O relógio de Fillemon já não importava mais; o tempo agora era medido pelos batimentos acelerados de seu coração e pelo ângulo impossível que a popa do Titanic formava contra o céu. Eram aproximadamente duas horas e vinte minutos da manhã de 15 de abril. O gigante, outrora orgulhoso, soltou um urro de agonia que pareceu rasgar o próprio tecido da noite. O aço cedeu, as luzes se apagaram definitivamente e, com um estrondo que silenciou os gritos, o navio partiu-se ao meio entre a terceira e a quarta chaminé.
— Segure-se em mim! — gritou Fillemon, sua voz quase sumindo em meio ao som de toneladas de água invadindo as seções rompidas. — Não solte a minha mão, Isabella!
Eles foram lançados na escuridão líquida. O impacto com a água do Atlântico não foi como um mergulho, mas como um choque elétrico que paralisou cada nervo. A temperatura de dois graus negativos era uma faca que cortava a carne e buscava os ossos. Fillemon emergiu, tossindo água salgada, e lutou contra o redemoinho causado pelo mergulho final da popa. Ele avistou uma placa de madeira — parte de um revestimento de luxo que agora servia apenas como destroço — e impulsionou Isabella para cima dela.
O silêncio que se seguiu ao mergulho do navio era quebrado apenas pelos lamentos distantes de centenas de vozes no escuro. Isabella estava deitada sobre a madeira, sua respiração vindo em espasmos curtos e rasos. Seu rosto, antes tão cheio de vida e música, estava pálido como o gelo que os cercava.
— Fillemon... — sussurrou ela, as palavras mal saindo de seus lábios azulados. — O frio... ele é tão silencioso.
Fillemon, com metade do corpo submerso para manter a estabilidade do destroço, sentia a vida esvair-se de seus próprios membros. Ele a abraçou, tentando transferir o pouco calor que ainda lhe restava, as lágrimas congelando em seu rosto sujo de fuligem.
— Fique comigo, Isabella! — ele implorou, a voz falhando. — Você me disse que eu não precisava ser um monstro. Você me viu... você viu quem eu realmente era através daquelas teclas. Eu prometo a você, aqui, neste inferno gelado... se eu sair daqui, eu nunca mais serei aquele homem. Eu serei honesto. Eu cuidarei da minha mãe com mãos limpas. Eu serei a pessoa que você acreditou que eu fosse.
Isabella sorriu fracamente, um movimento quase imperceptível. Seus olhos procuraram os dele na penumbra das estrelas.
— Eu já... sabia disso — ela murmurou, a voz tornando-se um fio de som. — A música... nunca mente.
Aos poucos, o tremor de Isabella cessou. Sua cabeça pendeu suavemente contra o ombro de Fillemon. Ele continuou falando, contando histórias sobre a América, sobre o sol que nasceria em breve, sobre o piano que ela voltaria a tocar. Ele falou até que sua própria voz se tornasse um sussurro rouco, mas não houve resposta.
O silêncio de Isabella era absoluto. O coração da pianista parara sob o céu de 1912, deixando Fillemon sozinho no meio do oceano, segurando o corpo da única pessoa que o conhecera de verdade. Ele olhou para o horizonte, onde a primeira luz cinzenta do amanhecer começava a surgir, prometendo um resgate que, para Isabella, chegara tarde demais. Ele fechou os olhos dela com um beijo gélido, carregando no peito o peso de uma promessa que moldaria o resto de seus dias.
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