CAPÍTULO I
Sexta-feira, 8 de Novembro de 1912.
Tem se tornado um pesadelo escutar Autumn no rádio, se eu voltasse para 1911, eu deveria ter levado a sério todo aquele alvoroço das pessoas dizendo que o Titanic iria mudar a vida dos seus tripulantes para sempre. Na verdade, não é que eu não tenha acreditado, mas até aquele momento, o Titanic era o passaporte para eu conquistar uma vida melhor, mesmo que eu precisasse mentir, enganar, a única coisa que eu queria era uma passagem para uma classe social melhor e assim poder ajudar a minha mãe.
Enquanto estávamos ali diante daquele cenário catastrófico naquela noite do dia 15 de abril, Autumn foi a última música que eu consegui escutar daqueles 8 cavalheiros, não existe cenário pior do que ver pessoas assustadas sabendo que estão prestes a perder a vida. Pessoas especiais morreram naquele dia, e por mais que eu esteja feliz por sobreviver, todos os dias eu me pergunto o motivo.
Pior do que o as cordas do violino, tem o toque do piano, no mesmo instante eu me lembro da mulher mais incrível e de bom coração que eu já conheci na vida, alguém que em 5 dias foi capaz de mudar quem eu sou. O que eu posso falar de alguém como ela?
A pianista Isabella sempre esteve avançada no tempo, ela não selecionava o valor das pessoas de acordo com o seu cofre, não olhava para as joias, com toda a importância que ela tinha na música, poderia ter saído do navio nos primeiros botes, mas era madrugada, os últimos botes estavam sendo colocados na água e ela estava lá procurando ajudar.
— Fillemon?
Senti um leve toque em minhas costas, era Inácio.
— Sim!
— Você viu que algumas pessoas do Titanic ainda estão desaparecidas?
— É, sim, eu... Eu escutei no rádio.
— Já pensou se você tivesse vindo nele? Estaria bem encrencado, ou famoso.
— Famoso por qual motivo? Não vejo razão alguma.
— História Fillemon, todo esse pessoal passou por uma situação que talvez fique marcado pelo o resto da vida.
— Pessoalmente, com certeza vai ficar marcado.
— Mas, isso não tem como nenhum de nós sabermos.
Resolvi não responder. Apenas dei um sorriso e voltei a focar no trabalho, é o único motivo pra eu estar aqui. Alguns jornais estavam tratando os sobreviventes como alguém com "sorte", como é que podem chamar de sorte alguém ficar frente a frente com a morte, perder amigos, família e presenciar tamanha tragédia?
O Titanic afundou, mas não tem um dia que eu não reviva este pesadelo, as músicas continuam tocando no rádio, Horbury ficou popular na Grã-Bretanha; Bethany nos Estados Unidos, e aqui no Brasil diariamente transmitem alguma canção tocada pela Isabella. Em homenagem, no dia 24 de maio de 1912, as sete principais orquestras de Londres se apresentaram em um memorial para os músicos que perderam a vida. No meio dessa turbulência, uma jornalista acabou descobrindo que eu existia e querendo saber sobre minha história no Titanic, em troca, me ofereceu uma grande quantia em dinheiro.
