A escuridão na Serra não era apenas a ausência de luz; era uma presença física, uma massa fria que parecia grudar na pele junto com o suor e o pavor. O trio corria sem direção, rompendo a vegetação rasteira com a força do desespero. Estevão liderava, mas seu fôlego era curto e ruidoso, um contraste patético com o silêncio predatório que os envolvia. A cada dez metros, o assobio melódico e fúnebre do Guardião ecoava, ora parecendo vir do topo das araucárias, ora parecendo soprado diretamente no pé do ouvido de Ryan.
— Não parem! Se pararmos, o chão nos engole! — gritava Estevão, a voz falhando enquanto galhos de laranjeiras-bravas chicoteavam seu rosto.
Subitamente, um estalo seco. Ryan, que tentava manter o ritmo apesar das pernas trêmulas, sentiu algo prender seu tornozelo. Não era uma armadilha de ferro, mas uma raiz exposta que parecia ter se erguido do solo no momento exato de seu passo. Ele caiu pesadamente, o impacto do rosto contra a terra úmida enchendo sua boca com o gosto amargo de lodo e folhas mortas. Um grito de dor escapou de sua garganta quando sentiu o estiramento violento nos ligamentos do pé.
— Meu pé! Eu travei, eu não consigo levantar! — Ryan gemia, tentando puxar a perna, mas a dor era uma brasa ardente subindo pela canela.
Willian e Estevão pararam, derrapando na lama. Willian ajoelhou-se e apontou a lanterna para o chão, mas a luz revelou algo que fez seu estômago revirar. Ao redor de onde Ryan caíra, o solo estava coberto de pegadas. Eram dezenas delas, frescas, com o calcanhar voltado para eles e os dedos apontando para o abismo da floresta à frente. O problema não era a quantidade, mas a lógica: as marcas cercavam o grupo em um círculo perfeito, mas todas indicavam que a criatura estava se afastando, enquanto o som do assobio provava que ela estava cada vez mais perto.
— Ele está na nossa frente e atrás de nós ao mesmo tempo! — grita Estevão, perdendo completamente a compostura idealista, as mãos puxando os próprios cabelos enquanto ele girava em torno de si mesmo, a lanterna iluminando apenas o caos. — Que tipo de criatura faz isso? Willian, pelo amor de Deus, você é o biólogo, explica essa droga de bicho! Onde está a porcaria da lógica biológica disso?
Willian tentava imobilizar o tornozelo de Ryan com um pedaço de corda da mochila, mas suas mãos tremiam tanto que ele mal conseguia fazer um nó. Ele olhou para as pegadas invertidas, depois para a copa das árvores onde a chama azulada do Guardião parecia dançar como um reflexo nas folhas molhadas.
— Não há explicação no Reino Animal para isso, Estevão! — responde Willian, ofegante, a voz embargada pelo reconhecimento de sua própria insignificância acadêmica diante do sobrenatural. — A biologia estuda a vida que se adapta para sobreviver, mas isso aqui... isso é uma anomalia ecológica, uma resposta violenta contra o que a gente fez com o mundo! Ele não segue as leis da termodinâmica ou da evolução. Ele é a própria Serra manifestando um anticorpo contra a nossa espécie. Se o norte mudou, se as pegadas mentem, é porque a floresta quer que a gente se perca na nossa própria razão!
— Temos que carregar o Ryan — disse Estevão, a voz subindo uma oitava. — Se ficarmos aqui para cuidar do ferimento, seremos o próximo adubo para aquela figueira!
Ryan olhou para trás, para o túnel de escuridão de onde vieram. Entre dois troncos de canela-preta, a névoa se abriu por um milésimo de segundo. Ele viu o vulto de casca de árvore, imóvel, com os pés virados para eles, mas o rosto — ou o que quer que fosse aquela máscara de madeira e fogo — voltado para a direção oposta. A criatura estava de costas, mas parecia estar olhando diretamente nos olhos de Ryan.
— Ele não quer que a gente fuja, Willian — sussurrou Ryan, sentindo o frio da terra subir pelos seus ossos. — Ele está nos conduzindo. As pegadas apontam para onde ele quer que a gente morra.
O assobio recomeçou, agora em uma harmonia dupla, como se a própria mata estivesse cantando um réquiem para os três intrusos.
