O som do berimbau era a trilha sonora da vida de Leandro. Não apenas o zunido agudo da verga de biriba e da cabaça, mas o ritmo fundamental que moldava seus movimentos, suas decisões e até mesmo a cadência de sua respiração. Na roda de capoeira do Contramestre Gavião, ele não era apenas Leandro, o marceneiro de mãos ásperas; ele era "Capivara", ágil, preciso, com uma ginga que parecia flutuar no ar. Sua vida seguia um compasso firme: o trabalho na marcenaria do Sr. Osvaldo, onde a madeira obedecia às suas ferramentas com a mesma leveza que seu corpo na luta; as horas de treino que o deixavam com os músculos tensos, mas a mente centrada; e os encontros com seu pai, que invariavelmente culminavam na mesma ladainha sobre a necessidade de "aterrar-se", de conquistar um futuro "sólido", algo que, para o Sr. Sebastião, a capoeira nunca seria capaz de garantir.
Naquela terça-feira, o sol já caía, tingindo o céu com tons de laranja e roxo que entravam pelas janelas de seu pequeno apartamento, quando a ordem da vida de Leandro foi bruscamente quebrada. Ele havia acabado de sair do banho, o corpo ainda quente do treino intenso, a toalha enrolada na cintura, pensando no feijão com arroz que faria para o jantar, quando a campainha tocou. Uma campainha que quase nunca anunciava visitas.
Ao abrir a porta, o rosto que encontrou o levou instantaneamente de volta a um tempo de risos sem peso e afetos descomplicados: Rosana. Seus olhos, antes cheios de uma energia elétrica, agora pareciam carregados de uma tristeza profunda. Ao lado dela, grudado na barra da calça jeans surrada, estava um menino. Os olhos da criança, grandes e investigativos, cravaram-se em Leandro, quase como um reflexo dele mesmo.
— Leandro... — a voz dela era um sopro áspero, quase engolido pelo ruído da rua.
Ele não conseguiu reagir. O espanto era um nó apertado em sua garganta. Faziam anos. Anos desde que ela havia desaparecido, levando consigo um pedaço vibrante de sua juventude.
— Eu... eu preciso falar com você — ela disse, visivelmente à beira de um colapso, empurrando o menino um pouco para a frente. — Este é Yago.
Yago. O nome reverberou no peito de Leandro. O menino de cachos escuros e pele quente, com cerca de dois anos, olhava para ele sem pestanejar, apertando um pequeno boneco de plástico na mão.
Antes que Leandro pudesse formular a menor pergunta, antes que pudesse convidá-la a entrar, Rosana buscou na bolsa e retirou um envelope amarrotado. — Por favor, leia. Tudo o que precisa saber está aqui.
Ela estendeu a carta com a mão que tremia. Seus olhos, antes fixos em Leandro, agora fugiam para o chão, para os sapatos do filho, para qualquer ponto que não fosse o olhar confuso e mudo dele. — Eu... eu tenho que ir — ela disse, a voz mal se sustentando.
— Ir? Rosana, espera! O quê...? — As palavras mal se formaram na boca de Leandro. Ele tentou alcançá-la, mas ela se afastou com uma velocidade chocante.
— Cuida dele, Leandro. É a única coisa que eu te peço.
E, num movimento rápido e decidido, ela se virou. Com a rapidez de uma sombra, Rosana sumiu no corredor do prédio, deixando para trás apenas o silêncio pesado e a presença diminuta de Yago. O menino, que até então parecia ter a respiração suspensa, soltou um gemido fraco, os olhos úmidos, o rosto começando a se enrugar para o choro.
Leandro ficou na soleira da porta, o envelope na mão, o coração batendo desordenadamente. O choro de Yago aumentava, um som fino e cortante que trespassava a tranquilidade da noite. Ele encarou o menino, tão pequeno, tão exposto, tão estranho. Imediatamente, seu olhar foi atraído para o envelope, como se ele fosse a única chave para entender aquela cena absurda.
Ele fechou a porta com um clique surdo. O pranto de Yago se intensificou, um lamento que parecia conter toda a tristeza do mundo. Leandro se ajoelhou, sem saber como agir, e o pegou nos braços. O corpo de Yago era leve, mas a responsabilidade que ele sentiu foi um peso esmagador.
Com o menino agora soluçando em seu ombro, Leandro abriu o envelope. A caligrafia de Rosana, antes tão vívida, agora parecia apressada, quase ilegível.
Leandro,
Sei que isso é cruel. Sei que você vai me desprezar. E eu aceito. Mas não sobrou outra escolha. Yago... ele é seu filho. Nasceu há dois anos e dois meses. Eu juro que tentei sozinha. Mas eu falhei. As dívidas, o emprego instável, a saúde... tudo virou um nó que eu não consigo mais desatar.
Você sempre foi o mais forte de nós. O mais centrado. Eu sei que você saberá dar a ele o que ele precisa. Por favor, Leandro. Por favor, seja o pai que eu não tenho condições de ser agora. Ele merece uma vida melhor do que a que eu posso oferecer.
Vou tentar me reerguer e, talvez um dia, eu volte para te dar a explicação que você merece. Mas agora, ele precisa de você. Ele é um bom garoto. Afetuoso, um pouco travesso, mas muito amável.
Me perdoa por essa covardia. Eu não tive forças para te encarar. Por favor, cuida do nosso filho.
Com amor (e muita vergonha),
Rosana.
A carta deslizou dos dedos de Leandro, caindo de leve no tapete antigo da sala. Filho. A palavra ressoou em sua mente, repetida, esmagando cada célula de sua razão. Yago. Seu filho. Aquele ser minúsculo, com os olhos que agora o encaravam com uma mistura de medo e cansaço, era a extensão de sua própria vida.
A primeira onda foi de incredulidade. Não, não podia ser. Rosana era volátil, sempre foi. Era um erro, uma manobra desesperada, uma ilusão. Mas a presença de Yago em seus braços, quente e real, desmantelava qualquer tentativa de dúvida.
Leandro sentiu um formigamento nos membros, como se a realidade estivesse se partindo. Seu mundo, antes definido pelos ensaios da capoeira e pelo cheiro de serragem, estava em escombros. O berimbau, que tantas vezes vibrou em sua alma, agora estava calado. A ginga que o definia estava suspensa. Ele estava ali, imóvel no chão, com um menino assustado, e a consciência brutal de que sua existência, tal como ele a compreendia, havia se transformado para sempre.
A noite se arrastou em um nevoeiro de pânico e desorientação. Yago, depois de um longo período de soluços inconsoláveis, finalmente dormiu nos braços de Leandro, exausto. O cheiro de talco, de bebê e de uma doçura estranha, preencheu o ar. Leandro o depositou com cuidado na sua cama, observando a respiração leve da criança. Ele se encolheu na poltrona da sala, a mente vazia e tumultuada. Como se troca uma fralda? O que uma criança de dois anos come? Como se aprende a ser pai?
As perguntas se erguiam como muralhas intransponíveis. A imagem de Rosana se afastando na penumbra se repetia, a urgência de seu pedido pulsando. Cuida dele. É a única coisa.
Leandro olhou para o quarto, onde Yago dormia. A pequena forma era um ponto de luz e sombra, uma promessa e um fardo. Ele se sentiu afogar na incerteza. A vida que havia construído, tão rigidamente equilibrada, agora era uma estrutura frágil. Aquele era o limiar de algo novo, aterrorizante e sem volta. O ritmo da capoeira havia se calado, e, no lugar das melodias e do tambor, havia apenas o silêncio e o peso de uma paternidade recém-nascida.
