A madrugada na Serra do Mar não trazia luz, apenas uma transição do branco leitoso da neblina para um azul profundo e asfixiante. O trio estava agachado atrás de um afloramento de granito coberto por musgo liso, tentando controlar a respiração. A poucos metros dali, em uma pequena clareira natural, o brilho de uma fogueira improvisada e o odor de fumo de corda denunciavam a presença de outros humanos. Eram três caçadores, cercados por sacos de estopa que se debatiam com jacus ainda vivos e carcaças ensanguentadas de tatus.
— Eles estão armados, não podemos pedir ajuda — cochichou Willian, observando as espingardas encostadas nas árvores.
Mas o pedido de ajuda tornou-se irrelevante em segundos. O assobio que os perseguira cessou bruscamente, substituído por um estalo seco, como se um tronco de carvalho tivesse sido partido ao meio por mãos invisíveis. Um dos caçadores levantou-se, mas antes que pudesse alcançar a arma, uma sombra emergiu da copa de uma batinga.
A criatura não saltou; ela fluiu.
À luz trêmula das brasas, os três amigos congelaram diante da anatomia do impossível. A criatura era alta, mas sua postura era curvada como uma raiz secular. A pele não possuía o brilho do tecido vivo, tendo a textura rugosa, cinzenta e fendida de uma casca de árvore centenária, com líquens que pareciam crescer diretamente de seus ombros. Onde deveria haver cabelos, uma chama fria e azulada, semelhante ao fogo-fátuo dos cemitérios, oscilava contra o vento, iluminando o rosto anguloso com um brilho espectral. Mas o que mais perturbava os sentidos era a base de seu corpo: os pés, largos e calosos, estavam fundidos ao contrário. Os calcanhares enfrentavam o mundo, enquanto os dedos apontavam para as costas da criatura.
O ataque foi silencioso e coreografado. Com um movimento que desafiava a física, o Guardião envolveu o pescoço do primeiro caçador. Não houve grito, apenas o som de cartilagem cedendo.
— O que é aquilo... a articulação do joelho é invertida? — sussurra Willian, o terror científico suplantando a razão enquanto ele observava, hipnotizado, a forma como a criatura se movia para trás para avançar. — A biomecânica dele... ele usa a ilusão de ótica das pegadas para induzir a presa ao erro de direção, mas a força muscular é de um primata de grande porte. Ele não é um mito, Estevão, é uma resposta biológica extrema!
Os outros dois caçadores tentaram correr, mas a floresta parecia conspirar. Raízes que antes eram imóveis pareceram erguer-se para prender seus tornozelos. O Guardião os alcançou com uma velocidade que a visão humana mal conseguia processar. O que se seguiu não foi uma caçada, foi uma colheita.
A criatura não usava ferramentas. Ela usava as próprias mãos, que terminavam em unhas que lembravam lascas de madeira petrificada, para abrir os corpos. No entanto, não havia o sadismo humano; havia uma eficiência fúnebre.
— Ele não está apenas matando, ele está devolvendo os corpos para a terra — continuou Willian em um sussurro febril, as mãos enterradas na lama. — Olhe como ele empurra os restos para dentro das raízes da figueira! Ele está alimentando a árvore com a carne de quem a cortaria. É uma simbiose de sangue. Ele é o jardineiro dessa droga de pesadelo!
Estevão, o homem que doava para salvar o mundo, estava em estado de choque catatônico. O sangue que ele via fertilizando o solo não era o conceito abstrato de "natureza perfeita" que ele defendia em reuniões de condomínio; era a realidade crua de que a preservação exigia um sacrifício que ele nunca cogitara.
Ryan, por outro lado, percebeu o perigo imediato. O Guardião, após terminar de enterrar o último caçador sob as raízes de uma figueira-brava, parou. A chama azul em sua cabeça brilhou com mais intensidade. A criatura virou o pescoço em um ângulo de cento e oitenta graus, sem mover o corpo de casca.
— Ele sentiu o cheiro do nosso medo — disse Ryan, a voz plana de quem aceitou o fim. — O banquete da mata ainda não acabou.
