A vegetação rasteira chicoteava as pernas de Guilherme enquanto ele abria caminho entre as folhas largas e úmidas. O grupo avançava aos tropeços, tateando troncos cobertos de lodo e raízes que pareciam garras brotando do solo. A visibilidade era nula; a neblina havia se infiltrado entre as árvores, transformando a mata em um labirinto de formas distorcidas onde cada sombra se assemelhava a um homem armado.

A poucos metros dali, o som de galhos secos estalando indicava que Roberto já não estava mais na estrada. Ele havia entrado na floresta.

— A gente devia ter ficado lá — disse Igor, a voz embargada pelo choro contido enquanto ele se escorava em um tronco de cedro. — Se a gente se entregasse, se explicasse que foi um acidente... talvez ele tivesse piedade.

— Piedade? — Gustavo virou-se, agarrando Igor pela gola da camisa, os olhos brilhando com uma fúria desesperada. — Você viu o que ele fez no estacionamento! Ele não bateu para machucar, ele bateu para matar. Se você voltar agora, Igor, a única coisa que vai conseguir é um tiro na nuca.

— O Gustavo tem razão — interveio Beatriz, embora suas mãos tremessem tanto que ela mal conseguia segurar a própria mochila. — Mas para onde estamos indo? Estamos andando em círculos! Olha essas samambaias, parecem as mesmas de dez minutos atrás.

O pânico começava a corroer a lógica do grupo. Cláudia e Mario discutiam em tons baixos sobre qual direção seguir, enquanto Rosângela permanecia imóvel, os olhos fixos na escuridão de onde vieram. O brilho de seu figurino estava apagado pela lama, e ela parecia subitamente pequena, despojada da persona que ostentava no palco da boate.

De repente, um grito rasgou a quietude da serra, vindo de algum lugar à direita deles.

— Rosângela! Aparece!

A voz de Roberto era potente, mas soava estranha, rebatendo nos paredões de pedra e nas copas das árvores até que parecesse vir de todas as direções ao mesmo tempo. Era um som predatório, carregado de uma falsa calma que causava calafrios.

— Eu só quero conversar, minha irmã! — continuou ele, o tom agora simulando uma mágoa profunda. — Não deixa esses merdas estragarem a nossa família! Eles não entendem o nosso lado, Rosa! Eles não são como a gente!

Rosângela soltou um arfar curto, as unhas cravando no braço de Guilherme. Ela conhecia aquele tom. Era a voz que Roberto usava antes de as discussões em casa se transformarem em hematomas. Era a voz da manipulação, o som da armadilha sendo armada.

— Não responda — disse Guilherme, o aviso saindo quase imperceptível. — Ele está tentando localizar a gente pelo som.

— Se ele chegar perto, eu me entrego sozinho — declarou Mario, dando um passo para trás, longe dos outros. — Eu não morro por causa de briga de família de ninguém.

— Se você sair agora, você revela onde todos nós estamos, seu idiota! — rebateu Gustavo, avançando para impedir Mario.

A dinâmica do grupo estava em frangalhos. O medo de morrer nas mãos de Roberto começava a superar a lealdade entre amigos. Enquanto discutiam, o barulho de botas esmagando a folhagem ficou mais nítido. Roberto estava perto. Ele não estava mais gritando; ele estava ouvindo.

Um feixe de luz súbito cortou a neblina, vindo de uma lanterna potente. A luz varreu as árvores a poucos metros de onde estavam escondidos. Roberto estava parado entre duas araucárias, a silhueta projetada contra o branco da névoa. Ele segurava um revólver com a naturalidade de quem carrega uma ferramenta de trabalho.

— Eu sei que vocês estão por aqui — disse ele, agora em um tom de conversa comum, quase casual. — A serra é pequena demais para tantos segredos.

O grupo se agachou no chão lamacento, prendendo o fôlego, enquanto a luz da lanterna passava centímetros acima de suas cabeças.