Capítulo 8



  2013. São Miguel do Oeste.

— Você viu que o preço do tomate? Está louco de caro, Beatriz!

Ela sorriu.

— Aline, as coisas vão ficar muito mais difíceis nos próximos anos. Eu que trabalho no judiciário estou vendo que a coisa não anda muito boa. É tudo na base de empréstimos pra pagarem os honorários. E o problema é a administração, nela vem a corrupção. Mas, falando do tomate, até em casa já cortei, o Augusto não come carne de forma alguma, mas ele entendeu que agora o tomate deveria sair do cardápio.

— Então, semana passada eu fui em um restaurante com o Aldry e estava lá um cartaz avisando sobre a ausência do tomate. Não tem como. Imagine se aumentar o preço do feijão pra dez reais? Eu não ganho mal como advogada, mas esbanjar dinheiro? Jamais!

— Você tá certa, em casa é só o Lucas que ainda fica maluco pra que eu compre brinquedos super caros para ele. Mas ele fez treze anos agora, então logo vai parar. E o Augusto quer ser astronauta. Eu dou o maior apoio, você sabe, desde pequenininho era o sonho dele e eu fui fiz uma poupança. Os filhos são muito importantes pra gente.

— Eu estou tentando adotar uma criança.

— Eu pensava nisso antes de ficar grávida do meu segundo. Lembra disso?

— Bons tempos. Mas dois já é suficiente amiga. Você teve dois filhos lindos e inteligentes.

— Meu orgulho. Hoje ele chega de Florianópolis e vai na igreja comigo.

Beatriz Braz é uma advogada muito famosa de São Miguel do Oeste, sua família era natural de Vila Oeste, que começou a ser colonizada no inicio da década de quarenta quando chegaram ao local as primeiras famílias trazidas pela colonizadora Barth, Benetti & Cia Ltda. Ela era mãe de dois filhos, do pré-adolescente Lucas, e do jovem Augusto. O menor, era muito próximo do irmão mais velho, que era fissurado em astronomia e todas as noites estava no quintal apresentando para o irmão o que estava no céu. Era muito difícil ver eles brigando, Augusto era na verdade um ídolo para Lucas, pois quando tinha medo, era Augusto quem aparecia, quando tinha fome, era Augusto quem fazia o almoço, quando se machucava, era Augusto quem fazia curativo, quando tinha problema na matéria da escola, era Augusto quem o ajudava. Aquele era o mundo de Lucas.

Na cidade de Paraíso Marialda tinha recém assumido a prefeitura na cidade. Mesmo ja fazendo alguns meses, ela ainda estava nas ruas conversando com os moradores, e isso causava certa estranheza pois normalmente, os prefeitos, assim que assumiam seus cargos, se esquivavam da população.

— Finalmente vamos pra São Miguel, eu não aguentava mais essa cidade. Não tem ninguém legal aqui mãe — lamentava Gabriel — o pior é que agora vai ser assim pelos próximos quatro anos!

— Gabriel! Senta aqui no sofá fazendo um favor!
Gabriel estava sentado no chão quando Marialda chamou ele pra conversar.

— Eu sei que Paraíso é uma cidade pequena, que você preferia estar em Florianópolis rodeado de coisas legais, parques, cinema. Mas a mãe assumiu um compromisso aqui, eu sei que não posso transformar Paraíso em uma cidade tão grande quanto a nossa capital. Mas eu sei que eu posso fazer algo por cada morador daqui. Da nossa cidade! Se você não ta encontrando amigos, seja um. 

Eu não vou te privar de viajar pra São Miguel nunca, por enquanto eu não deixo você ir sozinho porque você ainda é pequeno, e você é importante pra mim, assim como o Lucas e o Augusto são pra tia Beatriz.

Gabriel estava encarando sua mãe e balançando a cabeça positivamente.

— Você entendeu?
Ele novamente balançou a cabeça.

— Eu te ensinei a ter educação. Me responda com palavras.

— Eu meio que entendo. Mas não gosto daqui, todo lado tem barro.

— Você não precisa destilar ódio quando não gosta de algo. Uma hora você vai crescer filho, e infelizmente eu não vou poder te segurar mais aqui comigo.
Gabriel abraçou Marialda, antes de responder que não, não iria abandona-la.

São Miguel do Oeste.

Lucas olhou no relógio e eram sete e quinze da noite, já estava escuro e logo Augusto iria chegar, o combinado é que ele iria na igreja com Beatriz, mas com o atraso ela resolveu ir sozinha. Lucas tomou banho rapidamente, coisa que pra ele estava difícil nos últimos dias, e sua mãe já andava reclamando. Aqueles segundos do relógio pareciam eternos. Escolheu jogar vídeo game pra hora passar mais rápido e nada. Já eram oito e quarenta da noite quando a garagem abriu e aquilo o animou, ele alegre correu para fora, até bateu com a perna na cadeira da mesa de jantar mas aquilo não era problema. Mas, quando chegou era Beatriz. Seus olhos estavam arregalados, Aline também estava no carro. Foi ela quem levou o garoto para o quarto que logo percebeu que algo grave tinha acontecido.

— Eu quero saber o que foi que aconteceu! — Implorava com as mãos na cabeça.

— Senta Lucas! Fica calmo!
Nesse momento Marialda tinha acabado de chegar, estavam alegres mas em minutos aquilo se aquietou, Gabriel chegou na porta do quarto assustado e quieto.

— O que que aconteceu? Pelo amor de Deus!

— Um acidente! — Soltou Aline.

— Meu irmão morreu? — Lucas estava muito inquieto, e naquele momento Aline não conseguiu responder, ele sentou na cama, ficou atordoado.

2016. Paraíso.

Eram sete e sete da noite quando Beatriz decidiu parar o trabalho e ir para a casa, ela estava trabalhando no caso de uma mulher que cansada de apanhar do marido, quando ele se envolveu em um acidente ela não prestou socorro e ele faleceu. Mas, foi ela pegar o telefone que ele tocou, era um número de Florianópolis perguntando se ela era a mãe de Augusto.

Continua...