A chuva fina de terça-feira não foi suficiente para limpar a sensação de velhice que emanava das lápides de mármore. Alberto observava o caixão de Henrico descer, não com a tristeza de um amigo, mas com a precisão de um relojoeiro vendo uma peça gasta ser descartada. Cinquenta anos de servidão resumidos a uma caixa de madeira e um punhado de terra. Para Alberto, o tempo de Henrico foi um suspiro; para Henrico, foi uma vida inteira de segredos guardados.
Na manhã seguinte, a mansão da rede Patrones abriu suas portas pesadas para Victor. O rapaz segurava as alças de uma mochila gasta, os nós dos dedos brancos de tensão. Ele cruzou o hall de entrada, onde o lustre de cristal parecia pronto para desabar sob o peso da própria imponência.
Alberto o esperava no topo da escadaria, imerso em uma sombra que a luz da manhã, filtrada pelas cortinas pesadas, não conseguia dissipar.
— Você deve ser o neto de Dona Rosa — disse Alberto. A voz era baixa, com uma dicção perfeita que parecia pertencer a outra era.
— Sim, senhor Alberto. Eu vim pela vaga do senhor Henrico. Eu preciso muito... — Victor hesitou, engolindo em seco. — Minha avó não tem mais ninguém e o tratamento é caro.
Alberto desceu os degraus sem produzir o menor ruído. Ele parou a poucos centímetros de Victor. O jovem sentiu um frio súbito, como se o ar ao redor do patrão tivesse sido drenado de todo o calor. Alberto estudou o rosto do rapaz: a pele firme, o brilho acelerado nos olhos, o pulso visível na lateral do pescoço. Era uma vitalidade irritante e, ao mesmo tempo, fascinante.
— Henrico foi um homem de poucos erros e nenhum questionamento. Se você deseja ocupar o lugar dele, Victor, precisará aprender que esta casa funciona sob a lógica do silêncio. Durante o dia, seu trabalho é a manutenção e a organização. Meus negócios na rede Patrones exigem que eu descanse até o anoitecer. Você nunca deve bater na porta do meu quarto antes do crepúsculo. Entendido?
— Sim, senhor. Perfeitamente.
As semanas seguintes foram marcadas por uma rotina monótona e rigorosa. Victor limpava pratarias que nunca eram usadas e organizava livros cujas lombadas em couro pareciam mais antigas que o próprio país. Alberto raramente aparecia antes das seis da tarde. Quando o fazia, estava sempre impecável, vestindo ternos de um corte que não se via mais nas vitrines da cidade.
Certa tarde, enquanto Victor escalava uma escada de madeira na biblioteca para espanar as prateleiras mais altas, ele notou Alberto observando-o da poltrona de couro no canto escuro da sala. O patrão segurava um livro, mas suas páginas não haviam virado nos últimos vinte minutos.
— O senhor não sente falta de sair, de caminhar pelas ruas durante o dia? — perguntou Victor, parando o serviço. O som de sua própria voz pareceu alto demais naquele ambiente.
Alberto fechou o livro lentamente. Seus olhos pareciam captar a pouca luz do ambiente de uma forma desconfortável para quem olhasse diretamente.
— Eu já vi tudo o que as ruas tinham para me mostrar, Victor. As cidades mudam os nomes, mas os rostos e os erros das pessoas são sempre os mesmos. Prefiro o que permanece imóvel.
— Mas o mundo lá fora está mudando rápido, senhor Alberto. A tecnologia, as luzes... Tudo parece mais vivo agora.
— O que você chama de vida, eu chamo de ruído — respondeu Alberto, levantando-se com uma elegância letárgica. — As luzes das cidades modernas servem apenas para esconder as sombras onde as pessoas costumavam ser honestas consigo mesmas. O brilho excessivo cega os homens, Victor. Eles correm para lugar nenhum, morrem por nada e deixam apenas o cansaço para trás.
Victor desceu da escada, sentindo o peso daquelas palavras.
— Minha avó diz que a vida é curta demais para não ser aproveitada sob o sol.
Alberto soltou um riso curto, um som seco que não chegou aos olhos.
— Sua avó fala como alguém que sabe que o fim está próximo. A urgência é o consolo dos mortais. Quando você perceber que o sol nasce e se põe da mesma forma há milênios, começará a apreciar a paz que apenas o escuro pode oferecer.
Alberto caminhou até uma mesa de canto e serviu-se de um líquido denso em uma taça de cristal. Ele não ofereceu a Victor.
— Termine os livros de história e vá para casa, rapaz. Sua avó precisa da sua juventude. Eu, por outro lado, tenho toda a noite para decidir o que fazer com a minha eternidade.
Victor assentiu, recolhendo seu material. Ao sair da sala, ele olhou para trás e viu Alberto estático diante da janela fechada, uma silhueta negra recortada contra o veludo das cortinas, parecendo parte da mobília, ou talvez, a própria fundação daquela casa sem vida.
