Capítulo 1 – Os Últimos Dias de Catarina

 O quarto de Catarina era pequeno, mas cheio de luz. A janela deixava entrar um fiapo de sol que atravessava a cortina rendada, formando desenhos nas paredes amareladas pelo tempo. O relógio antigo da cômoda fazia seu tic-tac compassado, lembrando que o tempo seguia seu curso, mesmo ali, onde tudo parecia parado.

Catarina completaria 99 anos dali a poucos dias. O corpo, frágil como papel antigo, já não respondia como antes. Mas a mente permanecia viva, alerta, cheia de lembranças. Era como se o tempo, cruel com o corpo, tivesse feito um pacto de silêncio com a memória.

Gabriel, seu bisneto, sentava-se numa poltrona ao lado da cama. Tinha 15 anos, os cabelos sempre bagunçados e um jeito inquieto nos olhos, como se estivesse sempre pensando em algo que ainda não sabia nomear. Ele vinha com frequência, a pedido dos pais, mas a verdade é que nunca soubera bem o que dizer àquela senhora de fala pausada e olhar distante. Havia entre eles um tipo de respeito silencioso, daqueles que não precisam ser ensinados, apenas sentidos.

Naquela manhã, no entanto, Catarina parecia diferente. O olhar mais firme, como quem havia tomado uma decisão importante. Estendeu a mão enrugada e pousou-a com delicadeza sobre a mão de Gabriel.

— Gabriel — disse ela, com a voz rouca, mas cheia de intenção —, preciso te contar uma coisa. Algo que guardei por quase toda a vida. Você escutaria, só por hoje?

O garoto ergueu os olhos do celular. Surpreso, talvez até um pouco assustado. Nunca ouvira a bisavó falar daquele jeito. Nunca a vira tão desperta.

— Claro, vó. Quer dizer... bisa — respondeu, trocando rapidamente a palavra, quase num pedido de desculpas.

Ela sorriu. Um sorriso breve, mas sincero. Fechou os olhos por um instante e respirou fundo, como quem se prepara para mergulhar num tempo esquecido.

— Eu tinha a sua idade. Era 1941. São Paulo era outra, menor, mas já barulhenta. As ruas cheiravam a fumaça de bonde e café recém-coado... Foi ali, naquela cidade que ainda se construía, que minha vida começou de verdade. E é essa história que eu quero que você conheça.

Gabriel não disse nada. Apenas se ajeitou na poltrona, desligou o celular e olhou para ela com atenção. Pela primeira vez, sentiu que aquele silêncio entre os dois não era desconforto. Era espera.

Catarina, com os olhos fixos em algum ponto invisível do teto, começou a falar. E o tempo, aquele mesmo que nunca para, pareceu voltar atrás.

Era o início de uma revelação. De um amor guardado por mais de oito décadas. De um segredo que finalmente encontraria lugar para existir.