CAPÍTULO 1
Dizem que o campo de futebol é um espelho da vida. A bola, por mais redonda que seja, nem sempre segue o caminho que a gente planeja. E é aí, no meio do barro ou do gramado perfeito, que a gente descobre a diferença entre sonhar e lutar por esse sonho.
O sol de final de tarde batia forte no Campo da Pedreira, um retângulo de terra vermelha no coração da Vila Progresso. A poeira subia a cada pique, misturando-se ao suor e à gritaria.
No meio daquele caos, havia um garoto que se movia diferente.
Kauan Henrique, de dezesseis anos, parecia flutuar. Ele dominou a bola no peito, ignorando o tranco do zagueiro, deu um drible seco que desmontou o lateral e, antes que o goleiro pudesse sequer se posicionar, a bola já beijava a rede.
— Gol do Falcão! — gritou a pequena plateia na beira do campo.
O apelido, "Falcão", não era à toa. Ele tinha a visão de quem planeja o voo e a velocidade de quem mergulha para a caça. Mas, ali, naquele campinho de terra batida, o talento parecia pequeno diante do tamanho do seu sonho.
Kauan tirou a camisa encharcada e foi beber água, encontrando Arthur, seu melhor amigo, que já estava debaixo do único pé de manga do local.
— Que golaço, cara! O Zé Mané não te alcança nem de moto! — disse Arthur, sorrindo.
— Valeu, mas o campo tava muito seco hoje. Quase torci o pé naquele buraco perto da pequena área — respondeu Kauan, com um cansaço que ia além do físico. — Preciso treinar em gramado de verdade.
— Vai chegar a hora, Falcão. Você é o melhor daqui!
Kauan balançou a cabeça, guardando a chuteira velha na mochila. Ser o melhor da Vila Progresso não pagava as contas e nem diminuía as dores nas costas de José Alfredo, seu pai, que passava o dia carregando cimento.
Sua motivação era palpável, pesada como o tijolo que seu pai assentava. Ele queria dar uma vida melhor para José Alfredo e para Marta, sua mãe, que trabalhava como diarista. Queria que eles parassem de contar moedas no final do mês. E o futebol era o único caminho que ele enxergava.
Na segunda-feira, a realidade voltava a ser a Escola Estadual Professor Olavo. Kauan era um aluno mediano. Não brilhava nas notas, mas passava de ano. Sua cabeça estava sempre no campo, mesmo durante as aulas de História.
No intervalo, ele ouviu a conversa que o acompanhava desde sempre.
— Olha lá o Kauan, o Falcão! Viu o jogo ontem? — a voz era de Caio, um garoto que parecia ter prazer em diminuir os outros.
— Vi. Bateu uma bolinha, como sempre — respondeu Bianca, colega de classe, com desdém. — Mas ele acha que vai ser profissional jogando com o pessoal da padaria e da borracharia.
— O professor Júnior vive falando que ele tem futuro — retrucou Caio.
— Futuro de várzea, isso sim. Ele devia estudar, como a gente. Futebol é loteria, não dá garantia de nada.
Kauan fingiu que não ouvia, mas cada palavra era uma pontada. Ele odiava ser subestimado.
Nesse momento, ele cruzou o olhar com Ana Letícia. Ela era a melhor aluna da turma, focada e sempre com um livro nas mãos. Ana Letícia estava ao lado de Bianca e, ao ouvir a zombaria, não expressou nada. Apenas o encarou com uma expressão neutra, que Kauan interpretava como: "Você está perdendo seu tempo."
Essa indiferença, vinda de alguém que ele secretamente admirava por sua inteligência, doía mais do que o deboche aberto de Caio.
Mais tarde, na aula de Educação Física, o professor Junior o chamou de lado.
— Falcão, fiquei sabendo daquele seu gol de novo. Parabéns.
— Obrigado, professor.
— Mas não se acomode. O talento é seu, mas o mundo é cruel. E a realidade não é o Campo da Pedreira.
— Eu sei, professor. Eu tô treinando para ser olhado.
— Isso aí! É para ser olhado, não para ser só visto. É por isso que te inscrevi numa peneira do Clube Atlético União. É um time pequeno, mas que tem uma boa base.
O coração de Kauan deu um salto no peito. O professor o entregou um papel amassado com a data, horário e endereço. Era a chance que ele estava esperando.
Ao chegar em casa, a alegria foi contida. Sua mãe, Marta, o esperava com a testa franzida.
— Filho, onde você se meteu? Você sabe que hoje tinha que ajudar o seu pai a arrumar o portão!
— Desculpa, mãe. Eu tava no treino. Mas olha só! — Kauan estendeu o papel para ela. — É uma peneira de verdade!
Marta leu e suspirou, um misto de esperança e preocupação.
— Meu Deus, Kauan. É longe, vai precisar de dinheiro para passagem, roupa... A gente mal consegue pagar o básico...
José Alfredo, que tinha acabado de tomar banho e estava sentado à mesa, olhou para o filho, viu o fogo nos seus olhos e pegou o papel da mão da esposa.
— Não se preocupe, Falcão. O dinheiro a gente dá um jeito. Se esse é o seu sonho e a sua chance de mudar a nossa vida, eu vendo a alma, mas você vai nessa peneira.
Kauan sentiu as lágrimas nos olhos. Abraçou o pai e a mãe com toda a força, sabendo que o preço de seu sonho era o sacrifício deles. A partir daquele momento, a bola deixava de ser um jogo e se tornava uma promessa. Ele não podia falhar. A luta tinha acabado de começar.
