Assim que cheguei, o encarregado me mediu com o olhar e foi direto ao ponto: perguntou se eu já havia trabalhado em uma serraria. Respondi com a sinceridade de quem estava ali para aprender: "Não". Ele apenas anotou meu nome e, com um gesto decidido, me mandou para os fundos da serraria. Lá, fui apresentado ao Mateus, que seria minha dupla na missão de empilhar madeiras. À primeira vista, o serviço parecia simples, quase mecânico, mas eu logo descobriria que a simplicidade morava apenas na teoria. O cansaço não demorou a dar as caras, transformando cada tábua em um desafio de resistência.

Empilhar madeira exige mais do que força; exige concentração. Além do esforço físico, eu precisava manter o foco nas contas: cada pilha deveria conter exatamente 30 unidades. No calor da produção, perder a conta é fácil, mas o erro não é permitido. E, enquanto as mãos se moviam no ritmo da produção, o perigo espreitava nos vãos escuros entre as peças. No meio das madeiras, o que parece ser apenas um pedaço de casca pode ganhar vida: ali encontramos calangos rápidos, aranhas de todos os tamanhos e, o que mais me causou tensão, escorpiões camuflados.

Foi nesse momento que entendi a importância vital dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Olhei para as minhas luvas e senti uma gratidão profunda por aquela barreira de couro. Elas não eram apenas um acessório; eram o que impedia que as farpas agressivas da madeira bruta entrassem na minha pele com facilidade e me protegiam de picadas inesperadas. Eu tive a coragem de enfiar as mãos em lugares que, em qualquer outra situação, eu jamais tocaria, confiando apenas naquela proteção e na minha agilidade.

Enquanto trabalhávamos, o Mateus se revelou um companheiro de jornada surpreendente. Entre uma pilha e outra, ele começou a me fazer perguntas sobre a minha vida pessoal, querendo saber quem era aquele novato que havia caído de paraquedas ali. O que me marcou foi o tom dele: foi um cara extremamente respeitoso, sem a grosseria que muitas vezes se imagina em ambientes de trabalho tão pesados. Ele compartilhava a carga comigo não apenas fisicamente, mas também através de uma conversa que tornava o tempo um pouco menos denso.

Eu senti que, apesar da dureza do ambiente, existia uma etiqueta própria ali no pátio. O respeito entre os peões é o que mantém a engrenagem girando sem acidentes. Mateus me ensinou os macetes de como pegar a madeira sem forçar tanto a lombar, demonstrando uma empatia que eu não esperava encontrar tão cedo. Naquele cenário de serragem e sol, a humanidade se manifestava em pequenos gestos de orientação e paciência.

Ao final daquela primeira manhã, minhas mãos já pesavam e o suor começava a arder nos olhos, mas eu ainda estava de pé. Eu olhava para as pilhas que tínhamos levantado e sentia um orgulho tímido. O trabalho era bruto, os riscos eram reais e a natureza selvagem estava literalmente entre meus dedos, mas eu estava cumprindo o que me fora designado. Eu estava, pela primeira vez, entendendo o que significava o "trabalho pesado" que o Ricardo tinha mencionado.