O sol nascia tímido sobre o horizonte, um disco pálido que mal aquecia a jangada encharcada enquanto ela deslizava para a costa do continente. As ondas, agora calmas após o temporal, lambiam as tábuas com um som suave, quase reconfortante, mas o ar estava pesado com o cheiro de sal e algo mais — um silêncio que não pertencia à vida. Higor, Henrique e Ana remavam em silêncio, os braços doloridos, os rostos marcados por olheiras profundas e a tensão de uma noite sem fim.
A jangada bateu na areia com um rangido baixo, e os três pularam para a praia, as pernas trêmulas afundando na terra molhada. O continente se erguia diante deles: uma vila costeira pequena, com casas de madeira pintadas em cores desbotadas, redes de pesca jogadas ao acaso e um cais vazio onde barcos balançavam, abandonados. Mas não havia vozes, nem passos, nem o latido de um cachorro — apenas o vento assobiando pelas janelas quebradas.
— Onde tá todo mundo? — perguntou Henrique, a voz rouca enquanto limpava a faca na calça encharcada. Ele deu alguns passos à frente, os olhos verdes estreitados contra o sol fraco, a mão apertando o cabo da arma como se esperasse um ataque.
Higor se abaixou para pegar o caderno do bolso, as páginas úmidas colando umas nas outras. Ele abriu numa folha em branco e anotou com a caneta quase sem tinta: "Chegamos ao continente. Vila deserta." Ele olhou ao redor, o coração apertado.
— Parece que fugiram — disse ele, a voz baixa, quase um sussurro. — Ou pior.
Ana largou a mochila na areia, o corpo curvado de exaustão enquanto esfregava os braços para afastar o frio. Ela pegou o diário de Seu Zé e o microscópio, verificando se ainda estavam intactos, antes de se levantar e examinar a vila.
— Não tem sinais de luta — observou ela, apontando para as casas. As portas estavam abertas, algumas cadeiras tombadas, mas sem sangue ou marcas de violência. — É como se tivessem simplesmente... ido embora.
— Ou foram levados — murmurou Henrique, chutando uma lata vazia que rolou pela rua de terra com um som metálico. — Isso não tá certo, Ana. A gente escapou da ilha pra cair num lugar vazio?
— Vamos procurar — disse Higor, guardando o caderno e começando a andar em direção ao cais. — Pode ter um rádio, algo que explique isso.
Os três seguiram pela vila, os passos ecoando no silêncio opressivo. Passaram por uma padaria com pães mofados na vitrine, uma bicicleta enferrujada caída na calçada, e um varal com roupas que balançavam ao vento como fantasmas. No fim da rua, encontraram uma pequena estação de pesca, uma construção de concreto com a porta entreaberta e o cheiro de óleo e metal saindo de dentro.
— Aqui — chamou Ana, entrando primeiro. Ela acendeu a lanterna que pegara da jangada, o feixe de luz cortando a penumbra. No canto, sobre uma mesa cheia de papéis amassados, havia um rádio velho, o mostrador piscando com uma luz verde fraca.
Higor girou o botão, o chiado preenchendo o ar enquanto procurava uma frequência. Após alguns segundos, uma voz robótica emergiu entre os ruídos estáticos, fria e mecânica:— "...Contenção em andamento. Área quarenta e sete sob observação. Não se aproximem. Repito, contenção em andamento..."— Contenção? — repetiu Henrique, franzindo a testa enquanto se aproximava do rádio. Ele bateu na mesa, como se isso pudesse esclarecer a mensagem. — Que droga é essa? Eles sabem da ilha?
— Parece que sim — disse Ana, a voz tensa. Ela começou a vasculhar os papéis na mesa, os dedos tremendo enquanto pegava um documento rasgado, amarelado pela umidade. Ela leu em voz alta, a luz da lanterna iluminando as palavras fragmentadas: — "...Projeto Águas Profundas... teste biológico... parasita X-17... Ilha das Brumas designada como zona de contenção... falha crítica em 198..."O resto estava rasgado, as bordas queimadas como se alguém tivesse tentado destruí-lo. Ana largou o papel, os olhos arregalados enquanto olhava para os gêmeos.
— Um teste biológico — disse ela, a voz quase um sussurro. — A ilha... eles usaram a ilha pra testar essa coisa. O parasita não foi um acidente. Foi planejado.
— Planejado? — exclamou Henrique, batendo a mão na parede de concreto, o som ecoando na sala. — Quer dizer que jogaram isso na gente de propósito? Meu pai, minha mãe... todos eles?
— Não sei se foi de propósito — respondeu Ana, balançando a cabeça. — Pode ter escapado, como eu pensei. Mas eles sabiam. E agora tão limpando tudo.
Higor pegou o documento rasgado, os dedos traçando as palavras quebradas. Ele anotou no caderno: "Projeto Águas Profundas. Parasita X-17. Ilha era teste." Ele olhou para os outros, o rosto pálido.
— Se tão em contenção, por que a vila tá vazia? — perguntou ele, a voz carregada de suspeita. — O que aconteceu aqui?Antes que alguém pudesse responder, um som cortou o silêncio — um zumbido grave, mecânico, vindo do céu. Ana correu para a janela, o coração disparado, e apontou a lanterna para fora. Um helicóptero preto surgia na névoa matinal, as hélices girando com um ronco que fazia o chão tremer, o símbolo de uma águia dourada pintado na fuselagem.
— Eles nos acharam! — gritou ela, recuando da janela. A luz do helicóptero varreu a vila, um feixe branco cortando as casas como uma lâmina.
— Nos acharam? — repetiu Henrique, a faca já na mão enquanto corria para a porta. — Quem? Os caras que fizeram isso?
— Não sei, mas não parecem amigos! — respondeu Ana, agarrando a mochila e o documento rasgado. — A gente precisa correr, agora!
Higor guardou o caderno, os olhos fixos no helicóptero que pairava cada vez mais perto. O zumbido das hélices misturava-se ao som do mar, e ele sentiu um frio na espinha — não era mais só o parasita que os caçava. Algo maior, algo humano, estava vindo por eles.
— Eles sabem que a gente escapou — disse ele, a voz baixa mas firme. — E não vão deixar a gente contar.
Os três saíram correndo da estação, o barulho do helicóptero ecoando atrás deles enquanto mergulhavam nas ruas desertas da vila fantasma, o peso da verdade os seguindo como uma sombra.