A grota era um refúgio úmido, cercada por paredes de pedra cobertas de musgo que gotejavam sobre o grupo. O som da água batendo nas pedras servia de escudo contra o barulho lá fora, permitindo um breve instante de isolamento. Enquanto os outros vigiavam a entrada da fenda, Guilherme e Rosângela se encolheram em um canto, os corpos encostados para combater o frio cortante da madrugada.

A maquiagem de Rosângela estava totalmente borrada, restando apenas manchas escuras sob os olhos. Ela olhava para as próprias mãos, onde os paetês do vestido arrancados pela mata deixavam feridas na pele.

— Você devia ter ido com o seu irmão, Guilherme — ela disse, sem olhar para ele. — Se estivesse no outro carro, estaria longe daqui. O Roberto quer o meu sangue, ou o meu silêncio. Ele nunca vai aceitar que eu escapei. E agora você está no meio desse lixo por minha causa.

Guilherme segurou o rosto dela, forçando-a a encará-lo. O tremor nas mãos dele não era apenas de medo, mas de uma urgência que a proximidade da morte traz à tona.

— Eu não estou aqui por causa do seu irmão, Rosa. Eu estou aqui por você.

— Você viu como as pessoas olham — ela rebateu, com a voz embargada. — Na boate é fácil, no escuro é fácil. Mas aqui, no meio do nada, a gente vê a verdade. O mundo não tem lugar para nós dois juntos. Para eles, eu sou um espetáculo de noite e uma aberração de dia. Em 1999, Guilherme... ninguém entende isso. Nem o seu irmão, nem os seus amigos.

— Pois que não entendam — Guilherme respondeu, com uma firmeza que surpreendeu a si mesmo. — Eu passei a vida inteira tentando ser o que o Gustavo esperava, o que a minha família esperava. Mas quando eu te vejo naquele palco, ou quando a gente está sozinho, eu sinto que finalmente encontrei algo real. Eu não ligo para os nomes que dão ou para o que dizem sobre a sua transição. Para mim, você é a Rosângela. E eu prefiro morrer nesta serra hoje sendo quem eu sou do que viver mais cinquenta anos escondido nas sombras da vontade dos outros.

Por um segundo, o tempo pareceu parar. O toque entre eles era a única coisa quente naquele deserto de gelo e neblina. Rosângela encostou a testa na dele, fechando os olhos, permitindo-se acreditar naquela promessa impossível.

Mas o momento de paz foi estilhaçado pelo som de um cão de revólver sendo puxado.

A luz da lanterna de Roberto atingiu o fundo da grota como um soco luminoso. Ele não estava mais gritando ou correndo; ele estava parado na entrada, a silhueta bloqueando a pouca claridade que a lua tentava filtrar. A arma estava estendida, apontando diretamente para o peito de Guilherme antes de desviar para o rosto de Rosângela.

— Que cena emocionante — cuspiu Roberto, a voz carregada de um desprezo que parecia vir do fundo de suas entranhas. — Eu sabia que tinha algo errado com você, Guilherme. Mas se juntar com isso? Com o que sobrou do meu irmão?

— Cala a boca, Roberto! — gritou Guilherme, tentando se colocar na frente de Rosângela, mas ela o segurou pelo ombro, recusando-se a se esconder.

— Você sempre foi a vergonha da casa — continuou Roberto, ignorando o protesto. Ele deu um passo à frente, entrando na grota, a face distorcida por uma fúria doentia. — Eu tentei consertar você na porrada, tentei te avisar, mas você preferiu essa vida de pecado, sujando o nome da nossa família em boates de quinta categoria. E agora vai levar seus amiguinhos pro buraco junto com você. Não vai sobrar ninguém para contar essa história.

Roberto levantou a arma, ajustando a mira. Os outros amigos, encolhidos nos cantos da grota, paralisaram. O dedo de Roberto começou a pressionar o gatilho, mas o ar dentro da fenda subitamente ficou mais denso. Um assobio longo, vindo não da estrada, mas de dentro da própria mata que cercava a grota, cortou a fala do assassino.