Capítulo 1: Infância e Primeiros Passos

 Dolores Gonçalves Costa, a menina que o Brasil conheceu como Dercy Gonçalves, nasceu em 23 de junho de 1907, em Santa Maria Madalena, uma pequena cidade no interior do Rio de Janeiro. A vida naquela época era marcada pela simplicidade e pela falta de recursos, e a infância de Dercy não foi diferente. Filha de um comerciante e de uma costureira, ela cresceu em um lar humilde e cheio de desafios, onde cada dia parecia um teste de resistência. Desde muito jovem, Dercy soube o que era enfrentar dificuldades, e isso moldou sua personalidade forte e decidida. Aquela menina tinha o sonho de conquistar o mundo e não se contentava com o destino traçado para muitas mulheres de sua época: casar-se cedo, criar filhos e viver em função da família.

Mas o que realmente destacava Dercy das outras crianças era sua personalidade espirituosa e o jeito desinibido. Sempre irreverente e com uma língua afiada, ela se tornava rapidamente o centro das atenções, fosse para alegrar uma festa ou para responder, sem medo, a qualquer crítica. Em casa, ela aprendeu desde cedo que a vida podia ser dura, e talvez por isso nunca se acomodou com o que lhe parecia limitado ou injusto. Em Santa Maria Madalena, a ideia de uma carreira artística era distante e improvável. Mesmo assim, ela sentia que havia algo maior esperando por ela fora daquelas montanhas que cercavam sua cidade.

Na juventude, Dercy percebeu que o caminho para uma vida melhor passava pela coragem de sair de casa e explorar o mundo. O teatro era, então, uma das poucas opções de entretenimento nas cidades pequenas, e foi durante uma dessas apresentações que ela se apaixonou pela arte. Fascinada pelo palco e pela chance de contar histórias, a jovem viu ali uma oportunidade de escapar das limitações do interior e experimentar algo completamente novo. Com determinação, ela decidiu que faria parte de uma trupe de circo e se jogou de corpo e alma na nova empreitada. Foi com essa trupe que Dercy começou a encantar o público, ganhando aplausos e gargalhadas graças ao seu talento natural para o humor e à sua energia contagiante.

O ambiente do circo, cheio de pessoas excêntricas e histórias inusitadas, ofereceu a Dercy um palco onde ela podia ser ela mesma, livre de julgamentos e restrições. Ali, ela aprendeu a improvisar, a lidar com diferentes tipos de pessoas e a conquistar a atenção da plateia com o que sabia fazer de melhor: fazer rir. A trupe era uma verdadeira escola de vida, e Dercy se adaptou com facilidade ao ritmo imprevisível e divertido dos artistas itinerantes. Essa experiência serviu como base para sua carreira futura e a ajudou a desenvolver seu estilo único, que mais tarde se tornaria sua marca registrada.

Ainda que estivesse apenas começando, Dercy já mostrava que não tinha medo de enfrentar obstáculos e de desafiar as convenções. Em uma época em que mulheres dificilmente tinham espaço no mundo do entretenimento, muito menos no humor, ela provava que seu talento e sua determinação eram maiores do que qualquer barreira. A menina de Santa Maria Madalena estava decidida a traçar um caminho próprio, e, com cada passo no circo e no teatro, ela se aproximava do futuro grandioso que viria a construir.