Capítulo 1 – A Última Despedida

 O céu estava cinza, mas não chovia. Era como se até o tempo tivesse respeito pelo silêncio daquele momento. Heron mantinha as mãos nos bolsos do paletó preto, encarando o caixão com os olhos secos, mas duros. O silêncio ao redor era quebrado apenas por fungadas, passos lentos na grama úmida e o som abafado de um choro aqui e ali.

As pessoas estavam ali por Gabriel. Algumas choravam alto, outras apenas olhavam para baixo, como se não acreditassem. Mas Heron… Heron só sentia o vazio. Um buraco onde antes havia barulho, risadas, brigas, piadas internas e confissões de fim de noite.

Ele se lembrava do dia em que conheceram o bar da esquina, aquele mesmo onde viraram noites discutindo sobre todos os assuntos possíveis. Do churrasco improvisado no apartamento minúsculo. Da viagem que quase não fizeram porque Gabriel esqueceu a carteira. Heron odiava admitir, mas Gabriel era seu ponto de equilíbrio. E agora ele não estava mais ali.

— Vai com Deus, irmão — sussurrou, sem esperar que ninguém ouvisse.

Quando a cerimônia terminou, as pessoas começaram a se dispersar, caminhando devagar como se carregassem o peso de alguma dívida com a vida. Heron permaneceu ali, imóvel, até sentir um leve toque em seu ombro.

Era uma mulher de cabelos curtos, discreta. Ele não a conhecia.

— Você é o Heron? — perguntou ela, com um envelope na mão.

Ele apenas assentiu com a cabeça.

— O Gabriel me pediu pra te entregar isso. Disse que era importante. E que era pra ser só depois do enterro.

Heron pegou o envelope sem entender muito bem. Era um envelope pardo, com o nome dele escrito à mão, numa caligrafia conhecida demais.

Heron.

Abriu com cuidado. Dentro havia uma carta. Papel simples, escrita com caneta azul. A letra era mesmo de Gabriel. Começou a ler em silêncio, mas sentiu o peso das palavras logo nas primeiras linhas.


"Heron,

Se você está lendo isso, é porque o plano deu certo: eu morri antes de você. Sempre achei que seria eu, mesmo. Não sei se foi instinto ou só drama, mas cá estamos.

Primeiro de tudo: não chora. Ou chora, se quiser. Mas, pelo amor de Deus, não vira um robô. Eu te conheço, cara. Vai fingir que tá tudo bem, vai continuar com esse seu jeito de sempre — sorrindo, bebendo, pegando geral, vivendo no modo automático.

Só que agora você vai ter que me ouvir. De verdade.

Deixei cinco cartas. Uma por mês. Não tenta abrir tudo de uma vez, porque não vai funcionar assim. Pedi pra entregarem uma por mês, e você vai precisar respeitar isso. Me promete isso, tá?

Você vai querer desistir. Vai querer rasgar a próxima. Vai querer dizer que é coisa de filme. Mas eu não sou filme, sou seu amigo. E isso aqui é meu último presente pra você. Não é só pra você superar minha morte — é pra você acordar pra sua vida.

A gente teve sorte de se encontrar nessa vida. Agora é sua vez de se encontrar com você mesmo.

Valeu por tudo, irmão. Nos vemos depois.

— Gabriel."


Heron terminou de ler e permaneceu parado, sem reação. O papel tremia em suas mãos, mas não era o vento. Era ele.

Guardou a carta no bolso interno do paletó, olhou mais uma vez para o túmulo recém-fechado e balançou a cabeça.

— Filho da mãe… — murmurou, com um sorriso quase imperceptível.

Era o tipo de coisa que Gabriel faria mesmo. E, contra toda a lógica, Heron sabia que ia cumprir a promessa. Ia ler todas as cartas. Uma por mês. Mesmo que doesse. Mesmo que quisesse fugir.

Afinal, era o mínimo que podia fazer por quem nunca fugiu dele.