O escritório de Alberto não se parecia com a sede de uma rede de hotéis moderna. Não havia o barulho de telefones, o clique constante de teclados ou o vaivém de secretários. O império Patrones era gerido dali, entre quatro paredes revestidas de carvalho e monitores de última geração que permaneciam no mudo, exibindo gráficos de ocupação e câmeras de segurança de unidades em cinco continentes.

Victor passava as tardes organizando arquivos digitais e físicos sob a supervisão de Alberto, que permanecia sentado em sua poltrona, quase fundido à penumbra. O rapaz notou que, apesar de gerir milhares de quartos e hospedar milhares de pessoas, Alberto nunca havia sido visto em uma inauguração, em um café da manhã de cortesia ou sob qualquer claridade que não fosse o brilho azulado das telas.

— O hotel em Madri teve um problema com o sistema de refrigeração — comentou Victor, olhando para o monitor. — Eles enviaram um relatório urgente às dez da manhã. O senhor não quis responder?

— Problemas técnicos são como febres, Victor. Se você espera o tempo suficiente, ou eles matam o paciente ou o corpo se cura sozinho. Eu respondi às sete da noite. A pressa dos meus gerentes não dita o meu ritmo.

Victor assentiu, mas seu estômago roncou, quebrando o silêncio pesado da sala. Era a terceira vez naquela hora. Alberto, que não havia tocado em nada além daquela taça de conteúdo denso desde o início do turno, inclinou a cabeça para o lado.

— Você está distraído. O brilho nos seus olhos diminuiu desde que chegou hoje. É a fome ou a preocupação?

Victor baixou a cabeça, fingindo interesse em uma planilha de custos.

— Os dois, senhor Alberto. Ontem à noite... as coisas não foram boas na minha rua.

Alberto levantou-se. Ele se aproximou de Victor com aquela leveza sobrenatural, parando perto o suficiente para que o jovem sentisse o frio que emanava de suas roupas.

— Conte-me. O que poderia ser tão urgente a ponto de tirar a atenção de um homem que precisa tanto deste emprego?

— Foram os mesmos de sempre — começou Victor, com a voz falhando. — Um grupo de rapazes do bairro de cima. Eles sabem que eu recebo na segunda. Me cercaram no beco, perto da farmácia. Levaram tudo. O dinheiro dos remédios da minha avó, o que sobrou da comida... eles riram, senhor. Disseram que se eu reclamasse, voltariam para quebrar a porta da minha casa.

Alberto caminhou até o bar de mogno e serviu-se, girando a taça de vinho tão escuro que parecia opaco. O líquido não refletia a luz dos monitores.

— Por que aceita que esses ratos roubem o seu suor, Victor? — Alberto perguntou, a voz tingida por um desprezo que não era direcionado ao rapaz, mas à situação.

— Eu não tenho escolha, senhor. Eles são muitos, e a polícia não entra onde eu moro. Eu só quero que minha avó tenha um pouco de paz antes de partir. Não posso arriscar a vida dela tentando ser herói.

Alberto parou de girar a taça. Ele olhou para Victor, e por um segundo, as pupilas do patrão pareceram se dilatar até ocuparem quase toda a íris.

— A paz é um conceito caro, muitas vezes pago com o silêncio de quem nos incomoda, Victor. Você fala em sobrevivência como se fosse uma virtude, mas é apenas uma forma lenta de morrer sob os pés de seres inferiores.

— O que o senhor queria que eu fizesse? Eu sou só um.

— O mundo pertence aos que devoram, não aos que são devorados — Alberto disse, dando um pequeno gole no líquido escuro. — A moralidade é um luxo que os ratos usam para manter os bons homens na linha. Se um lobo entra em um galinheiro, ele não pede desculpas pelo apetite. Ele simplesmente limpa o lugar.

— Mas eu não sou um lobo — murmurou Victor, sentindo um calafrio que não vinha da temperatura da sala.

— Ainda não. Mas você serve a um — Alberto sorriu, e pela primeira vez, Victor notou que os caninos do patrão eram incomumente afiados, brilhando sob a luz fria do computador. — Volte ao trabalho. Vou providenciar para que o departamento financeiro da Patrones antecipe seu bônus. Mas lembre-se, Victor: o dinheiro resolve a fome de hoje, mas não cura o medo de amanhã. Para isso, é necessário um tipo diferente de solução.

Alberto voltou para as sombras, deixando Victor sozinho com o som do próprio coração batendo, rápido demais, contra o silêncio absoluto daquela mansão.