O motor do Monza tossiu uma, duas vezes, antes de soltar um estalo metálico final que se perdeu pelo despenhadeiro. Igor girou a chave freneticamente, mas o painel apenas piscava, fraco, denunciando que o combustível ou a paciência daquela máquina haviam chegado ao fim no pior trecho possível da Serra. O carro deslizou por inércia até parar rente ao acostamento, onde o asfalto terminava abruptamente em uma vala tomada por lodo e samambaias gigantes.
Atrás deles, o Gol de Gustavo também parou, os faróis iluminando a traseira do Monza e revelando a densidade assustadora da neblina que agora os cercava. As portas se abriram com batidas secas que pareciam disparos no silêncio absoluto da montanha. O grupo se reuniu no estreito espaço entre os veículos e a encosta, sentindo a umidade da mata como uma presença física, uma muralha verde que parecia dar um passo à frente toda vez que eles desviavam o olhar.
— Não pode ser... pane seca agora? — Igor desferiu um soco no volante antes de sair, o rosto transfigurado pelo pânico. — Eu tinha certeza de que dava para chegar até o posto no topo!
— Você tinha certeza de muita coisa, Igor, e agora a gente está aqui, servidos numa bandeja! — exclamou Cláudia, os braços cruzados para aplacar o frio que subia do chão.
Guilherme ajudou Rosângela a sair do banco de trás. Ela ainda usava o casaco dele sobre o figurino de paetês, mas o brilho das lantejoulas agora parecia um alvo. Ele a manteve perto de si, sentindo o coração dela bater contra seu braço. Mario e Beatriz tentavam usar as lanternas de mão para iluminar o motor, mas o feixe de luz batia na névoa e voltava, criando a sensação claustrofóbica de estar dentro de uma caixa branca.
De repente, o som da mata mudou. O gotejar das árvores e o barulho dos sapos pararam. Do fundo da estrada, lá embaixo, veio um ruído rítmico, grave e persistente. O ronco de um motor potente subindo a marcha com paciência, sem pressa, como um predador que sabe que a presa não tem para onde correr.
E o mais aterrorizante: não havia luzes. Roberto estava subindo a serra de faróis apagados, guiando-se apenas pelo contorno das árvores ou por um instinto assassino que desafiava a escuridão.
— Ele está vindo — disse Beatriz, com o queixo trêmulo. — Ele apagou as luzes para a gente não saber onde ele está.
— Apaguem as lanternas! — disse Mario em um tom baixíssimo, avançando para cobrir a luz que Beatriz segurava. — Agora! Se ele vir a luz, ele vai saber exatamente onde atirar. Ele conhece essa estrada como a palma da mão, ele sabe que aqui é o ponto cego da curva.
Um a um, os feixes de luz foram cortados. A escuridão que se seguiu foi total, palpável e fria. Eles ficaram ali, parados no acostamento, respirando com dificuldade, ouvindo o som do motor de Roberto ficando cada vez mais nítido, mais próximo. O som metálico de engrenagens trabalhando no escuro parecia o rosnar de uma fera.
— A gente não pode ficar aqui — avisou Gustavo, aproximando-se do irmão. — Se ele chegar com o carro, ele só precisa ligar os faróis de milha e vai enxergar a gente como alvos fáceis.
— Temos que entrar na mata — respondeu Guilherme, sentindo o aperto da mão de Rosângela. — É a nossa única chance. O mato é fechado, o carro dele não entra.
— Entrar no mato? No escuro? — Cláudia estava prestes a entrar em colapso. — A gente vai se perder, vai cair em algum buraco!
— Ou a gente entra no mato, ou a gente espera o Roberto estacionar aqui e descarregar o pente da arma dele na nossa cara — sentenciou Mario, pegando uma mochila e indicando a trilha lateral que mal se via sob a vegetação.
O som do motor de Roberto parou subitamente. O silêncio que veio depois foi pior que o barulho. Eles sabiam que, em algum lugar ali perto, na neblina, uma porta de carro estava sendo aberta sem fazer ruído e um homem estava sacando uma arma, esperando ouvir o primeiro galho seco se quebrar.
Sem mais palavras, guiados apenas pelo toque das mãos uns nos outros, o grupo abandonou os veículos e deu o primeiro passo para dentro do império das sombras.
