Capítulo 2 – Corações queimados

 O som do gerador improvisado zunia como um lamento, intercalando com a respiração pesada dos feridos. Dentro da sala úmida e escura do abrigo, Milena trabalhava como podia — sem luvas, sem anestesia, sem equipamentos modernos. Apenas com a coragem de quem já viu o pior e ainda assim escolheu continuar.

Ela pressionava uma atadura suja contra a ferida aberta no abdômen de um adolescente, que tremia de febre.

— Fica comigo, por favor... — murmurou ela, com a voz embargada. — Ainda tem coisa boa nesse mundo, juro por Deus...

Limpou o suor da testa e prendeu o choro. Olhou ao redor. Três corpos cobertos por panos escuros. Um deles tinha morrido na madrugada. Os outros dois, pela manhã. As infecções estavam vencendo a guerra silenciosa enquanto os Alpha-Draconianos reinavam do lado de fora.

— Milena — chamou JP, da porta. — Consegui adaptar uma resistência elétrica no fogareiro. Dá pra esquentar água agora.

— Obrigado, JP... você é um milagre — respondeu ela, com um meio sorriso, que logo se desfez ao olhar o balde de água quase vazio.

Do lado oposto do abrigo, Natália treinava sozinha. Seus socos contra o concreto das paredes já deixavam marcas vermelhas nas mãos. Ela chutava, girava, respirava com força.

— Vai quebrar os ossos desse jeito — disse David, encostado em uma pilastra.

— Melhor os ossos do que a cabeça — respondeu ela, seca.

— Você não dorme, não come, não fala com ninguém... ainda está se culpando, né?

— Não é da sua conta, David.

Ele se aproximou um passo.

— Seu irmão estava chipado. Você fez o que precisava ser feito.

— Eu coloquei uma bala na testa dele, David. Eu. Com essas mãos.

— Se não tivesse feito isso, hoje ele estaria aqui dentro, pronto pra abrir as portas pros lagartos. E te faria a mesma coisa.

— Eu sei... — ela parou, respirando fundo. — Mas saber disso não torna mais fácil.

David desviou o olhar. Por um instante, o silêncio entre eles foi mais sincero do que qualquer palavra. Ele sabia o que era carregar culpa.

— Eu matei uma mulher grávida em Campinas — confessou, quase num sussurro.

Natália se virou devagar.

— O quê?

— Antes de vir pra cá. Achei que ela tava infectada. Tava desesperada, gritando, avançou em mim. Não pensei. Só atirei.

— E ela não estava?

— Não... Ela só queria água.

Os dois se olharam. Pela primeira vez, sem as defesas. Sem armas. Sem escudos. Apenas dois seres humanos quebrados, tentando sobreviver com o que restou de si.

Foi então que JP surgiu correndo.

— Antônio! Temos um problema!

A reunião improvisada de emergência foi feita num túnel lateral. JP mostrou as imagens captadas por uma câmera de vigilância que ele mesmo adaptara com peças de uma loja de eletrônicos.

— Patrulha Draconiana. Dois caças voadores e um transporte terrestre. Eles encontraram um esconderijo a menos de um quilômetro daqui — disse ele, apontando o mapa digital. — Estavam atrás de nós, mas acharam outro grupo primeiro.

— E o que aconteceu com o grupo? — perguntou Milena, aflita.

— Estão mortos. Todos. Não deu tempo nem de reagir.

Antônio cerrou os punhos.

— Isso significa que estão cada vez mais perto.

— É questão de tempo até encontrarem o nosso abrigo — concluiu Laura, nervosa.

— Temos que evacuar — disse Natália.

— Não vamos conseguir levar todos — retrucou Milena, com o olhar firme. — Tem gente que mal consegue ficar de pé.

— Então levamos os que derem — completou Antônio. — Os outros... vamos esconder o melhor que pudermos. Enterrar a entrada do abrigo, usar os túneis velhos. Natália, David, vocês cuidam disso.

— Sim, senhor — responderam os dois ao mesmo tempo.

— E JP, prepare os dispositivos EMP. Se eles acharem o abrigo, quero que o sistema deles apague antes de pisarem aqui dentro.

As próximas horas foram frenéticas. Mochilas sendo enchidas, alimentos divididos, medicamentos selecionados a dedo. Milena lutava contra o tempo para estabilizar os feridos que seriam transportados.

Dona Cida rezava baixinho, com o terço entre os dedos e os olhos fechados.

— Que São Jorge caminhe à frente, cortando o mal com sua espada...

Quando o grupo finalmente deixou o abrigo pela saída dos fundos, Antônio olhou para trás uma última vez.

Ali estava tudo o que eles haviam construído nos últimos meses. A segurança improvisada, as noites mal dormidas, os abraços de consolo. Agora, aquele lar precisava ser deixado para trás.

— Se sobrevivermos a isso... — murmurou ele — ...vamos construir tudo de novo.

O grupo se afastou em silêncio, enquanto a fumaça de um novo ataque alienígena subia no horizonte.

O mundo ardia. E cada coração que restava, ardia junto.