O som do gerador improvisado zunia como um lamento, intercalando com a respiração pesada dos feridos. Dentro da sala úmida e escura do abrigo, Milena trabalhava como podia — sem luvas, sem anestesia, sem equipamentos modernos. Apenas com a coragem de quem já viu o pior e ainda assim escolheu continuar.
Ela pressionava uma atadura suja contra a ferida aberta no abdômen de um adolescente, que tremia de febre.
— Fica comigo, por favor... — murmurou ela, com a voz embargada. — Ainda tem coisa boa nesse mundo, juro por Deus...
Limpou o suor da testa e prendeu o choro. Olhou ao redor. Três corpos cobertos por panos escuros. Um deles tinha morrido na madrugada. Os outros dois, pela manhã. As infecções estavam vencendo a guerra silenciosa enquanto os Alpha-Draconianos reinavam do lado de fora.
— Milena — chamou JP, da porta. — Consegui adaptar uma resistência elétrica no fogareiro. Dá pra esquentar água agora.
— Obrigado, JP... você é um milagre — respondeu ela, com um meio sorriso, que logo se desfez ao olhar o balde de água quase vazio.
Do lado oposto do abrigo, Natália treinava sozinha. Seus socos contra o concreto das paredes já deixavam marcas vermelhas nas mãos. Ela chutava, girava, respirava com força.
— Vai quebrar os ossos desse jeito — disse David, encostado em uma pilastra.
— Melhor os ossos do que a cabeça — respondeu ela, seca.
— Você não dorme, não come, não fala com ninguém... ainda está se culpando, né?
— Não é da sua conta, David.
Ele se aproximou um passo.
— Seu irmão estava chipado. Você fez o que precisava ser feito.
— Eu coloquei uma bala na testa dele, David. Eu. Com essas mãos.
— Se não tivesse feito isso, hoje ele estaria aqui dentro, pronto pra abrir as portas pros lagartos. E te faria a mesma coisa.
— Eu sei... — ela parou, respirando fundo. — Mas saber disso não torna mais fácil.
David desviou o olhar. Por um instante, o silêncio entre eles foi mais sincero do que qualquer palavra. Ele sabia o que era carregar culpa.
— Eu matei uma mulher grávida em Campinas — confessou, quase num sussurro.
Natália se virou devagar.
— O quê?
— Antes de vir pra cá. Achei que ela tava infectada. Tava desesperada, gritando, avançou em mim. Não pensei. Só atirei.
— E ela não estava?
— Não... Ela só queria água.
Os dois se olharam. Pela primeira vez, sem as defesas. Sem armas. Sem escudos. Apenas dois seres humanos quebrados, tentando sobreviver com o que restou de si.
Foi então que JP surgiu correndo.
— Antônio! Temos um problema!
A reunião improvisada de emergência foi feita num túnel lateral. JP mostrou as imagens captadas por uma câmera de vigilância que ele mesmo adaptara com peças de uma loja de eletrônicos.
— Patrulha Draconiana. Dois caças voadores e um transporte terrestre. Eles encontraram um esconderijo a menos de um quilômetro daqui — disse ele, apontando o mapa digital. — Estavam atrás de nós, mas acharam outro grupo primeiro.
— E o que aconteceu com o grupo? — perguntou Milena, aflita.
— Estão mortos. Todos. Não deu tempo nem de reagir.
Antônio cerrou os punhos.
— Isso significa que estão cada vez mais perto.
— É questão de tempo até encontrarem o nosso abrigo — concluiu Laura, nervosa.
— Temos que evacuar — disse Natália.
— Não vamos conseguir levar todos — retrucou Milena, com o olhar firme. — Tem gente que mal consegue ficar de pé.
— Então levamos os que derem — completou Antônio. — Os outros... vamos esconder o melhor que pudermos. Enterrar a entrada do abrigo, usar os túneis velhos. Natália, David, vocês cuidam disso.
— Sim, senhor — responderam os dois ao mesmo tempo.
— E JP, prepare os dispositivos EMP. Se eles acharem o abrigo, quero que o sistema deles apague antes de pisarem aqui dentro.
As próximas horas foram frenéticas. Mochilas sendo enchidas, alimentos divididos, medicamentos selecionados a dedo. Milena lutava contra o tempo para estabilizar os feridos que seriam transportados.
Dona Cida rezava baixinho, com o terço entre os dedos e os olhos fechados.
— Que São Jorge caminhe à frente, cortando o mal com sua espada...
Quando o grupo finalmente deixou o abrigo pela saída dos fundos, Antônio olhou para trás uma última vez.
Ali estava tudo o que eles haviam construído nos últimos meses. A segurança improvisada, as noites mal dormidas, os abraços de consolo. Agora, aquele lar precisava ser deixado para trás.
— Se sobrevivermos a isso... — murmurou ele — ...vamos construir tudo de novo.
O grupo se afastou em silêncio, enquanto a fumaça de um novo ataque alienígena subia no horizonte.
O mundo ardia. E cada coração que restava, ardia junto.
