Gloria Maria Matta da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 15 de agosto de 1949, em uma família simples que morava no bairro de Vila Isabel. Desde cedo, Gloria demonstrou uma curiosidade aguçada e uma vontade de entender o mundo além das fronteiras de sua realidade. Filha de um alfaiate e de uma dona de casa, cresceu rodeada de valores como a determinação e o respeito ao próximo, ensinamentos transmitidos por seus pais, que sempre a incentivaram a sonhar alto, apesar das dificuldades econômicas que enfrentavam.
A infância de Gloria foi marcada pela convivência com pessoas de várias origens e histórias, algo que despertou nela o interesse por outras culturas e modos de vida. O desejo de descobrir o que havia além do horizonte era algo que a acompanhava desde muito pequena. Na escola, ela se destacou pela inteligência e pela sede de conhecimento, sempre ávida por aprender algo novo, seja nos livros ou nas experiências das pessoas ao seu redor.
Ainda na adolescência, Gloria sentia os efeitos do racismo e do preconceito de classe, mas, ao invés de se deixar abater, usava esses obstáculos como motivação para buscar novas perspectivas e romper as barreiras que a sociedade impunha. Inspirava-se em personalidades negras que também haviam lutado por um espaço, como a cantora Elza Soares, que veio da mesma cidade e enfrentou dificuldades similares para se estabelecer no cenário artístico. Elza era uma referência de coragem para Gloria, que admirava a força com que ela rompia preconceitos e desafios sociais.
Foi nessa época que Gloria começou a vislumbrar a comunicação como uma possível carreira. Fascinada pela maneira como os jornalistas narravam os fatos na televisão, ela se encantava ao ver nomes como Sergio Chapelin e Cid Moreira apresentando as notícias. Apesar das grandes diferenças que os separavam, Gloria se via no papel desses apresentadores, pois sentia que a comunicação poderia ser um caminho para explorar e compartilhar o mundo. Esse sonho, no entanto, parecia distante. Naquela época, o jornalismo era um território ainda mais restrito para mulheres, especialmente para mulheres negras.
Contudo, Gloria não permitia que essas barreiras a desencorajassem. Decidida a melhorar sua formação, esforçava-se para estudar em uma escola pública com excelência, onde suas notas a destacavam. Ela dedicava horas aos estudos, ciente de que uma educação sólida era a chave para abrir portas que, até então, pareciam fechadas para alguém em sua posição.
Com o tempo, Gloria começou a se conectar com pessoas que a inspiravam a persistir em seu sonho. Entre essas figuras, estava a jornalista e ativista Ruth de Souza, uma das primeiras atrizes negras do teatro brasileiro, que, por meio de suas atuações e discursos, abria caminhos para futuras gerações. Ruth simbolizava o tipo de representação que Gloria aspirava ver também no jornalismo.
Durante esses anos, Gloria trabalhava em pequenos empregos para ajudar a família e custear seus estudos, tudo enquanto cultivava secretamente o sonho de um dia integrar o seleto grupo de jornalistas televisivos. Ela não sabia como, mas estava decidida a tentar.
Na escola, Gloria impressionava professores e colegas com sua seriedade e ambição. Alguns professores, reconhecendo seu talento e potencial, incentivavam-na a buscar algo mais e viam em Gloria uma força extraordinária. Muitas vezes, eram esses mesmos professores que a ajudavam a adquirir livros, uma raridade na sua casa, mas uma das maiores fontes de prazer para ela. Essas leituras eram janelas para o mundo que Gloria tanto queria explorar.
Aos poucos, Gloria Maria começou a acreditar que sua paixão pelo jornalismo poderia, sim, se transformar em uma realidade. Estava determinada a construir um futuro diferente para si mesma e a romper com o destino que parecia predestinado para uma jovem negra de origem humilde. Sem se dar conta, ela já carregava em si a coragem e a perseverança que viriam a definir toda a sua trajetória.
.png)