A teoria de Gabriel sobre a sua vida controlada ruiu de vez nas duas semanas seguintes. Ele achou que o episódio da floricultura seria apenas uma história curiosa para contar aos amigos, mas Charlie tinha planos bem mais audaciosos para o destino dos dois. Na manhã de quinta-feira, ao abrir a porta da frente para sair para o trabalho, Gabriel quase tropeçou em um novelo de pelos claros deitado no tapete da entrada. Era Charlie, que bateu o rabo no chão ritmadamente assim que viu o rapaz.
— Não é possível, cara. Como você veio parar aqui de novo? — perguntou Gabriel, olhando para os lados da rua residencial deserta.
Sem saída, ele teve que fazer o mesmo caminho até a floricultura antes de seu turno. Helena, ao vê-lo cruzar a esquina segurando o cão por uma corda improvisada, levou as mãos à cabeça, misturando um sorriso envergonhado com desespero.
— Gabriel, eu não sei o que deu nesse cachorro! Ele cavou um buraco debaixo do portão de madeira. Acho que ele se apegou a você de um jeito inexplicável — explicou ela, pegando a corda.
— Ele é determinado, preciso admitir. Mas se ele continuar fugindo assim, vai acabar se machucando.
— Eu fico morrendo de medo. Minha rotina na floricultura é uma loucura de manhã, mal consigo respirar entre as entregas.
Foi ali, no meio do cheiro de terra molhada e flores frescas, que Gabriel tomou uma decisão que ia totalmente contra sua antiga lógica de economizar tempo.
— Olha, eu pego no trabalho um pouco mais tarde alguns dias e saio no final da tarde. Minha casa tem um quintal fechado e seguro. Se você quiser, posso ficar com ele na parte da manhã e te entrego no fim do dia. Uma guarda compartilhada, o que acha? Pelo menos até você reforçar aquele portão.
Helena olhou para ele, surpresa e visivelmente aliviada.
— Você faria isso mesmo? Não quero atrapalhar sua vida, Gabriel.
— Não atrapalha. Na verdade, acho que o Charlie já decidiu por nós dois.
O que começou como uma solução prática para a segurança do animal logo se transformou no pretexto perfeito que ambos precisavam, mas não tinham coragem de pedir. Todos os dias, por volta das dezoito horas, Gabriel caminhava até a floricultura levando Charlie. O combinado era apenas devolver o cachorro, mas os minutos começaram a se esticar. O rapaz passou a ajudar Helena a recolher as plantas para dentro da loja, e esses momentos logo evoluíram para caminhadas calmas no final da tarde, onde o destino final era sempre uma praça próxima.
— Ele adora esse gramado — comentou Helena em uma dessas tardes, observando Charlie correr atrás de uma bola de borracha. — Sabe, Gabriel, eu estava com medo de mudar para esse bairro, mas conhecer você fez tudo parecer mais leve.
Gabriel sentou-se ao lado dela no banco de madeira, sentindo o estômago dar um nó que nenhuma lógica conseguia desatar.
— Eu é que mudei tudo por aqui, Helena. Minha vida era um relógio britânico. Agora, eu passo o dia olhando para os lados para ver se não tem um vira-lata me vigiando. Ou uma florista.
Helena soltou uma risada clara, aquela risada que Gabriel, sem perceber, passava o dia inteiro esperando para ouvir.
— E isso é ruim? — ela perguntou, virando o rosto para ele, os olhos castanhos brilhando com a luz do entardecer.
— É totalmente diferente de tudo o que planejei — respondeu Gabriel, a voz caindo um tom, a intensidade do momento o deixando desarmado. — Mas não é ruim. Nem um pouco.
Conforme os dias passavam, Gabriel começou a perceber que a perda de controle era muito mais profunda do que ajustar seus horários por causa de um bicho de estimação. No trabalho, ele se pegava encarando as planilhas sem conseguir se concentrar, desenhando mentalmente o contorno do sorriso de Helena. Cada passo do seu dia, desde a escolha da camisa de manhã até o trajeto que fazia para voltar para casa, era calculado pensando no momento em que iria reencontrá-la na floricultura.
A sensação era exatamente aquela descrita nas canções mais viscerais de amor, onde o homem percebe que seu orgulho e sua independência já não significam nada diante de uma presença. Gabriel já não pertencia a si mesmo. Ele podia caminhar com as próprias pernas, mas era o pensamento em Helena que ditava o ritmo e a direção de cada batida do seu coração. Ele estava completamente tomado, dominado por um sentimento que havia entrado na sua vida de mansinho, pela coleira de um cachorro teimoso, e que agora era o dono absoluto de todas as suas vontades.
