Kaike demorou alguns dias para se adaptar à vida na fazenda. O barulho das buzinas e da cidade grande ainda ecoava em sua mente, e o silêncio do campo parecia estranho demais. O canto do galo antes do amanhecer o despertava cedo demais, e as noites estreladas, que encantavam a todos, para ele traziam uma sensação de solidão.

No primeiro café da manhã, tia Zuca colocou diante dele uma caneca fumegante de café coado e um prato de pão de queijo.

— Come, fio, que cê vai precisá de força — disse ela, com um sorriso caloroso.

Kaike agradeceu em voz baixa, ainda tentando se acostumar com o ambiente. Yuri, sentado ao lado de Cauby, não resistiu e cochichou:

— Esse aí nunca viu café passado no pano, sô.

Cauby franziu o cenho e cutucou o amigo, pedindo silêncio. Enquanto isso, observava discretamente as mãos de Kaike: lisas, sem calos, tão diferentes das de todos ali.

Durante o dia, a rotina da fazenda seguia o mesmo ritmo de sempre. Pedro chamava o gado, João Bonito cuidava dos cavalos com vaidade, e Goiás, como de costume, repetia histórias de assombração. Kaike caminhava pelo pátio como um visitante perdido em terra desconhecida. Alguns riam de seu jeito, outros cochichavam desconfiados.

Para Cauby, no entanto, havia algo diferente. Ele percebia no rapaz da cidade um silêncio parecido com o do próprio sertão, como se ambos falassem a mesma língua, mesmo sem trocar muitas palavras.

Naquela tarde, quando o trabalho terminou, Cauby pegou a sanfona e sentou-se na varanda. As primeiras notas de um xote ficaram suaves, enchendo o ar de vida. Kaike, que passava pelo corredor, parou instintivamente. Ficou encostado no batente da porta, hipnotizado pelo som.

Quando notou sua presença, Cauby interrompeu a melodia.
— Ocê gosta? — perguntou, sorrindo de leve.

Kaike se aproximou devagar, meio sem jeito.
— Gosto. Minha mãe tocava violão quando eu era pequeno. Eu… nunca tive coragem de aprender.

— Uai, mas por quê não, moço? — Cauby inclinou a cabeça. — Música num é coisa de coragem, não. É só de sentí.

Kaike respirou fundo antes de responder.
— Na cidade tudo é rápido, tudo tem que ser perfeito. Lá, eu tinha medo de ser motivo de piada. Aqui… aqui parece diferente.

Cauby apoiou a sanfona no colo, olhando firme para ele.
— Aqui nóis toca é pra acalmá a alma, num é pros outro, não.

O silêncio que se seguiu não foi vazio. Era um silêncio cheio de entendimento, carregado de algo que os dois ainda não sabiam nomear. Naquele instante, entre o cheiro de café vindo da cozinha e o som das cigarras no campo, começou a nascer um laço invisível entre o peão sanfoneiro e o rapaz da cidade.