O sol já vinha despontando por detrás das colinas quando Cauby ajeitou o chapéu de palha na cabeça e deu o primeiro assobio pro gado. O ar da manhã tava fresco, cheirando a terra molhada da chuvarada da noite passada. Ele caminhava firme, botina afundando um pouco no barro, enquanto o mugido ecoava pelo pasto.
— Bora, danada… — murmurava, cutucando de leve uma vaca mais preguiçosa com o ferrão.
Cauby era desses peão que todo mundo respeitava. Trabalhador, sorridente, sempre disposto a ajudar, e ainda por cima, sanfoneiro de mão cheia. Quando puxava o fole, fosse na varanda da tia Zuca ou em alguma quermesse da região, o sertão inteiro parecia dançar com ele. O povo dizia que até o vento parava um pouco pra escutá.
Na fazenda, cada pessoa tinha seu jeito de se mostrar. Yuri era o braço direito de Cauby, amigo desde piá, sempre rindo de tudo, até do que não tinha graça. Goiás, mais velho, vivia cheio de causos, jurava de pé junto que já tinha visto mula sem cabeça atravessando estrada de terra. Pedro e João Bonito eram os parceiros da lida: um sério demais, outro bonito e sabichão, que nunca perdia a chance de se olhar no espelho da água do poço.
E tinha as mulheres que deixavam a vida mais leve: Juliana, com seu jeito de cuidar das plantas como quem conversa com gente, e Rita Linda, que sempre chegava com uma história engraçada, arrancando risada até dos mais sisudos. No meio de todos, tia Zuca, a matriarca da casa, guardava sabedoria nos olhos e café quente na chaleira, pronta pra acolher quem precisasse.
À noite, quando o trabalho já tinha se aquietado e o céu se enchia de estrela, Cauby sentava na varanda de madeira, sanfona no colo. Os dedos dançavam nas teclas com a mesma leveza de quem acaricia um coração. A melodia corria pelo terreiro, atravessava o curral, alcançava as árvores e voltava em eco, como se a terra inteira respondesse ao seu canto.
Mas naquela semana algo diferente aconteceu. A poeira da estrada levantou mais cedo do que de costume, e um carro estranho apareceu, brilhando sob o sol. Não era costume ver gente de fora por ali, muito menos alguém vestido com roupa tão ajeitada, jeito de cidade.
— Quem será esse? — perguntou Goiás, coçando o queixo e apertando os olhos pra enxergar melhor.
Do carro desceu Kaike, um rapaz alto, óculos escuros no rosto, tênis branco que logo se sujou de terra. O povo ficou meio calado, observando de canto, sem saber se ria ou estranhava. Ele carregava uma mala pequena e uma expressão desconfiada, como quem pisava num mundo que nunca tinha conhecido.
Cauby, curioso, largou a sanfona de lado e caminhou até a porteira. Sorriu com aquele jeito aberto que só ele tinha.
— Boa tarde, moço. Seja bem-vindo. Cê deve tá perdido, né?
Kaike tirou os óculos, revelando olhos claros, que se prenderam nos de Cauby por um instante longo demais. Pigarreou, meio sem jeito.
— Não… eu vim… vou ficar aqui um tempo. Disseram que a fazenda da dona Zuca tinha espaço.
Cauby arqueou as sobrancelhas, surpreso. Era raro ver alguém da cidade se embrenhar na vida simples do sertão. Ainda mais alguém com aquele jeito meio deslocado, que parecia nunca ter sujado as mãos de terra.
E assim, no compasso lento do interior, dois mundos completamente diferentes se encontraram. O sanfoneiro da fazenda e o rapaz da cidade grande. O sertão, que até então só conhecia as histórias de Goiás e as músicas de Cauby, estava prestes a ganhar uma nova melodia.
