— Me desculpe, eu sei que você é a guia da cidade, mas eu queria saber da família dela. Essa tal Carolina desapareceu e a família não procurou? E onde eles estão agora? Eles moram aqui em Entre Rios?
— Qual o seu nome? — perguntou a guia para o moço mas não esperou que ele respondesse — Assim, por uma questão de segurança, um protocolo da cidade, e também por opção deles, a gente não revela nada sobre a família. O que eu posso contar é que o meu avô era irmão de um dos senhores mortos pela menina amaldiçoada.
Rayane é a única guia de Entre Rios, formada em turismo, voltou a morar na cidade em 2010, e desde então recebe os turistas, sempre tendo que responder as mesmas questões. Ainda que queira contar que até 1982 a água era de poço, falar sobre a evolução da cidade ao longo dos anos, as perguntas são sempre relacionadas a tragédia de 1972 e se a garota do rio vai reaparecer novamente para levar mais alguém.
Claro que ela não acredita nessa história da garota amaldiçoada, e que a família dela é um grande mistério, a verdade é outra. Eugênia, a mãe de Carolina é sua avó, quer algo mais extraordinário do que isso? A família de quem ninguém tem notícias é a de Paulo Augusto. O que sabem é que quando ele foi encontrado morto, Tininha acabou indo embora para Foz do Iguaçu morar com sua irmã, uma das mulheres mais ricas da cidade.
As fofocas sobre Carolina sempre existiram e volta e meia aparecia algum curioso na cidade. E a cada visita, uma nova distorção da realidade era criada. Eugênia sempre contava para a família como as coisas aconteceram de verdade e Rayane era fascinada pela tia desde pequena.
— A Carolina era muito especial. Ela sempre gostou de aproveitar cada momento como se fosse o único. Seu avô não suportava. Uma vez a gente viajou para Foz do Iguaçu, lá tem uma avenida, uma descida bem grande. A gente parou em uma quitanda por alguns minutos, quando a gente se deu conta ela estava dentro de um carro descendo a rua, e o dono do carro nem percebeu que estava indo embora com ela. Era apenas um segundo e ela estava lá vivendo alguma aventura nova.
— Mas o vô gostava dela né? — perguntou Rayane.
— De jeito nenhum — respondeu rindo — não era filha dele.
— A senhora sempre foi moderna...
— Me casei com um militar, e assim que teve a ditadura e eu descobri o monstro que ele era, você acha que eu iria deixar minha filha ser criada com aquilo? Eu fugi. Eu sei que é uma história fantástica, mas eu confio que a Carolina era do bem e que nunca matou ninguém.
— Não tem vontade ver ela de novo?
Eugênia passou a mão sobre os cabelos brancos e desviou o olhar antes de responder. — Eu vou ver, eu sei que vou.
Próximo dali estava o turista que mais cedo estava no passeio com Rayane.
— Eu gostaria de saber se o senhor sabe onde eu posso encontrar a guia da cidade, deixa eu ver se eu consigo explicar como ela é...
— Não precisa — respondeu o homem — só temos uma guia aqui na cidade. Pra sua sorte, ela está em casa, vi ela chegar, mas não vi ela saindo. Mas você não é daqui, não é mesmo?
— Não, não, meu nome é Pedro e eu sou jornalista, estou querendo fazer uma matéria pra cidade...
— Ah, se é isto, então eu te mostro onde ela mora.
Não demorou para que Pedro chegasse em frente a casa de Rayane.
— Você por aqui! Precisa de alguma ajuda?
— Olha, eu vou ser bem direto com você... Sei que você mentiu sobre ser parente de um dos homens mortos no rio, porque o homem morto no rio era meu avô, e eu estou aqui porque eu não acredito nessa história de iara.
— Entra por favor — pediu — aqui dentro a gente conversa melhor.
Eugênia se levantou para ir pro quarto, mas Rayane pediu que ela ficasse. — Ele tem algo importante pra falar.
— Faz um bom tempo que eu venho procurando saber notícias sobre como o meu avô realmente morreu, mas é sempre uma resposta vaga, lúdica e fora da realidade. E sempre tinha algum empecilho me bloqueando, mas agora a gente está em 2012 e o pessoal fala que é o fim do mundo, resolvi deixar tudo o que eu tinha em Foz do Iguaçu pra tentar encontrar a verdade.
Rayane estava sem reação, o Pedro parecia sincero em suas palavras. Porém era preciso muito cuidado, a gente não sabe se o mundo realmente vai acabar, então é melhor não jogar tudo ao vento para tentar ajudar alguém que acabamos de conhecer. O único problema é que aquilo sobre ser parente de um dos mortos era mentira, Pedro estava certo.
— Eu acho que eu só posso te pedir desculpas. Existe uma fantasia aqui na nossa cidade e eu acabei inventando essa mentira.
Pedro parecia compreensível. ele só queria respostas, mas o que ele realmente queria ela não podia ajudar, tão pouco Eugênia e como Carolina desapareceu, essa é a resposta que ninguém tinha. A surpresa no fim do dia ficou por conta de Pedro que a convidou para jantar mas ela acabou recusando.
— Sério isso? Preciso de respostas, quebra esse galho vai? É um jantar de negócios — disse ele estendendo a mão — eu juro!
— Tudo bem, eu aceito o jantar — disse sorrindo.
Continua...
