O Peso do Sobrenome
Gabriel não teve tempo para digerir a covardia que havia demonstrado no corredor. Naquela mesma noite, a Casa Grande dos Fontes — um palácio neoclássico que Marialda insistia em chamar de “residência oficial” — era palco de um jantar político onde a prefeita exercia seu controle com precisão cirúrgica. Gabriel sentia-se um boneco, vestido com roupas que ele não escolhera, forçado a sorrir para investidores e correligionários.
Marialda, impecável em um tailleur, revisava papéis na cabeceira da mesa, mal tocando no pato assado que o chef preparara. A política era o prato principal, e o filho, apenas um adorno caro.
— Gabriel, amanhã você terá que ir comigo para a coletiva de imprensa sobre o fechamento do trailer de hot-dog do Seu Manoel. — A voz dela era seca e final. — É uma questão de ordem e moral na frente do Colégio Municipal. Aquilo é insalubre, atrai a vadiagem.
Gabriel engoliu em seco. O trailer do Seu Manoel era o ponto de encontro de toda a juventude de Paraíso, incluindo ele e seus amigos. Era um dos poucos lugares onde ele se sentia apenas "Gabriel", e não "o filho da prefeita".
— Mãe, isso é sério? — A surpresa o fez levantar a voz mais do que pretendia. — O Seu Manoel está lá há vinte anos! Ele é a única coisa que nos resta da lanchonete da escola que você fechou no ano passado!
Marialda depositou a caneta de ouro sobre a mesa com um ruído calculado, e todos à mesa ficaram em silêncio.
— Gabriel, meu filho, o seu papel é apoiar as decisões administrativas da sua mãe. — Ela nem sequer olhou para ele, dirigindo-se aos convidados. — Eu luto por esta cidade, pela imagem dela. E você, como futuro desta família, deve zelar por isso. Não complique meu trabalho com essas futilidades adolescentes. O trailer sairá na quinta-feira. Ponto final.
Gabriel sentiu-se afogar no excesso de controle. Sua individualidade era sistematicamente desmantelada para manter a fachada política de Marialda. Ele não era uma pessoa; era um projeto.
Mais tarde, em seu quarto, Gabriel tentava desesperadamente ligar para Letícia. Ela havia parado de responder às suas mensagens depois que ele a abandonara no corredor. Quando ela finalmente atendeu, a voz estava fria, distante.
— Não precisa se esforçar, Gabriel. Eu entendi o recado. O Brigadeiro estava muito ocupado com a agenda da mamãe.
— Letícia, por favor, me desculpa. Eu surtei, não consegui reagir com a Valéria e...
— Não foi a Valéria que me humilhou hoje. Foi você. — A voz dela tremeu, carregada de mágoa. — Você fugiu. E agora, a Valéria está fazendo uma festa online.
Gabriel abriu o Instagram, o coração disparando. Valéria havia postado uma foto de Letícia de costas, com a legenda: "A nova moda em Paraíso: a Brasileira da Shopee. Parece de marca, mas é baratinha e desajeitada. Não dura uma estação! #PadrãoGabriel #ForaDaCaixa".
Era cruel, e o apelido era uma referência direta e depreciativa ao fato de Letícia ser estrangeira e ter menos posses que o círculo de Valéria. As risadas nos comentários eram incessantes.
— Droga! Eu vou denunciar isso! Eu vou acabar com ela!
— Não! Não faça nada! — Ela exigiu. — Isso só vai me expor mais. Você só vai reagir porque a coisa ficou feia demais. Eu não sou um problema que você resolve com um clique, Gabriel.
Houve um longo silêncio, pesado como a responsabilidade que ele carregava.
— Eu me sinto invisível, Gabriel. Eu me sinto um segredo feio que você tem medo de contar. Meus pais me trouxeram para cá para uma nova vida, mas tudo o que eu encontro é a crueldade da Valéria e o medo do namorado que eu tenho. Por que você está comigo? Para se rebelar contra a sua mãe em segredo?
— Não! Eu estou com você porque você é a única coisa real e a única coisa que me faz sentir livre nesta cidade de plástico! Você é inteligente, é linda, é a única pessoa que me vê, não o filho da prefeita!
— Então aja como se fosse real! — Ela exigiu, a voz embargada. — Eu não aguento mais ser a namorada que tem que se esconder no corredor, esperar a mensagem na hora certa ou desviar da Valéria. Você precisa assumir quem você ama e as consequências disso.
A voz de Letícia ganhou uma firmeza final, pondo Gabriel contra a parede.
— Você tem que escolher, Gabriel. Entre a segurança do segredo e a coragem de ser honesto. Se o seu amor por mim não vale a briga com sua mãe e com a Valéria, então talvez ele não valha o meu tempo. Escolha.
Letícia encerrou a chamada, deixando Gabriel em pé no meio de seu quarto luxuoso, sentindo-se mais miserável e sozinho do que nunca. A escolha não era entre ela e Valéria, ou ela e Marialda. Era entre a identidade que ele herdara e a identidade que ele precisava construir. A foto de Valéria zombando de Letícia brilhava na tela do celular, um lembrete cruel do preço de sua covardia.
