Quando somos criança, o bom é que o tempo não passa. E minha infância foi exatamente assim, morávamos em um sítio, e ajudávamos nossos pais com a lavoura. Sim, nos trabalhávamos desde pequenos, afinal de contas, era aquele milharal que nos sustentava. Nossos pais não brigavam perto da gente e não haviam guerras, mortes e brigas como se vê hoje em dia.

Se conseguíamos se divertir? Eu tinha minha boneca feita de espiga de milho e me lembro bem quando ganhei da minha mãe. Além disso, meus outros 6 irmãos também moravam com a gente, então conseguíamos nos divertir o tempo inteiro. Menos quando o pai estava por perto, neste momento era só trabalho e respeito.

Meu pai era muito sério, mas nos educou muito bem. Desde pequena eu sabia o quanto era grave passar no meio dos adultos enquanto estavam conversando. Me lembro que uma vez meu irmão entrou na cozinha enquanto ele e um outro senhor estavam tomando café, meu irmão ficou duas semanas sentando de lado pois o chicote havia deixado marcas.

Minha mãe sempre fora o oposto, sorridente e feliz, cuidava dos 7 filhos sem fazer distinção, eram todos mimados demais e amados demais. Não sei se meu pai reclamara, mas nunca presenciei nenhuma discussão entre os dois. Outra lição que eu aprendera e levaria para a vida toda.

Conforme o tempo passava, meus irmãos e irmãs acabaram se casando e meu pai perguntou se eu gostaria de me casar com um moço que sempre passava pela estrada onde ficava nosso sítio. Naquele tempo as moças precisavam se casar para não ficarem faladas, na verdade eu sempre achei uma grande bobagem.

Naquele mesmo dia, enquanto eu teria que pensar na proposta de casamento, minha mãe me procurou e disse que eu não precisava me casar aos 15 anos. Contou que meu pai estava preocupado, mas que eu poderia ficar com eles quanto tempo fosse necessário. E foi neste momento que eu tive a tranquilidade de dizer não para o casamento com aquele moço que eu vi duas vezes com uns 500 metros de distância.

Não falei tudo ao dizer que não queria me casar. Agora eu estava disposta a nunca me casar, quero passar o resto da minha vida no sítio com meus pais. Eu realmente gosto de cuidar das plantações, de cozinhar, de viver da forma que eu sempre vivi.

Descobri que o mundo não acabava no final do horizonte, e de forma alguma eu tive vontade descobrir o que havia depois dele. Existia um Rio de Janeiro em alguma parte naquele desconhecido. Naquele momento, tive que fazer uma escolha...