Fillemon | Capítulo 5




CAPÍTULO V

14 de abril de 1912, Domingo, 6:47 pm.
Um dia antes do naufrágio.
— Fillemon, nossa vida é um grande mistério... Vários homens estudiosos tentaram explicar a nossa existência e os acontecimentos a que somos submetidos. Posso planejar cada segundo do meu dia, mas isso não é suficiente pra que ele aconteça dessa mesma forma. Eu posso ficar doente e cada detalhe planejado terá sido perdido... Você acha que isso seria motivo pra eu desistir? É claro que não! Eu não quero coisas ruins no meu dia, mas elas vão aparecer. A gente precisa ter sabedoria pra contornar cada situação difícil. E o segredo é não desistir de viver. Você consegue me entender?

236 dias depois. Depois de longos meses vivendo em segredo, guardando o grande evento da minha vida, a coisa mais perfeita e mais horrível que eu tive a sorte de viver, confiar em um amigo e contar toda a verdade sobre quem sou fez tudo parecer mais leve. Perder meu emprego fez com que eu me lembrasse de como as coisas eram no passado, enquanto vivia com minha mãe e sem nenhuma expectativa de um futuro melhor, por um instante, havia me sentido como se tivesse voltado lá atrás, no ínicio, onde eu não tinha dado nem mesmo um passo para melhorar nossa vida.

— Fillemon! Tenho uma proposta para te fazer.

— Então me faça! Inácio, espero que seja algo relacionado a trabalho.

Ele deu risada.

— Infelizmente, não! Acho que você precisa renovar suas energias, se viajássemos para o Rio de Janeiro, talvez você possa colocar suas ideias no lugar.

— Não sei, já tive a aventura mais maluca da minha vida em vir pro Brasil.

— Eu sei que você queria conhecer o Pão de Açucar, seria uma oportunidade única. Você me falou disso quando a gente trabalhava...

— Sim, e ainda gostaria. Mas não tem um dia que eu fique sem pensar na minha mãe, eu mandei carta para ela, mas eu não tenho a mínima ideia se ela já recebeu. Eu queria que existisse uma forma de poder ter ela mais perto, fica uma enorme interrogação em minha mente...

— É muito complicado... Mas eu preciso insistir na viagem, eu acho que estou no meu limite, eu também estou zerado. Não dá para perdermos o que a gente nem mesmo tem. Você consegue me entender?

— Quer saber? Vamos pro Rio de Janeiro! Que seja o que tiver que ser!

Decidir jogar tudo para o alto é assustador, mas será que a vida não é essa? Um constante risco, uma constante busca de sonhos? Sempre fui questionador, mas não sei se um dia vou encontrar a resposta para tantas interrogações...

Estar sem dinheiro não foi problema para viajar, Inácio era inteligente, e muito mais do que eu. Não gastamos nenhum centavo e não precisamos fingir nada para ninguém... 

Na manhã do dia 21, sábado, estávamos no Rio de Janeiro, Inácio empolgado e eu questionando minhas escolhas. Logo adiante, uma senhora se aproximou e disse:

— Meu senhor, teria alguma moeda para me ajudar? Sou cega! —Disse ela, tirando o tapa olho esquerdo.

Olhei para Inácio, e ele me olhou.

— Claro que sim!

— Deus lhe ajude!

Inácio sorriu. Seguimos andando e ele começou a rir mais alto.

— O que foi?

— A gente não tem nada, e ainda dividimos o pouco com o próximo.

Em meio a tantos rostos, acabei me lembrando de um deles. Era uma mulher morena, de lábios carnudos e com um garoto pequeno em sua mão. Ela também ficou parada me encarando e sorriu.

— Você?

— Estou muito feliz em lhe ver... — Disse ela. Seus olhos se encheram de lágrimas.

Inácio ficou observando sem entender o que estava acontecendo. Naquela noite de 14 de abril, a última noite no Titanic, Isabella encontrou uma criança perdida pelo Navio, acabamos brigando com uma senhora preconceituosa e juntos fomos procurar pela mãe do pequeno Davi. A mãe do pequeno Davi era Samara e estava na terceira classe. Mesmo sem autorização, Isabella fez questão de levar Samara e Davi para jantar com a gente na primeira classe. Era o último jantar que acontecia no Titanic e por pouco não foi o último jantar daquela família.

— Eu procurei nos jornais pela Isabella, por você senhor Fillemon. Nunca consegui encontrar seu nome. Todos os dias eu rezei pedindo pra que você estivesse bem em algum lugar...

Ver o brilho nos olhos da Samara me deixou tão feliz. Se não tivéssemos encontrado o Davi, se a Isabella não tivesse insistido naquele jantar para os dois, talvez eles não tivessem sobrevivido.

— A Isabella era um anjo!

— Você também é... —Disse ela, pegando em minha mão— Vocês terem sido bons comigo e com meu filho, fez com que eu percebesse que existe esperança no mundo.

Fiquei muito feliz, uma atitude boa nossa mudou completamente a vida de alguém. Por um instante, não me importei em quão vazio eu estava o meu bolso, só sabia que toda aquela loucura de sair de casa, viajar no Titanic, me esbarrar na Isabela, perceber aquela criança perdida, tudo isso aconteceu pra que eles conseguissem se salvar do naufrágio. O destino pela primeira vez tinha feito sentido na minha vida.

— E você está bem? — Perguntou ela.

Suspirei.

— Estamos lutando. Estamos bem... — Respondi sorrindo.

— Não! Ele está mentindo! —Interrompeu Inácio.— Ele viajou no Titanic para dar uma vida melhor para a mãe dele. Ele se apaixonou pela Isabella e o amor da sua vida morreu. Ele tinha um emprego em Minas Gerais e perdeu o emprego. Se tem alguém bem aqui, esse alguém sou eu, porque mesmo sem a gente ter nada, o Fillemon é o melhor amigo que encontrei.

— Tudo bem. Eu acho que entendi... Eu preciso te pedir uma coisa Fillemon, e você não pode me dizer não!

Por mais que a Samara estivesse bem vestida, jamais imaginamos o que teria acontecido em sua vida. Na noite do naufrágio, como ela jantou conosco e estivemos juntos por boa parte da noite, quando todo aquele terror se iniciou, ela e o pequeno Davi ainda estavam no primeiro andar quando os primeiros botes desceram. A prioridade eram mulheres e crianças, sendo assim, acabou sendo salva de toda aquela tragédia.

No Brasil, Samara acabou ganhando um prêmio na loteria e resolveu investir fazendo vestidos para mulheres do Rio de Janeiro. Também não comentava que era uma das sobreviventes do Titanic. Nos encontrarmos fez com que se iniciasse um novo ciclo em nossas vidas. Como o comércio no Rio de Janeiro é formado em sua maioria, por homens, Samara apostou em nossa imagem para bater de frente com outros empresários. Além disso, se propôs a buscar minha mãe para viver no Brasil.

Infelizmente, não podemos voltar no tempo, não dá pra trazer a Isabella de novo, não vou ter respostas sobre essa tragédia ter acontecido e menos ainda o porque dela ter partido. Gostaria de ter respostas para todos os problemas, mas era como a Isabella me disse, eu não posso desistir. Temos sonhos, mas precisamos acreditar neles e nunca desistir, é o único jeito de chegar lá.


Fim.