Capítulo 2: Entrada no Jornalismo e os Primeiros Desafios



 Quando Gloria Maria conseguiu sua primeira oportunidade na TV Globo, ela estava diante de um marco transformador em sua vida. Havia superado os obstáculos iniciais e, apesar das barreiras que o caminho apresentava, sentia-se ansiosa para mostrar o que era capaz de fazer. Seu ingresso na emissora, no início da década de 1970, foi resultado de uma combinação de determinação, sorte e competência, pois entrar em uma grande empresa de comunicação era algo quase impossível para uma mulher negra naquela época. Gloria sabia que sua presença ali era rara e que teria que se esforçar para provar seu valor todos os dias.

Sua carreira começou em funções modestas, como assistente de produção e repórter de rádio, áreas onde ganhou experiência e refinou suas habilidades de comunicação. Embora soubesse que era apenas o começo, a presença nos corredores da Globo já era uma vitória. Gloria era uma das poucas mulheres negras em uma posição de destaque no jornalismo, e isso a fazia sentir a necessidade de estar sempre impecável, não apenas em suas reportagens, mas em sua postura e dedicação.

Os primeiros anos foram de aprendizado intenso e desafios diários. Gloria enfrentava a falta de oportunidades reais e o preconceito velado — e, às vezes, explícito — que vinha de colegas e superiores. Ainda assim, seu foco era inabalável. Sabia que, para conquistar respeito e visibilidade, precisaria trabalhar em dobro e demonstrar uma competência além do esperado. Esses primeiros passos foram essenciais para desenvolver sua resiliência, algo que marcaria toda sua trajetória.

Em uma dessas ocasiões, Gloria recebeu uma tarefa que mudaria sua carreira: cobrir o incêndio em um prédio residencial no centro do Rio de Janeiro. Apesar de ser considerada jovem e inexperiente, ela insistiu em participar da cobertura. Chegando ao local, conseguiu captar imagens e relatos com uma sensibilidade e objetividade que chamaram a atenção de seus superiores. Foi nesse momento que muitos começaram a ver em Gloria uma jornalista dedicada e comprometida, alguém que tinha muito a oferecer ao jornalismo brasileiro.

No entanto, seu caminho continuava repleto de obstáculos. Por várias vezes, ela sentiu que era subestimada ou deixada de lado para reportagens mais impactantes, um reflexo das dificuldades que enfrentava por ser uma das únicas mulheres negras no meio. Era desafiador ver colegas serem escalados para coberturas maiores enquanto ela, muitas vezes, era designada para pautas consideradas menos relevantes. Mas em vez de desanimar, Gloria adotou uma postura de aprendizado e perseverança. Encarava cada reportagem como uma chance de mostrar seu valor.




Nessa fase inicial, ela se inspirava em outros pioneiros negros que também haviam enfrentado discriminação no meio artístico e cultural, como o ator Grande Otelo, um dos maiores nomes do cinema brasileiro, que usou o humor e o talento para romper barreiras. A trajetória de Otelo mostrava a Gloria que, apesar dos preconceitos e das portas fechadas, havia um caminho para aqueles que ousavam persistir.

Com o tempo, Gloria começou a construir sua reputação dentro da Globo, principalmente após algumas coberturas externas que evidenciavam seu talento para a narrativa. Seu jeito carismático e sua habilidade de se conectar com pessoas de diferentes realidades chamaram a atenção do público e, aos poucos, também da direção da emissora. Esses primeiros passos no jornalismo televisivo estavam moldando não apenas sua técnica, mas também sua habilidade em enfrentar adversidades com coragem e dignidade.

Nesse período, ela teve a oportunidade de trabalhar com profissionais consagrados, como Sergio Chapelin e Cid Moreira, que foram, de certa forma, referências de apresentação e postura para ela. Ao observá-los, Gloria aprendia a importância da precisão e do profissionalismo, sempre valorizando a essência de cada história. Em várias ocasiões, esses colegas a incentivaram e deram conselhos valiosos sobre o mundo do jornalismo televisivo, ajudando-a a desenvolver seu estilo único.

Mesmo com todos os desafios e, muitas vezes, sentindo o peso de ser uma das poucas mulheres negras na profissão, Gloria nunca perdeu a motivação. Suas primeiras reportagens, mesmo as menores, eram feitas com paixão e dedicação, pois ela acreditava no poder transformador da comunicação. Foi assim que, aos poucos, conquistou o respeito de outros jornalistas e firmou sua presença na emissora.

Os primeiros anos de Gloria Maria na Globo podem ser descritos como um período de provação e crescimento. Entre preconceitos e limitações, ela se transformou em uma profissional mais forte e decidida, alguém que aprenderia a contornar obstáculos e a usar cada oportunidade para demonstrar sua competência.