Capítulo 1: Calma lá, mi amor

Calma lá, mi amor


 O sol da primavera em Paraíso, Santa Catarina, costumava ter um brilho dourado e gentil, mas para Letícia, ele apenas destacava o quanto ela ainda se sentia uma peça de quebra-cabeça fora do lugar. Ela estava na cidade há seis meses, com seu sotaque argentino teimoso, e o jeito desajeitado que, na Argentina era considerado charme, aqui era apenas alvo de escárnio.

Letícia tentou abrir o armário, mas suas mãos escorregaram, fazendo com que uma pilha de livros despencasse com um baque seco. Ela suspirou, abaixando-se rapidamente para recolher a bagunça, sentindo os olhares na nuca.

Dios mío, eu juro que tenho boa coordenação motora! Deve ser a gravidade brasileira que é mais forte, só pode ser... — resmungou para si mesma em um português com sotaque.

A risada suave de Gabriel a alcançou. Ele estava encostado nos armários, observando-a. O sorriso fácil o fazia o garoto mais popular da escola. Gabriel era o oposto de Letícia em todos os sentidos: atlético, confiante e, crucialmente, filho de Marialda, a prefeita controladora da cidade. O namoro de três meses era mantido sob um manto de sigilo que sufocava Letícia.

— Calma lá, mi amor. Deixa que eu te ajudo a domar esses livros rebeldes. — Ele se abaixou, pegando um livro. — Se alguém perguntar, você estava apenas me mostrando a edição especial de Eletricidade Básica que você adora. — Ele piscou, ajeitando a pilha nas mãos dela.

— Eletricidade Básica? Você é um péssimo mentiroso! — Letícia devolveu o sorriso, mas a leveza sumiu rapidamente. — Por que não podemos só... ser um casal normal, Gabriel? Eu sei que sou meio atrapalhada, mas não sou um vírus que vai prejudicar sua popularidade.

Gabriel recostou-se novamente no armário, a expressão tensa.

— Não é você, Letícia! E você sabe que não é. O problema é a minha mãe, Marialda. Ela não me vê como um adolescente. Eu sou o Gabriel, o filho da prefeita. Ela passa o tempo todo gerenciando minha imagem, como se eu fosse uma obra pública. Se eu aparecer com você, a primeira coisa que ela vai dizer é: "Gabriel, essa garota não combina com o seu perfil". Ela vai querer saber o histórico familiar dela, se os pais votam nela... Acha que estou exagerando?

— Não, e é isso que me assusta. — Letícia apertou os livros contra o peito. — Você é um cara tão legal, mas quando sua mãe te olha, parece que você encolhe. E eu... eu cansei de ter que fingir que a gente só se esbarra por acaso.

Antes que Gabriel pudesse responder, a atmosfera mudou. Os sussurros cessaram, e um cheiro forte de perfume caro invadiu o corredor. Era Valéria, a ex-namorada de Gabriel e a rainha não oficial da escola, acompanhada por suas duas "súditas". O sorriso de Valéria era afiado, e ela parou a poucos passos de distância.

— Olá, Gabriel. Vi que você está de babá. — Valéria deu uma pausa dramática. — Ah, oi... como é o seu nome mesmo? A argentina? Ou seria a Cinderela Desastrada? Sua expressão de tédio é palpável, Gabi.

Gabriel forçou um sorriso, um mecanismo de defesa automático.

— Valéria. Estamos só conversando sobre a prova de Biologia.

— Biologia? Achei que estivessem conversando sobre como é andar de um lado para o outro sem cair. — Valéria deixou a provocação no ar. — Ou talvez sobre como seus pais te trouxeram para o Brasil e você ainda não conseguiu se integrar. Você tem que se esforçar mais para parecer... daqui, sabe?

O comentário tocou Letícia no ponto mais sensível: o sentimento de não pertencer. Ela fechou a cara, seus olhos escuros faiscando.

— Eu não preciso me esforçar para ser quem eu sou. E não me importo se eu sou daqui, de lá ou da Lua. Minha vida não gira em torno de tentar agradar você ou seu grupinho de cópias entediadas.

Valéria riu, mas o som não alcançou seus olhos.

— Uau! Ela tem garras. Mas garras afiadas não vão esconder que você é apenas um tropeço na vida do Gabriel. Ele tem um padrão. Você não é o padrão. Eu sou. E, aliás, ele tem compromissos sérios agora.

Ela se virou para Gabriel, a voz tornando-se melosa.

— Gabi, sua mãe está te procurando. Ela quer que você vá para a reunião da Ordem e Decência Cívica na prefeitura. Você sabe, coisas importantes. Não perca seu tempo com futilidades. Ela já está de olho em você.

Gabriel sentiu a adrenalina da raiva misturada com o pânico. Sua mãe. O olhar de Valéria era um triunfo: ela sabia exatamente onde atacar, usando Marialda como arma. Ele hesitou. Se ele defendesse Letícia agora, Valéria espalharia o namoro, e Marialda ficaria furiosa. Ele olhou para Letícia, que esperava dele uma reação, mas a pressão era demais.

— É... sim. Eu... eu tenho que ir. Minha mãe me espera. — Ele deu um aceno rápido, desviando o olhar. — Letícia, depois a gente se fala.

Gabriel virou-se apressadamente na direção oposta a Valéria, fugindo da situação e deixando Letícia sozinha. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo riso seco de Valéria e suas amigas.

— Viu? É por isso que você é o Beijinho, e ele escolhe o Brigadeiro. — Valéria sussurrou, aproximando-se de Letícia. — O Beijinho é fácil de dar e rápido de esquecer. E ele sempre, sempre escolhe o que é conveniente para ele. Pense nisso.

Letícia sentiu o estômago embrulhar. A metáfora dos doces era mais cortante do que qualquer insulto. Ela apertou os livros contra o peito, observando as costas de Gabriel sumirem no corredor. A verdade era que ele a amava, ela sabia disso, mas ele amava mais a paz que vinha de ser invisível aos olhos críticos de Paraíso. E essa paz estava custando a ela sua dignidade.