Capítulo 2: O Dia Que Eu Morri



 Lucas ajustou o retrovisor de seu carro popular, checando a linha da mandíbula e o sorriso de canto de boca que ele tinha ensaiado no elevador. Estava impecável. Ele dirigia em direção ao bairro Jardins, a meca da ostentação paulistana, onde a arquitetura gritava riqueza e onde ele esperava tirar a foto perfeita. A legenda já estava pronta na sua mente: “Sampa, de volta ao meu restaurante favorito. A Valeska chega logo. Quem espera ama!”. O cinismo de usar o nome de sua namorada fictícia em um evento tão trivial o divertia; ele era o mestre da encenação.

Ele estava absorto, fantasiando sobre qual pose faria em frente à vitrine de uma joalheria, quando a realidade, de forma brutal e estrondosa, decidiu intervir. Um caminhão-guincho, que deveria estar na pista da direita, fez uma manobra imprudente, invadindo a faixa de Lucas sem aviso. A colisão foi imediata, um som metálico e ensurdecedor que ecoou pela avenida. O carro de Lucas rodopiou, amassando-se como uma lata de refrigerante sob um pé gigante.

O resgate foi um espetáculo de luzes estroboscópicas e sirenes estrondosas. A cena era caótica: vidros estilhaçados brilhavam sob os holofotes improvisados das viaturas, o cheiro de óleo queimado pairava no ar e a comoção dos curiosos formava um círculo apertado e mórbido em volta do local. Lucas foi retirado das ferragens pelos bombeiros, seu corpo inerte e coberto de fuligem e sangue. Ele estava em um coma profundo, a vida suspensa por um fio invisível e frágil. A imprensa, sempre rápida, já estava lá, os microfones sendo empurrados em direção a qualquer pessoa que parecesse minimamente envolvida.

No Hospital Santa Helena, a notícia se espalhou como fogo. Em pouco tempo, a sala de espera da Unidade de Terapia Intensiva estava lotada com um mosaico confuso de pessoas. Seus pais, D. Sílvia e Sr. Armando, chegaram primeiro, pálidos e desorientados. Logo depois, Marina, Thiago e outros colegas de trabalho surgiram, trazendo consigo a aura de glamour e a total falta de noção que permeava a vida profissional de Lucas.

Um repórter ousado, com um microfone da TV Jornalismo Urgente, interceptou D. Sílvia, que chorava copiosamente.

— Dona Sílvia, o Brasil está em oração. Poderia nos falar sobre seu filho, Lucas Ferreira? Quem é o homem que hoje luta pela vida?

D. Sílvia tentou articular a verdade, o Lucas tímido que passava as noites em casa, mas o choque e o medo se misturaram com a memória das inúmeras histórias que ele contava sobre suas namoradas viajantes.

— Meu... meu filho é um rapaz especial. Um... um aventureiro. Ele é... ele é muito reservado, sabe? Mas ele vive viajando, sempre ajudando as pessoas.

O Sr. Armando, com a gravata torta e os olhos marejados, interveio, lembrando-se das últimas invenções do filho.

— Ele estava indo encontrar a Valeska! Sim, a Valeska! Ela é... aquela modelo! Ele a salvou de um incêndio semana passada, ele é um herói, moço! Um herói!

A palavra "modelo" e "incêndio" era tudo de que o repórter precisava. A máquina de fofoca e heroísmo começou a funcionar com força máxima.

Pouco depois, Thiago e Marina foram entrevistados, e o efeito foi catastrófico para a verdade. Eles, que só conheciam o Lucas das narrativas, confirmaram e expandiram cada mentira.

— Lucas é um homem de paixões intensas.

— Ele é um galã nato. Não para em uma namorada só, porque ele tem o espírito livre.

— Ele sempre está ajudando a causas secretas, doando dinheiro para crianças carentes que ele conheceu em viagens. Ele é um filantropo discreto, nunca conta para ninguém.

Aquelas migalhas de invenção, misturadas com a dor do momento, transformaram-se em ouro midiático. Lucas não era mais o analista de marketing inseguro; ele era, instantaneamente, o "Galã Filantropo que Salvou a Modelo Valeska de um Incêndio Fatal".

Enquanto isso, a porta do quarto de Lucas se fechava com o som suave do ar-condicionado. Ele estava deitado, imóvel, conectado a uma dezena de máquinas que zuniam em um ritmo constante, mantendo-o preso entre a vida e a morte. Do lado de fora da UTI, no quarto de espera, a televisão estava ligada em um volume baixo, noticiando a tragédia.

A câmera focalizou o rosto de um âncora de telejornal, sério e comovido.

— Estamos acompanhando, em tempo real, a luta pela vida de Lucas Ferreira, o jovem aventureiro, conhecido internacionalmente por seus atos de coragem e seu magnetismo irresistível.

Na tela, uma montagem rápida mostrava fotos aleatórias de Lucas em viagens passadas (viagens que ele pagou para fazer sozinho e nas quais não conversou com ninguém), intercaladas com a imagem da capa da Vogue Itália com a modelo Valeska – a mulher que ele havia inventado salvar e que ele, de fato, nunca tinha visto na vida real.

— Lucas, o herói da cobertura, o galã que conquistou a mais cobiçada modelo do momento, agora precisa da sua ajuda. O país inteiro se une em uma corrente de esperança pela recuperação desse jovem que é um exemplo de bravura e paixão.

Lucas, inconsciente, jazia em silêncio. Ele havia entrado no coma como um simples rapaz de 25 anos que nunca havia beijado. Ele sairia dele como um ícone nacional, um mito forjado nas próprias mentiras, completamente alheio ao fato de que, para o Brasil, o seu dia mais vergonhoso havia se transformado, paradoxalmente, no dia em que ele, de fato, "morreu" para dar lugar à lenda que ele tanto sonhava em ser.