O calor dentro da boate Inferno era uma mistura sufocante de fumaça de cigarro, suor e o cheiro doce de perfumes baratos que tentavam mascarar a umidade das paredes de concreto. Dezembro de 1999 estava chegando ao fim, e o clima de "fim de mundo" parecia autorizar todos os excessos. As luzes estroboscópicas cortavam o ar em flashes violentos, fatiando os movimentos da multidão que dançava ao som de um techno industrial que martelava os peitos.
No centro do palco improvisado, Rosângela era a única coisa que parecia ter cores reais. Vestida em um figurino de paetês que refletia o neon azul e rosa, ela se movia com uma elegância desafiadora. Para a maioria ali, ela era apenas a atração da noite, mas para Guilherme, assistindo-a do balcão, ela era o único ponto de ancoragem em um mundo que insistia em tratá-la como um erro. Ele sentia o peso do segredo em seu peito, o desejo de gritar que a amava, sufocado pela realidade de uma época que sequer tinha palavras aceitáveis para o que ela era.
No fundo da pista, perto da saída de emergência, o clima era outro. Roberto, o irmão de Rosângela, mantinha os ombros tensos e os punhos cerrados. Ele nunca aceitara a irmã, e sua presença na boate era menos por proteção e mais por uma vigilância tóxica. Ele discutia asperamente com um cliente, um rapaz mais jovem que havia feito um comentário infeliz enquanto olhava para o palco. A música era alta demais para ouvir as palavras, mas a linguagem corporal de Roberto era um aviso de incêndio.
— Olha a cara do Roberto, Guilherme — sussurrou Gustavo, o irmão gêmeo, aproximando-se e apontando discretamente. — Ele está prestes a explodir. Se ele começar uma confusão aqui dentro, a segurança vai sobrar pra Rosângela.
Antes que Guilherme pudesse responder, Roberto empurrou o rapaz em direção à porta lateral. O grupo de amigos — Mario, Beatriz, Cláudia e Igor — que até então riam perto da cabine do DJ, percebeu o movimento e, impulsionados por uma curiosidade mórbida e o medo de que algo pior acontecesse, seguiram o rastro de violência para fora da boate.
O ar do estacionamento estava gelado e a chuva fina de verão deixava o asfalto com um brilho negro e escorregadio. Roberto e o rapaz estavam no centro de um círculo de carros antigos, entre Monzas e Opalas. A briga foi curta e covarde. Roberto, movido por um ódio que parecia vir de gerações, desferiu um soco que desequilibrou o jovem. O rapaz escorregou no óleo e na água da chuva, caindo com todo o peso do corpo para trás.
O som foi seco, um estalo oco que pareceu abafar as batidas graves que ainda vinham de dentro da boate. O crânio do rapaz atingiu a quina de concreto do meio-fio com uma precisão fatal.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo som da chuva batendo nos capôs dos carros. Roberto ficou parado, olhando para o corpo imóvel, as mãos ainda trêmulas. Ele não parecia arrependido; ele parecia estar calculando. Quando ele levantou a cabeça e viu os sete amigos observando a cena — os gêmeos, Rosângela ainda com o figurino brilhante, e os outros —, seu olhar mudou. Não era mais o olhar de um brigão de bar, era o olhar de um predador que precisava eliminar as testemunhas do seu naufrágio.
— Ele não vai parar, Gustavo! — grita Guilherme, segurando o braço do irmão com força ao ver o ódio puro que emanava dos olhos de Roberto, que agora caminhava em direção ao seu próprio carro para buscar algo sob o banco. — Ele sabe que a gente viu tudo. Ele sabe que a carreira da irmã acaba aqui e a vida dele também. Se não sairmos agora, somos os próximos!
— Mas a gente tem que ajudar o cara! — exclamou Beatriz, a voz aguda de pavor, apontando para o rapaz no chão que já não respirava.
— Não tem mais ajuda, Beatriz! — cortou Igor, agarrando a chave do seu carro com as mãos suadas. — Olha pro Roberto! Vocês acham que ele vai deixar a gente ir na delegacia amanhã? Entrem no carro agora!
Rosângela, ainda em choque, foi puxada por Guilherme. Ela olhou uma última vez para o irmão, o homem que compartilhava seu sangue mas que agora parecia um estranho demoníaco sob a luz amarela dos postes do estacionamento. Roberto entrou em seu veículo e ligou os faróis, as luzes atingindo o grupo como holofotes em uma execução.
Os dois carros dos amigos arrancaram, cantando pneu no asfalto molhado, fugindo em direção à subida escura da Serra do Mar. Atrás deles, os faróis de Roberto se acenderam como os olhos de uma fera, iniciando uma perseguição que cruzaria a fronteira entre a cidade e o abismo verde da montanha.
