— Me desculpa! É que toda essa história do Titanic é perturbadora, é uma grande pressão eu ter toda essa merda na minha vida. Eu tinha um plano, conheci aquela mulher, achei que tudo iria ficar bem, aconteceu o naufrágio, ela morreu...
Inácio não respondeu.
Fiquei ali esperando em torno de 10 minutos. Ele não disse uma palavra. Inácio se levantou, foi até a porta, saiu. Não voltou. Puta merda, perdi meu amigo, foi a única coisa em que consegui pensar.
1 semana depois.
Estranho como a minha vida foi feita de ciclos. Longos meses recheados de coisas ruins e apenas alguns dias sendo felizes. Alguns desses dias foi na minha infância, lá com minha mãe. Passávamos dificuldades, mas minha mãe sempre foi tudo pra mim. Crescer foi horrível, as desigualdades, a forma com que minha mãe não era bem vista pelas "pessoas de bem". Por mais que eu me esforçasse, não havia nada que eu pudesse fazer. O ciclo ruim só se fechou dentro daquele navio.
Às vezes, penso que o navio afundar era minha culpa. Os dias felizes terminaram então uma tragédia seria necessário. Meus dias ficaram mais longos, tenho impressão de que eu não existo mais... O plano de uma vida nova? Falhou. Ajudar a minha mãe? Falhou. Trabalho honesto? Falhou. O que eu devo fa...
Meus pensamentos foram interrompidos pela batida na porta.
— Fillemon!
Era Inácio, mas depois do que aconteceu na última sexta-feira, fiquei sem jeito de como deveria falar com ele. Fingir que nada aconteceu?
— Me desculpa!
— Não tem motivo. —Respondi com um sorriso sem graça.
— Eu não sabia o que dizer. O Titanic já se tornou uma lenda. Não fiquei bravo com você, mas saber que meu amigo é um dos sobreviventes muda tudo. —Inácio se sentou— Eu entendo que você não tenha me contado... Você é uma boa pessoa, não iria querer sucesso com uma história trágica...
Chato quando alguém fala algo que não condiz com quem você é. A gente pensa um pouco, será que eu devo corrigir? Temos a sensação de que vamos frustrar aquele alguém. O melhor é sempre falar a verdade.
— Não é bem assim! —Falei, interrompendo Inácio— Realmente, eu não queria ganhar dinheiro com uma história tão bonita e tão dolorida. Acho que é só vivendo de verdade, sentindo na pele, estando lá, aquelas pessoas... — Não sabia como explicar— O Titanic vai estar na minha cabeça todos os dias, por toda a minha vida, eu era uma pessoa horrível. Tinha ambição, sede, queria crescer de um jeito fácil. Então eu decidi mudar, mas tem algo que devolve pro antigo Fillemon.
— Quer dizer o que com isso?
Não respondi, mas Inácio acabou entendendo.
— Você tem certeza de que se expor para o jornal é a melhor opção?
— É a única. Pela minha mãe eu sou capaz de aguentar a pressão que for.
— Acho que após as coisas esfriarem, tudo vai se ajeitar.
— Não! Eu tenho certeza de que, depois que souberem da minha ligação com o Titanic, eu serei o cara do Titanic, ninguém mais... É como se fosse um fantasma, isso vai me perseguir.
— Foi tão forte assim o que aconteceu lá dentro?
Não esperava ter que reviver essas coisas outra vez, mas eu desconfiava que cada vez que eu precisasse contar de como foram aqueles dias no Titanic, é claro que as emoções viriam a tona. Eu me apaixonei e perdi o meu amor, eu não tive uma chance, e não vou ter uma segunda. Não tive uma fotografia da Isabella, os recortes de jornais que eu levei para o navio, perdi tudo. Não dá pra dizer que eu sinto alguma coisa, somente um vazio, uma falta de ar, aquela água congelante do oceano... O melhor e o pior dia da minha vida!
O tempo muda as pessoas, o único medo que eu tenho é de esquecer da Isabella, daquele sorriso e de como ela foi responsável pela tranquilidade que eu nem mesmo pensava que pudesse existir. Era como se eu estivesse perdido por toda a minha vida, quando nos conhecemos eu parecia ter encontrado um propósito, uma razão. Ela era o carvão das minhas turbinas. Um trocadilho besta, mas que tem me dado força...
Pela primeira vez eu soltei tudo, falei sobre cada coisa que aconteceu no Titanic, Em vários momentos, Inácio disse que eu poderia parar de contar, até porque conforme eu me lembrava das coisas, eu acabava sentindo as emoções daquele momento. É estranho estar sensível? Perdi a mulher da minha vida... Isabela me ensinou que eu deveria respirar quando estivesse com os nervos exaltados, é a única maneira de não se explodir, e foi o único jeito pra que eu continuasse contando tudo sobre o Titanic.
Não me lembro ao certo como fui socorrido, como escapei, como consegui chegar no Brasil... Eu estava me sentindo louco, mas Inácio disse que era normal, foi algo horrível o que aconteceu, e que o melhor era eu me focar no Fillemon que estava com a Isabella, ele era o único que poderia me ajudar com relação a falar com a jornalista. Me expor para o Brasil iria me trazer muito dinheiro e dessa forma eu poderia ajudar minha mãe.
Chato quando alguém fala algo que não condiz com quem você é. A gente pensa um pouco, será que eu devo corrigir? Temos a sensação de que vamos frustrar aquele alguém. O melhor é sempre falar a verdade.
— Não é bem assim! —Falei, interrompendo Inácio— Realmente, eu não queria ganhar dinheiro com uma história tão bonita e tão dolorida. Acho que é só vivendo de verdade, sentindo na pele, estando lá, aquelas pessoas... — Não sabia como explicar— O Titanic vai estar na minha cabeça todos os dias, por toda a minha vida, eu era uma pessoa horrível. Tinha ambição, sede, queria crescer de um jeito fácil. Então eu decidi mudar, mas tem algo que devolve pro antigo Fillemon.
— Quer dizer o que com isso?
Não respondi, mas Inácio acabou entendendo.
— Você tem certeza de que se expor para o jornal é a melhor opção?
— É a única. Pela minha mãe eu sou capaz de aguentar a pressão que for.
— Acho que após as coisas esfriarem, tudo vai se ajeitar.
— Não! Eu tenho certeza de que, depois que souberem da minha ligação com o Titanic, eu serei o cara do Titanic, ninguém mais... É como se fosse um fantasma, isso vai me perseguir.
— Foi tão forte assim o que aconteceu lá dentro?
Não esperava ter que reviver essas coisas outra vez, mas eu desconfiava que cada vez que eu precisasse contar de como foram aqueles dias no Titanic, é claro que as emoções viriam a tona. Eu me apaixonei e perdi o meu amor, eu não tive uma chance, e não vou ter uma segunda. Não tive uma fotografia da Isabella, os recortes de jornais que eu levei para o navio, perdi tudo. Não dá pra dizer que eu sinto alguma coisa, somente um vazio, uma falta de ar, aquela água congelante do oceano... O melhor e o pior dia da minha vida!
O tempo muda as pessoas, o único medo que eu tenho é de esquecer da Isabella, daquele sorriso e de como ela foi responsável pela tranquilidade que eu nem mesmo pensava que pudesse existir. Era como se eu estivesse perdido por toda a minha vida, quando nos conhecemos eu parecia ter encontrado um propósito, uma razão. Ela era o carvão das minhas turbinas. Um trocadilho besta, mas que tem me dado força...
Pela primeira vez eu soltei tudo, falei sobre cada coisa que aconteceu no Titanic, Em vários momentos, Inácio disse que eu poderia parar de contar, até porque conforme eu me lembrava das coisas, eu acabava sentindo as emoções daquele momento. É estranho estar sensível? Perdi a mulher da minha vida... Isabela me ensinou que eu deveria respirar quando estivesse com os nervos exaltados, é a única maneira de não se explodir, e foi o único jeito pra que eu continuasse contando tudo sobre o Titanic.
Não me lembro ao certo como fui socorrido, como escapei, como consegui chegar no Brasil... Eu estava me sentindo louco, mas Inácio disse que era normal, foi algo horrível o que aconteceu, e que o melhor era eu me focar no Fillemon que estava com a Isabella, ele era o único que poderia me ajudar com relação a falar com a jornalista. Me expor para o Brasil iria me trazer muito dinheiro e dessa forma eu poderia ajudar minha mãe.
