A manhã de 10 de abril de 1912 em Southampton não era apenas mais uma quarta-feira; era o nascimento de uma era. O porto de White Star fervilhava sob uma névoa fina que mal conseguia esconder a silhueta colossal do RMS Titanic. Com suas quatro chaminés cor de pêssego elevando-se contra o céu cinzento, o navio não parecia algo construído por mãos humanas, mas uma ilha de aço que decidira flutuar.
Isabella caminhava pelo cais com a postura de quem já nascera sob os holofotes. O som de seus saltos contra as tábuas de madeira era abafado pelo burburinho da multidão e pelo apito ensurdecedor das locomotivas que traziam os passageiros do "Special Boat Train" vindo de Londres. Vestida em um conjunto de viagem azul-marinho, com um chapéu cujas abas desafiavam a brisa marinha, ela sentia o peso de mil olhares sobre si.
— Olhe, é Isabella! A pianista — sussurrou uma mulher de classe média, apontando discretamente.
Isabella não sorriu, mas também não desviou o olhar. Para ela, o Titanic era apenas mais um palco, embora o mais luxuoso de todos. Ao subir a passarela da primeira classe, ela parou por um segundo e tocou o casco frio do navio.
— Parece tão sólido — comentou ela para o comissário que a recebia. — É difícil acreditar que algo tão imenso possa se mover com graça.
— Ele é mais que um navio, senhorita — respondeu o homem, curvando-se levemente. — É o ápice da civilização moderna.
Enquanto Isabella se perdia nos corredores acarpetados e no cheiro de madeira nova de sua suíte no convés B, a realidade alguns metros abaixo era bem distinta.
Na fila da terceira classe, o caos era controlado por exames médicos rudimentares e gritos em diversos idiomas. Fillemon apertava os dedos em torno de uma mala de couro surrada, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. Em seu bolso, um bilhete amassado levava o nome de "Thomas Miller" — um homem que, a essa hora, provavelmente ainda dormia em alguma taverna suja após Fillemon lhe "aliviar" os documentos e a carteira.
Ele observava os passageiros da primeira classe com um desprezo que queimava no peito. Via a seda, as joias e o tédio estampado nos rostos daqueles que nunca haviam sentido o estômago roncar por mais de um dia.
— Olhe para eles, mamãe — pensou ele, visualizando o rosto cansado da mãe em sua pequena vila. — Eles flutuam sobre o nosso suor. Mas não por muito tempo.
Ao chegar na frente do oficial de imigração, Fillemon forçou um sorriso humilde, a máscara perfeita do jovem trabalhador em busca de sorte na América.
— Nome? — perguntou o oficial, sem levantar os olhos.
— Thomas Miller, senhor. Pronto para trabalhar duro em Nova York — respondeu Fillemon, a voz firme apesar da mentira.
O oficial carimbou o cartão de inspeção e acenou para que ele seguisse. Fillemon atravessou a entrada da terceira classe, descendo para as entranhas do navio. O ar ali era mais denso, impregnado com o cheiro de tinta fresca e o calor das caldeiras que já começavam a respirar. Ele encontrou seu beliche em uma cabine minúscula para quatro pessoas, longe de qualquer janela.
Sentado na borda da cama dura, ele contou as notas que sobraram do golpe. Seria o suficiente para que sua mãe sobrevivesse por meses, se ele conseguisse enviar o dinheiro assim que desembarcasse.
— Só mais alguns dias de mentiras — murmurou para si mesmo, enquanto sentia uma vibração profunda começar a sacudir a estrutura do gigante.
Ao meio-dia, as sirenes do Titanic ecoaram por toda Southampton, um som que parecia vibrar dentro dos ossos de cada passageiro. As hélices gigantescas começaram a girar, agitando as águas do Rio Test. No convés superior, Isabella observava a costa se distanciar com uma melancolia silenciosa; nos conveses inferiores, Fillemon sorria para o teto de metal, sentindo que, pela primeira vez, o destino estava em suas mãos.
O gigante de aço estava vivo e, para o bem ou para o mal, o mundo nunca mais seria o mesmo.
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