O aroma de café forte misturado com o cheiro adocicado de croissants recém-assados era o palco perfeito para Lucas iniciar sua performance matinal. Naquele ambiente corporativo, revestido de vidro e aço, onde ele era um analista de marketing júnior, ele também era, secretamente, o mais prolífico e dramático contador de histórias de sua geração. Aos 25 anos, Lucas Ferreira ostentava a aura de um homem que havia vivido mil vidas, um bon vivant com um currículo amoroso que faria Casanova corar. A realidade, contudo, era um apartamento modesto, noites solitárias embaladas por luz de tela de computador, e um segredo esmagador que ele guardava com a ferocidade de um dragão protegendo seu tesouro: Lucas nunca havia beijado.
Essa inexperiência o assombrava mais do que um fantasma na penumbra, transformando cada reunião de família e cada happy hour em um campo minado de perguntas. A cobrança, especialmente de sua mãe e da prima invejosa, era incessante e dolorosa.
— E as namoradinhas, Lucas? — era o mantra que perfurava sua autoconfiança. Foi para fugir dessa realidade patética, desse abismo de fracasso social, que ele construiu o Grande Personagem, o Lucas de suas invenções, um herói forjado em narrativas épicas. E a construção desse mito não era algo que ele fazia por acaso; era um trabalho de tempo integral que consumia suas energias.
Ele passava horas criando perfis falsos nas redes sociais – a "Antônia", uma artista plástica alemã que só falava por áudios enigmáticos; a "Sofia", uma pesquisadora de vida marinha que vivia a bordo de um iate de luxo em mares sem sinal – e até mesmo comprava bijuterias baratas, as "esquecendo" em bolsos de casacos velhos para que seus colegas as encontrassem e perguntassem:
— De quem é esse brinco vintage com pedras estranhas, Lucas? Você está com mais uma nova paquera? — A satisfação ao responder com um suspiro teatral e um encolher de ombros despreocupado era o único beijo que ele havia recebido em toda sua vida adulta.
Naquela manhã em particular, Lucas estava pronto para entregar a obra-prima de sua semana. Sentado em uma das mesas de canto da Cafeteria da AlphaSolutions, ele tinha a atenção cativa de três colegas: a fofoqueira-mor, Marina; o cético, mas sempre curioso, Thiago; e a silenciosa e observadora Lívia. Ele estava recontando seu último final de semana, que ele havia supostamente passado no Rio de Janeiro.
— Então, imagine só a cena, pessoal — começou Lucas, gesticulando dramaticamente com a xícara de café na mão, sua voz calibrada para um tom de espanto contido, quase como se o perigo fosse uma trivialidade cotidiana para ele. — Eu estava no terraço de um hotel chique demais, o vento batia forte, e a festa estava no auge, música eletrônica pulsando no ar gelado da madrugada, quando, de repente, sinto o cheiro inconfundível. Não era o perfume caro, não, era algo muito pior, era fumaça densa e estava subindo do andar de baixo.
Marina levou as mãos à boca, os olhos arregalados. Thiago, como sempre, cruzou os braços, mas seus cotovelos denunciavam seu interesse. Lucas, vendo que o gancho estava fisgado, continuou com mais detalhes e fervor, descrevendo a corrida desesperada e o caos que se instalou. — Foi naquele momento que a vi. Ela estava encurralada, claro, a fumaça subindo pelo duto de ventilação, uma moça linda, cabelos cor de fogo, vestida com aquele modelo haute couture que parecia ter saído direto de uma passarela de Milão. Ela estava em pânico, mas ainda conseguiu gritar para mim: 'Meus sketches! Eu preciso dos meus desenhos de moda, são o trabalho de meses!'. — Ele fez uma pausa dramática, tomando um gole demorado de café, permitindo que a tensão pairasse.
— E o que você fez, Lucas? — perguntou Marina, ansiosa, quase balançando na cadeira.
Lucas a encarou com um olhar profundo, repleto de falsa bravura.
— O que eu faria? Eu soube que não podia hesitar. Entrei naquele inferno de fumaça, tossindo e me rastejando pelo chão, senti o calor nas minhas mãos. Os seguranças estavam histéricos, gritando ordens. Eu ignorei tudo. Consegui encontrá-la, agarrei-a pela cintura, puxei-a para o terraço, e prometi que voltaria pelos desenhos. Voltei. Claro que voltei. Quando a entreguei para a equipe de resgate, coberta de fuligem, ela me olhou com aqueles olhos verdes de esmeralda, e disse a frase mais clichê, porém mais verdadeira, que eu já ouvi: 'Você salvou minha vida, e minha carreira'. Essa, meus amigos, era a Valeska, a modelo que estrelou a última capa da Vogue Itália. — Lucas finalizou a história com um sorriso melancólico. — Passamos o resto do final de semana juntos, claro, uma aventura tórrida e cheia de adrenalina, mas ela é livre demais, sabe? Artista, viajando sempre para algum lugar exótico para uma sessão de fotos. Não daria certo, mas a lembrança... ah, a lembrança é minha.
Thiago desfez o ceticismo, batendo as palmas das mãos na mesa em admiração.
— Cara, inacreditável. Você é o Indiana Jones dos relacionamentos! Um verdadeiro herói! — Marina suspirou de inveja e admiração. Lívia apenas observou, e por um segundo, Lucas sentiu um pequeno calafrio, imaginando que ela poderia ver através de sua fachada. No entanto, o brilho nos olhos de seus colegas e a sensação de ter, mais uma vez, moldado sua própria realidade, inundou-o de uma satisfação viciante. Ele sorriu.
O Lucas que eles conheciam era fabuloso, destemido, e irresistivelmente apaixonante. Ele se sentia no auge de sua performance, acreditando firmemente que a única vida que valia a pena era aquela que ele havia, com tanto esmero, inventado. E ele não precisava de beijos, carícias ou amor verdadeiro. Ele precisava apenas do público.
