O crepúsculo sobre o Canal da Mancha trouxe consigo uma brisa cortante, mas o Titanic avançava com uma estabilidade que desafiava as leis da natureza. Enquanto o navio lançava âncoras em Cherbourg para receber passageiros ilustres, como o Coronel John Jacob Astor e sua jovem esposa, as luzes da embarcação refletiam na água como constelações capturadas.
Isabella observava a movimentação das barcaças através das janelas de vidro fumê do salão de recepção no convés D. Ao seu redor, o tilintar de cristais e o cheiro de tabaco caro formavam uma redoma de futilidade que a sufocava.
— A senhorita deveria estar no restaurante à la carte — sugeriu uma figura da alta sociedade, cujas joias brilhavam mais que sua conversa. — Dizem que a vitela está soberba.
— Prefiro a companhia das teclas, senhora — respondeu Isabella, com um sorriso educado que não chegava aos olhos.
Ela caminhou até o piano de cauda, um instrumento de madeira nobre que parecia esperar por ela. Ao tocar a primeira nota, o som preencheu o ambiente, abafando momentaneamente os comentários sobre ações da ferrovia e modas de Paris. Para Isabella, a música era o único idioma que não exigia uma máscara social; ali, ela não era a "Pianista Prodígio", mas apenas uma alma buscando ar em meio ao excesso de seda.
Enquanto isso, nas profundezas do navio, a atmosfera era carregada de uma energia bruta. Fillemon havia passado as últimas horas explorando o labirinto de corredores da terceira classe, o "Scotland Road", observando como o luxo era cortado abruptamente por portas de ferro e avisos de restrição.
— Olhem para essa segregação — murmurou ele para um imigrante irlandês que dividia o beliche com ele. — Acima de nós, comem em pratos de porcelana; aqui embaixo, somos apenas o peso que ajuda o navio a não virar.
Fillemon, no entanto, não perdia tempo apenas com o sarcasmo. Ele era um observador atento das falhas do sistema. No convés de passeio da terceira classe, durante a parada em Queenstown, ele notou um grupo de rapazes apostando em jogos de cartas improvisados. Com a habilidade de quem cresceu nas ruas, Fillemon infiltrou-se na roda.
— Parece que a sorte não está do seu lado hoje, amigo — disse ele, recolhendo algumas moedas após uma rodada de blefes calculados.
— Você tem mãos rápidas, Miller — rosnou o perdedor, usando o nome falso de Fillemon.
— Apenas um homem que sabe quando as cartas estão a favor da verdade — retrucou Fillemon, guardando o dinheiro no forro do casaco.
Cada centavo acumulado era um passo a menos na pobreza de sua mãe. Ele mentia sobre sua origem, fingia ser um operário especializado voltando para casa e, se necessário, simulava ignorância para evitar problemas com os comissários. Para ele, o Titanic era um microcosmo da injustiça do mundo: uma pirâmide de aço onde a base sustentava o brilho do topo.
A noite caiu definitivamente enquanto o navio deixava a costa da Irlanda para trás, adentrando o vazio do Atlântico Norte. Fillemon, inquieto, subiu até onde a permissão de sua classe permitia. Ele olhou para cima e viu, em uma das varandas iluminadas, o vulto de uma mulher solitária observando o mar.
Ele não sabia que era Isabella, e ela não podia imaginar que, alguns conveses abaixo, um jovem contava moedas ganhas com mentiras sob a luz fraca de uma lâmpada de tungstênio. Entre eles, havia metros de aço, camadas de preconceito e a fuligem das chaminés que manchava o céu estrelado, mas o destino já começava a reduzir a distância entre o luxo e a sobrevivência.
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