CAPÍTULO 2
A gente cresce ouvindo que precisa ter um 'Plano B'. Mas, para quem tem um sonho que arde na alma, o Plano B é só uma distração. O sacrifício não é só o treino, é a renúncia: festas, noites de sono, o conforto de saber que tem uma rede de segurança. É apostar tudo na única chance que você se permite enxergar.
O cheiro de terra molhada na madrugada. Esse era o novo perfume de Kauan.
O convite para a peneira do Clube Atlético União (CAU) o jogou numa rotina de sacrifícios. O primeiro teste foi um sucesso: ele passou para a segunda fase. Mas o preço do avanço era o tempo e o dinheiro.
O CAU ficava na capital, a duas horas de ônibus. Os treinos eram três vezes por semana, no meio da tarde. Para chegar a tempo, Kauan precisava sair da escola logo após o almoço, perdendo a maior parte das aulas.
— Kauan, eu não quero nem saber! Se o futebol der errado, o que você vai fazer? — a voz de Marta, sua mãe, era dura, mas carregada de medo. — Você está perdendo matéria, filho. A escola é o seu Plano B!
— Mãe, não tem Plano B! Se eu fizer o Plano B, o A nunca vai dar certo. Eu preciso me dedicar.
Marta suspirava, mas a verdade é que o brilho nos olhos do filho era contagiante. Ela apenas pedia relatórios diários de quem estava ensinando o quê, tentando manter o mínimo de controle sobre a vida acadêmica dele.
José Alfredo, o pai, era o pilar silencioso. Seu trabalho como pedreiro era extenuante, e ele recebia por diária, com muita instabilidade. Numa noite, Kauan o viu contando as notas amassadas.
— Pai, esse dinheiro é para a feira...
— É para a sua passagem, Falcão — disse José Alfredo, sem levantar os olhos. — Para a feira a gente aperta um pouco, compra o essencial. Mas você precisa estar lá. Eu vou fazer umas horas extras no sábado, não se preocupe. Só não desista. Você tá carregando o nosso sonho nas suas chuteiras.
O peso daquelas palavras se instalou no peito de Kauan. Cada real gasto, cada hora de ônibus chacoalhando, era um investimento na fé dos pais. Ele não podia desperdiçar.
Na escola, a pressão aumentava. A ausência constante de Kauan era notada, especialmente por quem não acreditava nele.
Em uma tarde, enquanto ele pegava sua mochila para sair antes da última aula, Bianca e Caio estavam na porta da sala.
— Olha o Falcão, em fuga! — Caio riu alto.
— Vai lá, Falcão. Vai treinar para ser motorista de ônibus, já que você passa tanto tempo neles — provocou Bianca.
Kauan sentiu o sangue ferver, mas respirou fundo.
— Eu tô correndo atrás do meu sonho, Bianca. Não tô sentado esperando ele cair do céu.
— Sonho de pobre. Futebol é só para quem tem QI e padrinho. Você não tem nenhum dos dois — devolveu ela, afiada.
Kauan não respondeu. Apenas apertou as alças da mochila e seguiu o caminho. Ele tinha um ônibus para pegar.
Porém, ao sair da escola, ele encontrou o professor Junior, o de Educação Física, esperando-o.
— Ei, Kauan. Escutei o que a Bianca falou. Não deixe a inveja deles te derrubar. Eles não têm a sua coragem de ir atrás.
— É difícil, professor. Às vezes, eu penso que eles podem estar certos. Minha mãe também me cobra muito sobre o estudo.
— Sua mãe está certa em te cobrar um futuro. Mas se o futebol é o que te move, use o estudo para te dar disciplina. Você precisa de foco nos treinos, e foco nas matérias. Não relaxe em nada.
O professor abriu um sorriso.
— Mas escuta aqui. O seu desempenho no primeiro teste, o Rodrigo, olheiro do CAU, comentou que foi bom. Ele disse que você tem um diferencial na arrancada. Vai lá e mostra para eles!
O incentivo do professor era como um chute de ânimo.
Kauan chegava no CT do CAU exausto, mas a visão do gramado bem cuidado e dos uniformes limpos injetava adrenalina.
Ele era um dos poucos que vinha de tão longe. Naqueles treinos, ele conheceu outros garotos, alguns com mais recursos, outros tão guerreiros quanto ele. Ele se esforçava o triplo. Não podia se dar ao luxo de ter um treino ruim. Cada passe errado era a imagem do rosto cansado de seu pai no canteiro de obras.
Em um dos treinos de finalização, Rodrigo, o olheiro, o chamou.
— Kauan Henrique, né?
— Sim, senhor. Falcão.
— É. Você voa. Mas... — o olheiro fez uma pausa dramática. — Você está muito cru. Você tem a técnica, mas falta corpo. O futebol profissional é pancada. Você precisa ganhar massa, Falcão.
O coração de Kauan gelou.
— O senhor está dizendo que não vou passar?
— Não. Estou dizendo que você está aprovado para o período de testes estendido. Você vai treinar por mais dois meses. Mas saiba de uma coisa: a concorrência está pesada. Se você não endurecer, você cai.
Kauan sentiu um misto de alívio e terror. Dois meses. Dois meses a mais de passagens caras, de aulas perdidas, de cobranças e sacrifícios familiares. Ele tinha que aproveitar essa chance.
Ao voltar para casa, tarde da noite, ele olhou para o céu estrelado do bairro. Não havia mais margem para dúvidas. A aposta estava feita. O Falcão estava pronto para voar ou cair. E ele não podia cair. O peso de sua escolha era o futuro de toda a sua família.
