O carro avançava pela estrada longa e reta, cercada por campos verdes que pareciam não ter fim. Antonio e Andressa colavam os rostos na janela, observando os cavalos galopando ao longe e as grandes fazendas de gado espalhadas pelos pampas.

— Olha aquilo! — exclamou Andressa, apontando para um homem a cavalo vestindo bombacha e lenço no pescoço.

— Acho que ele é um gaúcho de verdade! — disse Antonio, impressionado.

O pai sorriu do banco da frente.

— Aqui no Rio Grande do Sul, muita gente ainda mantém as tradições. Vocês vão ver mais disso na casa da vó Tina.

Depois de algumas horas de viagem, o carro entrou numa estradinha de terra e, logo, avistaram a casa da avó: uma construção antiga, com janelas de madeira e uma grande varanda cheia de vasos de flores. O cheiro do campo, misturado com o aroma de pão recém-saído do forno, encheu o ar.

Antes mesmo de descerem, Tina já estava na porta, de braços abertos e um sorriso acolhedor.

— Mas que alegria ver vocês, meus netos! Venham cá dar um abraço na vó!

Antonio e Andressa correram para abraçá-la. O carinho da avó era sempre um dos melhores momentos das férias.

— Trouxe um presentinho pra vocês! — disse Tina, levantando uma cuia de chimarrão fumegante.

As crianças se entreolharam, meio desconfiadas.

— Isso é aquele chá amargo que o pai sempre toma? — perguntou Andressa.

— É o nosso mate, guria! — riu a avó. — Aqui no Sul, ninguém vive sem um chimarrão. Mas tudo bem, não precisam tomar agora. Entrem, que preparei um carreteiro bem especial pro jantar!

Um jantar típico

A cozinha da avó Tina era aconchegante, com uma grande mesa de madeira e prateleiras repletas de potes coloridos. O cheiro do arroz de charque invadia o ambiente, deixando Antonio e Andressa ainda mais famintos.

— Sabe, vó, nunca comi um arroz com carne tão gostoso assim — disse Antonio, saboreando o prato.

— Esse é o carreteiro, piazinho! Os tropeiros faziam essa comida nas viagens longas, porque o charque durava bastante tempo sem estragar — explicou Tina.

— Tropeiros? — perguntou Andressa, curiosa.

— Sim, eram homens que levavam o gado de um lado pro outro do Brasil, bem antes de existirem carros e estradas asfaltadas. E, olha, eles tiveram um papel importante na nossa história, viu? — disse a avó, servindo mais um pouco de arroz para as crianças.

Depois do jantar, foram para a sala. Antonio e Andressa se aconchegaram no sofá, enquanto a avó acendia o lampião antigo que ficava sobre a mesa.

— Agora que estamos bem alimentados, vou contar uma história pra vocês. Sabem que a nossa família tem raízes profundas aqui no Rio Grande do Sul, né? Pois eu vou contar sobre um tempo em que os gaúchos lutaram para ser livres, há muitos e muitos anos…

Os olhos das crianças brilharam de curiosidade. A avó sorriu e começou sua história.

A história dos Farrapos

— Tudo começou em 1835, quando um grupo de gaúchos decidiu que não aceitava mais as injustiças do Império do Brasil… — começou Tina, fazendo suspense. — O Rio Grande do Sul produzia muito charque, aquela carne seca que vocês comeram no carreteiro. Mas o governo cobrava impostos muito altos dos gaúchos e, ao mesmo tempo, comprava carne mais barata do Uruguai e da Argentina. Os fazendeiros daqui ficaram revoltados!

Antonio franziu a testa.

— Mas isso era muito injusto mesmo, né, vó?

— Sim, meu filho. E foi por isso que os gaúchos se organizaram para lutar contra o Império. O líder deles era um homem chamado Bento Gonçalves. Ele e seus companheiros queriam que o Rio Grande do Sul fosse independente! Assim começou a Revolução Farroupilha, também chamada de Guerra dos Farrapos.

Andressa arregalou os olhos.

— Uma guerra?

Tina assentiu.

— Sim. Foram dez anos de batalhas! Os farrapos chegaram a proclamar a República Rio-Grandense e até tinham um presidente. Mas o Império do Brasil era forte, e, no fim, os gaúchos acabaram fazendo um acordo de paz.

Antonio se mexeu no sofá, pensativo.

— Mas e o Bento Gonçalves? O que aconteceu com ele?

A avó sorriu, como se já esperasse essa pergunta.

— Ah, meu filho, essa é uma história que precisa ser bem contada… Mas agora já está tarde. Amanhã, podemos continuar.

— Ah, vó, só mais um pouquinho! — insistiu Andressa.

— Nada disso! Se quiserem saber mais, vão ter que esperar até amanhã. Agora, vão escovar os dentes e dormir, que a avó também precisa descansar.

Antonio e Andressa subiram para o quarto, ainda com a cabeça cheia de perguntas. Mas mal sabiam eles que, muito em breve, viveriam essa história de um jeito que jamais poderiam imaginar…