O convés inclinado agora desafiava a gravidade, transformando o caminhar em uma luta desesperada por equilíbrio. O estalo do metal retorcido ecoava como tiros de canhão nas entranhas do gigante. Isabella, em um impulso de negação ou de uma lealdade que desafiava a razão, não havia descido no bote; o pânico e o vácuo entre o navio e o mar a fizeram recuar para os braços do homem que ela mal conhecia.
Eles se arrastaram em direção à popa, fugindo da água que já começava a lamber as janelas da Grande Escadaria. Ali, cercados por centenas de pessoas que rezavam em dezenas de línguas diferentes, o isolamento era a única forma de sanidade.
— Por que você não foi? — sibilou Fillemon, as costas pressionadas contra uma bobina de cordas. — Você tinha a chance! Você tinha o mundo!
Isabella tremia tanto que seus dentes batiam, mas seus olhos permaneciam fixos nos dele.
— O mundo que eu tinha era feito de papelão, Miller... ou seja quem for. Eu não quero morrer cercada de estranhos que só amam a minha música. Eu prefiro a verdade, mesmo que ela seja terrível.
Fillemon sentiu um nó górdio apertar sua garganta. A estrutura de mentiras que ele construíra para sobreviver desmoronou mais rápido que as anteparas do navio.
— Meu nome é Fillemon — disse ele, a voz crua, despida de qualquer sotaque forçado. — Eu não sou um trabalhador honesto. Eu sou um ladrão, Isabella. Eu roubei aquele bilhete. Eu usei cada conversa nossa para me sentir parte de algo que eu desprezo, mas que eu desejava com cada fibra do meu ser. Eu queria o dinheiro dos seus iguais para tirar minha mãe da lama, e eu não me importava com quem eu tivesse que pisar para chegar lá. Eu sou um impostor, um egoísta que só pensou em si mesmo até o momento em que vi você chorar naquele piano.
Ele esperava o tapa, o desprezo, a repulsa que justificaria seu ódio pelas classes altas. Mas Isabella apenas o observou, uma tristeza infinita substituindo o medo em seu rosto pálido. Ela estendeu a mão enluvada e tocou o rosto dele, sujo de fuligem e sal.
— Pobre Fillemon... — sussurrou ela. — Você passou a vida lutando contra monstros e acabou acreditando que precisava se tornar um deles para ser livre. Eu não sinto raiva. Eu sinto piedade, porque você teve que mentir para se sentir digno de ser amado.
O navio deu um solavanco violento. As luzes, que até então brilhavam com um amarelo heróico, começaram a oscilar ritmicamente, piscando como se o Titanic estivesse tentando enviar seu próprio código Morse de despedida.
— Elas vão apagar — previu Fillemon, segurando a mão dela com força. — Quando as luzes se forem, Isabella, o navio pertence ao mar.
Eles se encolheram contra a grade da popa, que se elevava cada vez mais em direção às estrelas indiferentes. Naquele crepúsculo elétrico, as distinções entre a pianista famosa e o infiltrado miserável desapareceram completamente. Sob o brilho moribundo das lâmpadas de tungstênio, restavam apenas dois seres humanos, despidos de suas máscaras, aguardando o momento em que a escuridão absoluta finalmente os tornaria iguais. Quando o último filamento de luz se apagou, restou apenas o som do oceano e o calor das mãos dadas contra o frio do fim do mundo.
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