A luz fluorescente da sala de interrogatório em Teresópolis piscava com um zumbido irritante, projetando sombras longas sobre o rosto vincado de Seu Antenor. O ambiente cheirava a café requentado e papel antigo. Sobre a mesa de metal, o Delegado Arruda espalhou, com um desdém quase cerimonial, uma série de fotografias em preto e branco e sacos plásticos de evidências.

Dentro dos sacos, brilhavam as mandíbulas de aço de armadilhas para tatu e trabucos artesanais, todos ostentando etiquetas de perícia que confirmavam a presença das digitais de Antenor. Ao lado, as fotos do crime: um caçador de codornas encontrado morto nos limites da propriedade do policial aposentado. O corpo do homem parecia ter sido torcido como uma peça de roupa molhada.

— Antenor, eu te conheço há vinte anos. Fomos parceiros na corporação — disse o Delegado Arruda, encostando-se na cadeira que rangeu sob seu peso. — Mas as evidências não têm amizade. Suas digitais estão em cada armadilha apreendida na zona do crime. O corpo do "Tião da Guia" foi achado a quinhentos metros da sua cabana. Você sempre foi obcecado por esses caçadores, sempre disse que faria o que a justiça não fazia. Agora, parece que você finalmente perdeu a mão.

Antenor não desviou o olhar. Suas mãos, algemadas à barra de ferro da mesa, estavam imóveis. Ele parecia ver através do delegado, através das paredes de concreto da delegacia, fixo na silhueta escura da serra que se erguia do lado de fora da janela.

— Você está olhando para o dedo que aponta, Arruda, mas está ignorando a lua — respondeu Antenor, sua voz soando como o atrito de pedras no fundo de um rio. — Aquelas armadilhas têm as minhas digitais porque eu as desarmei. Passei os últimos cinco anos limpando o veneno que esses homens jogam na mata. Eu não matei o Tião. Nada que um homem possa carregar na cintura faria o que foi feito com ele. Você viu o relatório da autópsia? O esterno dele foi esmagado de fora para dentro, sem hematomas de impacto. Foi pressão, Arruda. Pressão de raízes.

O delegado bufou, batendo com a palma da mão na mesa.

— Chega de folclore, Antenor! Você é um homem da lei, ou era. Vai me dizer agora que foi o Saci? Ou quem sabe a Mula Sem Cabeça?

Antenor inclinou-se para frente. O brilho nos seus olhos não era de loucura, mas de uma lucidez terrível que fez o delegado recuar um centímetro.

— Vocês estão perdendo tempo me trancando aqui enquanto aqueles garotos estão lá em cima — avisa Antenor, com a voz rouca, o som saindo das profundezas de seus pulmões cansados. — Eu vi o carro deles parado na entrada da Trilha da Neblina. São turistas, Arruda. Intelectuais da cidade que acham que a mata é um papel de parede para fotos de internet. Eles entraram no território de caça do Guardião. O que está matando aqueles homens não usa calibres ou facas de aço. É algo que estava aqui antes do primeiro português pisar na areia e vai estar aqui depois que vocês virarem pó.

Arruda suspirou, pegando o prontuário para encerrar a sessão.

— A Serra é perigosa por causa de homens como você, Antenor. Malucos justiceiros que se perdem na própria solidão. Você vai ficar na cela quatro até o juiz de custódia chegar de manhã.

— De manhã, o que restar deles vai servir de adubo para as samambaia-açú — finalizou Antenor, enquanto era levantado pelos ombros por dois investigadores. — Você acha que a grade dessa cela me prende, mas é o contrário. Ela é a única coisa que me protege do que está vindo descer a montanha para buscar o que é dele. Ouça o vento, delegado. Ele não está soprando. Ele está assobiando.

Quando a porta de ferro da carceragem bateu, o silêncio que se seguiu na delegacia foi subitamente interrompido por um longo e melódico assobio que pareceu vir de dentro dos dutos de ventilação, fazendo todos os policiais presentes pararem, por um breve e gélido segundo, com a mão no coldre.