades da política brasileira naquele período.

Em 10 de fevereiro de 1980, foi fundado o Partido dos Trabalhadores, o PT.

O partido nasceu reunindo sindicalistas, trabalhadores, intelectuais, militantes de movimentos sociais e setores ligados à Igreja Católica e à esquerda brasileira. Lula tornou-se sua principal liderança.

O PT não surgiu simplesmente como um partido criado para disputar eleições. Sua origem estava ligada a uma tentativa de organizar politicamente setores da sociedade que seus fundadores entendiam estar pouco representados pelos partidos tradicionais.

A história do partido também precisa ser compreendida dentro do processo de abertura política que acontecia no Brasil.

A ditadura militar começava a perder força. A sociedade pressionava pela volta das liberdades democráticas. Em 1979, havia sido aprovada a Lei da Anistia. Nos anos seguintes, cresceriam as mobilizações pela redemocratização.

Foi nesse ambiente que Lula deixou de ser conhecido apenas como dirigente sindical e passou a se transformar em político.

Em 1982, disputou o governo de São Paulo pelo PT. Não venceu, mas a candidatura ajudou a tornar seu nome conhecido em todo o estado.

Dois anos depois, o Brasil viveu um dos maiores movimentos políticos de sua história: a campanha pelas Diretas Já.

Milhões de brasileiros participaram de manifestações defendendo o retorno das eleições diretas para presidente. Lula participou ativamente desse processo ao lado de outras lideranças políticas.

A emenda que previa eleições diretas para presidente, porém, não foi aprovada pelo Congresso em 1984.

Em 1985, o país entrou definitivamente em uma nova etapa política. Tancredo Neves foi eleito presidente pelo Colégio Eleitoral, embora tenha morrido antes de tomar posse. José Sarney assumiu a Presidência e iniciou-se o período conhecido como Nova República.

O Brasil estava novamente construindo suas instituições democráticas.

Lula também avançava politicamente.

Em 1986, foi eleito deputado federal por São Paulo com uma votação expressiva. No Congresso Nacional, participou dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição de 1988.

A Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988 marcou uma nova fase na história brasileira. Ela ampliou direitos sociais, estabeleceu novas garantias individuais e consolidou instituições democráticas depois de duas décadas de regime militar.

Lula e o PT participaram desse processo apresentando propostas que refletiam suas origens políticas e sociais.

Mas a grande ambição de Lula continuava sendo a Presidência da República.

Em 1989, o Brasil realizou sua primeira eleição direta para presidente desde 1960.

Foi uma eleição histórica. Depois de quase três décadas sem escolher diretamente o presidente, os brasileiros voltaram às urnas para decidir quem ocuparia o Palácio do Planalto.

Lula foi candidato pelo PT.

Sua campanha apresentou um discurso voltado principalmente para trabalhadores, setores populares e grupos que defendiam mudanças econômicas e sociais mais profundas.

Do outro lado estava Fernando Collor de Mello, candidato que se apresentava como uma alternativa aos políticos tradicionais e que construiu uma campanha moderna para os padrões da época.

Lula chegou ao segundo turno.

Foi uma disputa marcada por forte polarização política. Collor venceu a eleição e tornou-se presidente.

Para Lula, entretanto, a derrota não significou o fim da trajetória presidencial.

Significou apenas o começo de uma sequência de tentativas.

Em 1994, Lula voltou a disputar a Presidência.

Dessa vez, enfrentou Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda e principal responsável pelo Plano Real, programa que havia conseguido reduzir drasticamente a inflação.

O cenário econômico favoreceu Fernando Henrique, que venceu a eleição ainda no primeiro turno.

Em 1998, Lula novamente foi candidato à Presidência.

Mais uma vez, Fernando Henrique Cardoso venceu no primeiro turno.

Três eleições presidenciais haviam passado desde a primeira candidatura de Lula. Em nenhuma delas ele havia conseguido chegar ao Palácio do Planalto.

Mas havia algo importante acontecendo.

O PT estava deixando de ser apenas um partido ligado a movimentos sindicais e sociais e começava a construir uma estrutura política nacional. O partido conquistava prefeituras, governos estaduais, cadeiras no Congresso e aumentava sua presença em diferentes regiões do país.

Lula também começou a modificar sua própria imagem política.

A campanha de 2002 seria diferente das anteriores.

Depois de três derrotas presidenciais, o PT percebeu que precisava ampliar sua capacidade de diálogo com diferentes setores da sociedade. Lula passou a apresentar uma imagem mais moderada e conciliadora.

A mudança foi simbolizada pelo documento conhecido como Carta ao Povo Brasileiro, lançado durante a campanha de 2002. O texto procurava transmitir segurança aos mercados e aos setores econômicos, afirmando que um eventual governo Lula respeitaria contratos e manteria compromissos assumidos pelo país.

Outro elemento importante foi a escolha de José Alencar como candidato a vice-presidente.

Empresário e político de Minas Gerais, Alencar representava uma aproximação com setores empresariais e ajudava a ampliar a composição política da candidatura.

A campanha de 2002 também ficou marcada por uma mudança na comunicação de Lula.

O candidato que durante anos havia sido apresentado como uma liderança radical passou a aparecer como alguém preparado para governar e dialogar com diferentes setores da sociedade.

O resultado foi diferente das eleições anteriores.

Lula chegou novamente ao segundo turno, desta vez contra José Serra, candidato do Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB.

Em 27 de outubro de 2002, exatamente no dia em que completava 57 anos, Lula foi eleito presidente da República.

A vitória representava o ponto mais alto de uma trajetória que havia começado décadas antes em uma família pobre de Pernambuco, passado pelas fábricas do ABC Paulista, pelos sindicatos, pelas greves, pela fundação de um novo partido, pela Assembleia Constituinte e por três derrotas presidenciais.

No dia 1º de janeiro de 2003, Lula tomou posse como presidente do Brasil.

O homem que havia começado a vida profissional como trabalhador metalúrgico agora ocupava o mesmo Palácio do Planalto que, durante décadas, havia tentado alcançar por meio das urnas.

Essa trajetória ajuda a explicar por que a eleição de Lula em 2002 teve um significado tão forte para seus apoiadores.

Para muitos deles, não era apenas a vitória de um candidato. Era também a chegada ao poder de alguém que vinha de uma origem social diferente daquela tradicionalmente associada à Presidência da República.

Mas a chegada de Lula ao Planalto não apagou as contradições de sua trajetória.

O PT já havia passado de um pequeno partido ligado aos movimentos sociais para uma força política nacional. Lula havia deixado de ser apenas um sindicalista e precisava agora governar um país complexo, com uma economia dependente de decisões internacionais, desigualdade social, problemas históricos de saúde e educação, violência e enormes diferenças entre suas regiões.

A partir daquele momento, as perguntas seriam outras.

Como Lula governaria?

Quais promessas seriam transformadas em políticas públicas?

Como seu governo lidaria com a pobreza?

O que aconteceria com o emprego e os salários?

Como seria a relação com empresários, bancos e o mercado financeiro?

E, principalmente, até que ponto o projeto político construído pelo PT durante décadas conseguiria transformar-se em ações concretas de governo?

A resposta para essas perguntas começaria a ser construída a partir de 1º de janeiro de 2003.

A história de Lula antes do Planalto havia terminado.

A história de Lula presidente estava apenas começando.