Os pneus do Monza de Igor choravam nas curvas fechadas da estrada velha, um traçado de asfalto gasto que serpenteava a montanha como uma cicatriz mal curada. Logo atrás, o Gol de Gustavo mantinha a proximidade, as lanternas traseiras vermelhas sendo a única âncora visual em um mundo que se tornava subitamente branco. A neblina da Serra do Mar, densa e úmida, colava-se ao para-brisa, desafiando a velocidade dos limpadores que rangiam ritmicamente.
Dentro do carro de Igor, o silêncio era uma pressão física, interrompido apenas pelo som da respiração ofegante de cinco pessoas amontoadas. Rosângela estava no banco de trás, espremida entre Guilherme e Cláudia. O figurino de paetês, que horas antes emanava poder e glamour sob os refletores da boate, agora parecia uma armadura quebrada. Os reflexos das luzes do painel revelavam os sulcos deixados pelas lágrimas na maquiagem pesada de seu rosto.
Guilherme segurava a mão dela, os dedos entrelaçados com força, tentando transmitir uma segurança que ele mesmo não possuía. Ele sentia o tremor constante que vinha do corpo de Rosângela, um abalo que parecia vir da alma.
— Respira, Rosa... a gente vai sair dessa — disse Guilherme, aproximando o rosto do dela. — O Igor conhece esses caminhos. A gente chega em Petrópolis, procura ajuda longe da influência do seu irmão.
No banco da frente, Cláudia virou-se bruscamente, o rosto pálido e os olhos arregalados de quem acabara de despertar de um transe. Ela ignorou o esforço de Guilherme para manter a calma. O choque da cena no estacionamento havia se transformado em um ressentimento amargo, uma necessidade de encontrar um culpado dentro daquele veículo metálico que voava para o abismo.
— Você sabia que ele era capaz disso, Rosângela? — pergunta Cláudia, limpando o suor frio da testa com as costas da mão trêmula, a voz carregada de uma acusação que cortou o interior do carro como uma navalha. — Você sabia que o Roberto era um monstro? Todo esse tempo você trouxe a gente para perto dele, sabendo que ele é um desequilibrado? Aquele rapaz... ele nem teve chance. O seu irmão não deu um soco, ele deu um veredito!
— Cláudia, agora não é a hora! — cortou Igor, sem tirar os olhos da estrada, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. — Eu estou tentando não jogar a gente no despenhadeiro e você está fazendo um interrogatório?
— Eu tenho o direito de perguntar! — rebateu Cláudia, a voz subindo de tom. — Estamos fugindo como criminosos porque o irmão dela é um assassino! Se a polícia parar a gente, somos cúmplices. Se o Roberto nos pegar, somos arquivo morto.
Rosângela finalmente levantou o olhar. Seus olhos, normalmente altivos, estavam opacos, carregados pelo peso de anos de uma violência doméstica que o grupo apenas começava a vislumbrar. Ela olhou para Cláudia e depois para Guilherme, soltando a mão dele por um segundo para ajeitar o cabelo desfeito.
— Eu sabia que ele tinha ódio — respondeu Rosângela, a voz rouca, quase um sussurro que exigiu que todos fizessem silêncio para ouvir. — Eu convivi com o punho dele desde que meu corpo começou a mudar e eu parei de ser o "irmãozinho" que ele queria proteger. Mas eu achei... eu achei que fora de casa, com outras pessoas olhando, ele se conteria. Eu nunca pensei que ele chegaria ao ponto de tirar uma vida na frente de todo mundo.
— O problema, Rosa, é que ele não se importa mais com quem está olhando — interveio Mario, que estava no banco do carona, olhando obsessivamente pelo retrovisor lateral. — E o pior é que ele está vindo. Eu vi os faróis lá embaixo, dois pontos de luz furando a neblina. Ele está ganhando terreno.
Guilherme voltou a segurar a mão de Rosângela, sentindo o abismo que Cláudia havia aberto entre eles. Ele sabia que, para os outros, Rosângela agora era o elo com o perigo, a razão pela qual Roberto os caçava. O amor secreto deles, que já era difícil sob a luz do neon, agora precisava sobreviver à escuridão de uma estrada que parecia não ter retorno.
— Ele não é meu irmão — finalizou Rosângela, voltando a olhar para a névoa lá fora. — Um irmão não caça a própria carne. O que está vindo atrás da gente é apenas a sombra de tudo o que eu tentei deixar para trás quando subi naquele palco.
Nesse momento, Igor pisou fundo no freio. O Monza deu um solavanco violento. À frente, a estrada desaparecia em uma parede branca tão densa que os faróis altos batiam e voltavam. Eles haviam chegado ao ponto onde a Serra do Mar deixava de ser uma paisagem e passava a ser uma armadilha.
