O ar na subida da Serra dos Órgãos era uma massa densa de umidade que parecia pesar nos pulmões de Seu Antenor. Aos sessenta e cinco anos, o corpo do policial aposentado ainda carregava a rigidez da farda, mas seus olhos haviam se tornado os de um rastreador. Ele não buscava mais infratores do código penal, mas sim aqueles que feriam o código da terra. A vegetação de Mata Atlântica ao seu redor era um emaranhado de bromélias, orquídeas e troncos colossais que pareciam observar sua passagem com uma indiferença milenar.
Ele parou subitamente, o nariz franzido. O cheiro de mata molhada e decomposição natural fora substituído por algo metálico e pungente, uma fragrância elétrica que lembrava o ar logo após a queda de um raio — o cheiro seco do ozônio.
Antenor afastou uma folhagem larga de uma samambaia-açú e estacou. À sua frente, o que restava de uma "espera" — um esconderijo improvisado de caçadores feito com galhos e lona camuflada — parecia ter sido atingido por uma força centrífuga. A lona estava picotada, não por facas, mas como se tivesse sido mastigada pelo próprio vento. Não havia cápsulas de munição deflagradas, nem o cheiro de pólvora que geralmente denunciava a presença dos criminosos que subiam a serra atrás de palmito ou couro.
No centro da clareira revirada, jazia o corpo de uma onça-parda. O animal, um dos maiores predadores do Rio de Janeiro, estava irreconhecível.
Antenor ajoelhou-se, ignorando o estalo dolorido em seu menisco esquerdo. Ele estendeu a mão trêmula para o cadáver. O choque não veio da morte em si — a natureza era brutal —, mas da técnica. A pele do felino fora removida com uma precisão cirúrgica e impossível, descolada da carne sem um único corte de lâmina visível. Era como se o couro tivesse sido simplesmente desfeito, arrancado como se fosse papel de seda molhado, deixando os músculos expostos em um vermelho vivo e estriado que ainda não havia escurecido totalmente.
— Mas que diabo de monstruosidade é essa? — sussurrou ele para o vazio, sentindo um calafrio que não vinha do clima serrano.
Ele olhou ao redor e notou o solo. A terra preta e fértil estava revirada em um padrão caótico. Havia marcas de pressão profundas, pegadas que desafiavam a lógica da anatomia. Elas eram pesadas, mas os calcanhares apontavam para o norte, enquanto a direção do movimento claramente seguia para o sul. O rastro invertido criava uma dissonância cognitiva; era como olhar para um espelho quebrado que refletia o caminho errado.
Antenor pegou um pano de algodão velho do bolso da calça cargo e, com movimentos lentos, limpou uma poça de sangue que escorria de uma folha de guaimbé próxima ao corpo da onça. O sangue estava quente. Muito quente.
— Esses malditos pensam que a lei de proteção ambiental é o maior medo deles — murmura Antenor, limpando o sangue da folhagem com um pano, os olhos fixos na mata fechada à frente, onde a penumbra parecia ganhar vida própria. — Eles sobem aqui com suas armadilhas e suas espingardas de repetição achando que são o topo da cadeia. Pobres diabos. Eles não entendem que a mata tem um sistema imunológico próprio, e ele acabou de acordar com febre. E quando a floresta delira, ninguém sai vivo para contar a história.
Ele se levantou, guardando o pano manchado. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nem o estalido de um galho, nem o pio de um macuco. Era o silêncio de um santuário que acabara de ser profanado e que, agora, preparava o contra-ataque. Antenor sabia que não estava sozinho. Naquele rastro invertido, ele lia o nome de uma lenda que seu avô costumava sussurrar para mantê-lo longe das grotas profundas.
— Você está por perto, não está? — perguntou ele, a voz sumindo na imensidão verde. — Espero que saiba diferenciar quem fere de quem cura, porque a conta que você está cobrando vai ser alta demais para essa serra pagar.
Ele começou a descer, mas não antes de ver, no canto do olho, uma folha de palmeira se mover contra o vento. Do escuro da mata, dois pontos amarelados, como brasas de uma fogueira esquecida, brilharam por um segundo antes de desaparecerem no nevoeiro que começava a subir.
