O sol nasceu sobre o apartamento de Leandro, mas a luz da manhã não dissipou o caos da véspera. A rotina, antes uma máquina bem azeitada de trabalho e treino, tinha se tornado uma sequência desorganizada de emergências. O cheiro de serragem e suor deu lugar ao aroma de leite azedo e talco. Yago acordava chorando, assustado, e Leandro, com olheiras fundas e o corpo exausto, cambaleava entre a cafeteira e a troca de fraldas, tentando decifrar o manual invisível da paternidade.
A primeira semana foi uma luta pela sobrevivência. O pequeno apartamento, antes um refúgio de solteiro espartano, estava invadido por brinquedos de plástico e roupas minúsculas. A marcenaria do Sr. Osvaldo recebia um Leandro atrasado e distraído, cujas ferramentas pareciam pesadas demais. O Contramestre Gavião, líder de sua academia de capoeira, notou o desfalque nos treinos. Quando Leandro finalmente conseguiu aparecer, uma hora antes do fim da aula, estava com o uniforme amassado e o olhar perdido.
Gavião, um homem forte e observador, com a pele curtida pela vida e a voz grave, chamou-o para o canto após a roda.
— Capivara, a sua ginga está enferrujada. Onde anda o seu foco?
Leandro hesitou, passando a mão pela barba malfeita.
— Mestre... aconteceu. Rosana voltou e me deixou com um filho. O Yago.
Ele resumiu a história rapidamente, a voz embargada pela incredulidade que ainda sentia. Gavião o ouviu em silêncio, a expressão neutra. Quando Leandro terminou, o Mestre apoiou a mão pesada no ombro dele.
— O chão da vida muda, Capivara. Mas o chão da roda não. A vida te deu um desafio novo, um chamado. O que você vai fazer com ele? Vai chorar pelo treino perdido, ou vai aprender a lutar em um espaço menor?
— Eu estou tentando, Mestre. É difícil. Não dormi direito por uma semana.
— A disciplina não é um luxo; é uma ferramenta. Você precisa de ainda mais, agora. Seu tempo diminuiu, então sua dedicação tem que dobrar na hora que você estiver aqui. A capoeira é sobre equilíbrio em movimento. Seu novo equilíbrio começa fora daqui. Arruma essa vida e volta com a cabeça no lugar.
A conversa, embora não oferecesse soluções práticas para a falta de sono ou a montanha de fraldas, plantou uma semente de propósito em Leandro. Ele não podia falhar na roda; a capoeira era sua identidade. E, se Gavião exigia disciplina na arte, ele teria que aplicá-la à vida doméstica.
O maior obstáculo, porém, não estava no apartamento nem na academia, mas na casa de seu pai.
O Sr. Sebastião era um contador aposentado, um homem de planilhas e certezas. Quando Leandro lhe contou a novidade, a reação foi fria, quase clínica.
— Você não vai aceitar uma criança assim, Leandro. É uma armadilha. Uma mulher aparece do nada, deixa um menino de dois anos e uma carta de súplica? — Seu pai apertava os óculos na testa. — Onde estão as provas? Onde está o senso?
— Pai, eu olhei para ele. Ele tem a minha testa, o meu nariz...
— Sem sentimentalismos, meu filho! Sentimentalismos não pagam contas. Você precisa de um teste de DNA. Uma prova científica, um documento. Até que você faça isso, eu não quero ver essa criança na minha casa. Não vou ser cúmplice de uma irresponsabilidade.
O ultimato do pai cortou Leandro profundamente. Era a estabilidade contra a intuição. O ceticismo contra o calor. Sebastián via a situação como um risco financeiro e moral; Leandro, como um fato irrevogável. A exigência do DNA tornou-se o epicentro de seu dilema.
Nos dias seguintes, Leandro tentou ignorar a voz do pai e as ligações dos laboratórios de análise genética. Seu foco, ainda que desajeitado, estava em Yago. Ele aprendeu a esquentar mamadeiras, a decifrar os diferentes tipos de choro (o de fome, o de sono, o de birra) e, o mais difícil, a entreter o menino.
Ele errava muito. Um dia, tentou dar sopa e acabou sujando o apartamento inteiro. Em outro, colocou a camiseta de Yago ao contrário. Mas, em meio a esses erros, algo inesperado florescia: o afeto.
Yago, que inicialmente se agarrava à tristeza de ter sido deixado, começou a responder aos esforços desajeitados de Leandro. O capoeirista descobriu que o menino amava a música. Quando Leandro pegava o berimbau — agora um objeto silencioso e empoeirado no canto da sala — e cantava uma ladainha baixinho, apenas com a voz, Yago parava de chorar. Ele gostava do ritmo, da voz grave do pai que mal conhecia.
Em uma tarde particularmente difícil, com Yago choramingando no chão, Leandro, por puro instinto, deitou-se ao lado dele e começou a fazer a ginga, devagar, no mesmo lugar, como um pêndulo. Yago parou, observou o movimento fluido das pernas do pai, e soltou uma gargalhada pequena e aguda. Foi a primeira vez que o som da alegria do filho rompeu o peso da responsabilidade em Leandro.
Naquela noite, enquanto embalava Yago para dormir, Leandro olhou para o rosto sereno do menino. A sombra da dúvida científica era real e pairava sobre ele, alimentada pela desconfiança de seu pai. Mas, naquele momento, segurando o calor do corpo pequeno e confiante, a necessidade de uma prova genética parecia diminuir. O laço que estava sendo tecido com cada fralda trocada e cada canção de ninar era, para ele, mais forte do que qualquer resultado de laboratório. A ginga da paternidade era desajeitada, mas estava, lentamente, entrando no ritmo. A batalha interna de Leandro entre a cabeça lógica do pai e o coração inesperadamente amolecido pela criança tinha começado, e ele sabia que não faria o teste tão cedo. Ele precisava de tempo. Tempo para descobrir quem era aquele menino, quem ele se tornaria por causa dele, e se a força daquele afeto incipiente superaria o ceticismo de todos, inclusive o seu.
