Capítulo 1: O Chamado da Terra Selvagem

O sol nascente filtrava-se através das copas das árvores, lançando uma luz suave sobre a pequena aldeia de São João. As casas de taipa, com telhados de palha, erguiam-se como manchas de sombra entre o verde profundo da floresta. O cheiro da terra úmida e da vegetação densa era uma constante presença na vida de Manuel Preto. Desde que nasceu, ele havia sido envolvido por esse ambiente vibrante e selvagem, onde a sobrevivência era uma batalha diária.

Manuel era um jovem de olhos penetrantes e um corpo moldado pela vida ao ar livre. Seus pais, Maria e José Preto, eram agricultores que viviam em harmonia com a terra. O pai de Manuel era um homem robusto e de mãos calejadas, conhecido por sua habilidade em cultivar a terra e construir objetos de madeira. Sua mãe, uma mulher de sorriso sereno, passava os dias cuidando da casa e das plantas que cultivava ao redor. A vida era simples, mas rica em tradições e valores.


Naquele dia, Manuel e seu pai estavam trabalhando na plantação quando um grupo de indígenas hostis invadiu a aldeia. O som das trombetas de guerra reverberou pela floresta, e a tranquilidade foi substituída por um grito de pânico. 

— Rápido, Manuel! — gritou José Preto, seus olhos arregalados com uma mistura de medo e determinação. — Pegue a faca e corra para a casa! Não deixe a sua mãe sozinha!

Manuel, com as mãos tremendo, agarrou a faca de caça e correu para a casa. O som dos gritos e dos conflitos crescia a cada instante. Ao chegar, encontrou sua mãe ajoelhada no chão, rezando com fervor.

— Mãe! — Manuel a chamou, tentando esconder a angústia em sua voz. — O que está acontecendo?

Maria Preto ergueu a cabeça, os olhos cheios de lágrimas e medo. — Manuel, eles estão atacando a aldeia. Precisamos nos esconder.

O caos tomou conta da aldeia enquanto Manuel e sua mãe se escondiam atrás de uma pilha de madeira. O som de passos pesados e gritos ecoavam ao redor. Manuel espiava pela fresta, seu coração batendo acelerado, tentando entender a magnitude da violência que se desenrolava.

Subitamente, um grito cortou o ar — o grito familiar de seu pai. Manuel olhou em direção à plantação e viu José lutando bravamente contra os invasores. 

— Pai! — Manuel gritou, mas o som foi abafado pelo barulho da batalha. — Pai!

Os olhos de José encontraram os de Manuel por um breve momento, e ele gritou de volta, sua voz firme apesar do cansaço. — Fique escondido, Manuel! Proteja sua mãe!


O último vislumbre que Manuel teve de seu pai foi uma figura heroica lutando contra a maré de inimigos. Em um momento de terror indescritível, José caiu ao chão, abatido por um golpe traiçoeiro. Manuel fechou os olhos, as lágrimas rolando pelo rosto enquanto a dor da perda o consumia.

Com a aldeia em ruínas e a segurança comprometida, Manuel e sua mãe foram forçados a deixar sua casa e buscar refúgio na cidade próxima. A viagem foi marcada pelo silêncio pesado e pela tristeza, uma sombra constante sobre os dois.


Na cidade, Manuel, agora com catorze anos, sentia-se deslocado. O conforto que haviam encontrado era apenas uma ilusão de segurança. Em uma noite silenciosa, enquanto a lua iluminava o céu, Manuel sentou-se ao lado de sua mãe, que tentava encontrar algum consolo.

— Mãe, — disse Manuel, sua voz cheia de determinação — eu não posso ficar aqui. Preciso ir para as terras selvagens, aonde os bandeirantes vão em busca de riquezas e aventuras. Preciso fazer algo com minha vida, para que a morte de pai não tenha sido em vão.

Maria olhou para ele, o pesar estampado em seu rosto. — Manuel, as terras selvagens são perigosas. Não sabemos o que pode acontecer lá fora. Mas, se você sente que é o seu destino, eu não posso impedir você. Apenas saiba que eu estarei sempre em seus pensamentos e que oro para que você esteja seguro.

— Eu vou fazer isso, mãe, — Manuel prometeu. — Vou me tornar um bandeirante. Vou buscar justiça e encontrar meu caminho.


Com um último olhar para a cidade que temporariamente chamara de lar, Manuel Preto partiu ao amanhecer. A floresta o chamava, com seus segredos e desafios, e Manuel estava pronto para responder a esse chamado. Ele se aventuraria pelas trilhas desconhecidas e enfrentaria os perigos que encontrasse, movido pela lembrança de seu pai e pela esperança de um futuro em que a justiça prevalecesse.

Assim começava a jornada de Manuel Preto, um jovem bandeirante determinado a moldar seu próprio destino em um mundo vasto e implacável.