CAPÍTULO II
Dentro de 2 semanas, vai fazer 1 mês que o Bondinho do Pão de Açúcar foi inaugurado lá no Rio de Janeiro, pra ser mais exato, se voltássemos no tempo, a inauguração ocorreu no dia 27 de outubro, o que nos dá 19 dias. É engraçado um teleférico levar o nome de bonde, mas vamos falar de algo concreto, o Pão de Açúcar é o terceiro teleférico no mundo, pra mim é uma grande notícia, mas a verdade é que ainda continuam falando sobre o sobrevivente do naufrágio do Titanic...
Como se já não fosse uma notícia grande o suficiente, Paraná e Santa Catarina então em uma guerra por terras que eu não faço ideia alguma de como ou quando vá terminar. Outra vez, um assunto de grande importância que aquela jornalista deveria estar explorando, mas ela continua atrás do que? De alguma história sobre aqueles 5 dias no Titanic. Certamente, o que ela espera é saber mais sobre a Isabella Fontenelle, coisa que eu jamais faria.
Confesso que, em alguns momentos eu penso na possibilidade de aceitar falar sobre o Titanic, a saudade da minha mãe é tão grande que esse dinheiro seria útil para ajudá-la, mas e depois? Depois de minha foto aparecer associada ao sobrevivente do Titanic, este seria meu novo nome. Qual a possibilidade de eu seguir em frente depois disso? Pouca, quase nenhuma.
Após o expediente no trabalho, Inácio me procurou para o convite de sempre.
— Você precisa passear mais. Se dedica muito em trabalho, precisa de diversão...
Eu ganho os meus réis, mas é tudo para minha mãe. Qual é a dificuldade do Inácio entender este detalhe?
— Não posso gastar meu salário com diversão. Você sabe disso!
— Sua mãe realmente passa por dificuldades?
— Infelizmente sim, nunca gostei de ver ela sofrendo, mas eu não conseguia ver qual era o erro. Ela ganha menos do que os outros...
— Mas mulher ganhar menos dinheiro é normal.
— Claro que não, Inácio! Não encaixa essa ideia de que a mulher tem que ser dependente do marido, e é justamente o maior problema, minha mãe não tem marido, então as pessoas tratam ela com menos respeito ainda. Oferecem um salário miserável...
— Só que não tem o que fazer, o mundo é assim. Eu tento entender essas coisas, eu vejo que você é diferente em quase tudo, mas acho que eu não posso fingir ser outra pessoa.
— Acho que é muito mais sobre respeito. A gente vive em um mundo desigual, e as mulheres precisam lutar pra conquistar o que os homens tem de mão beijada.
— É um pouco estranho isso... — Comentou e deu risada.
— Você está vendo? Essa situação não é engraçada. Certamente, você não passa por isso, do contrário não iria rir.
Inácio pediu desculpas e eu achei uma atitude nobre. Acabei ficando feliz por dentro, falei sobre um problema real e ele provavelmente percebeu que seus pensamentos talvez não sejam os melhores. O mais legal foi eu agir com naturalidade e eu me lembrei da Isabella, que se ela estivesse ali comigo ficaria muito feliz com minha atitude. Ela diria que a gente não pode se calar diante da desigualdade.
E falando sobre a Isabella, outra coisa que a iria deixar feliz é que o Brasil tem recebido muitos imigrantes, enquanto eu estava indo para casa, me deparei com inúmeros italianos na praça central da cidade, chegaram de transporte ferroviário. Passei o final de semana planejando a carta e o dinheiro que eu queria enviar para minha mãe, ela precisava saber que eu estava bem e que tudo iria melhorar para nós dois, mas na segunda-feira, assim que cheguei no trabalho, Inácio me deu uma notícia terrível; estávamos demitidos.
