A tarde caía sobre a cidade com uma cor alaranjada que parecia incendiar as janelas do pequeno apartamento de Luiz. Mike, Luiz e Gabriel estavam sentados ao redor de uma mesa de centro repleta de papéis do processo e fotos borradas da perícia que Luiz tentava, em vão, organizar. Gabriel agia como o suporte emocional perfeito, trazendo café e palavras de conforto, mas Mike notava que, sempre que o assunto se tornava técnico demais, Gabriel encontrava uma desculpa para se levantar ou mudar o foco da conversa.

Mike pegou um mapa da região onde o acidente ocorrera e o estendeu sobre a mesa, apontando para a curva fechada próxima ao parque. Ele queria entender a trajetória do veículo, pois os danos no para-choque não pareciam condizer com a versão oficial de que o carro derrapara sozinho antes de atingir Bernardo. Luiz olhava para o mapa com os olhos marejados, forçando sua mente a projetar as luzes dos postes e o som dos pneus, mas a barreira em seu cérebro continuava firme e impenetrável.

— Gabriel, você estava no banco do carona, certo? — perguntou Mike, sem tirar os olhos do mapa. — Você consegue se lembrar se o Luiz tentou desviar para a esquerda ou se o freio falhou antes do impacto?

— Foi tudo muito rápido, Mike — respondeu Gabriel, pigarreando e ajustando a postura na cadeira. — O impacto, o susto... eu só me lembro de ver o vulto branco do cachorro e depois o silêncio.

— Mas a perícia diz que o carro veio da Rua das Flores, e não da Avenida Principal como você me disse ontem — insistiu Mike, arqueando uma sobrancelha.

— Eu devo ter me confundido com o estresse do momento — cortou Gabriel, levantando-se abruptamente para recolher as xícaras vazias. — O que importa agora é focar na defesa do Luiz, e não em rotas que não mudam o fato de que o acidente aconteceu.

Enquanto isso, na residência de Helena, o clima era de um luto que as paredes pareciam absorver. Aline, a governanta que trabalhava na casa há anos, subia as escadas com uma bandeja de chá, mas parou diante da porta entreaberta do quarto que pertencera a Vitor. Pela fresta, ela viu uma cena que despedaçaria qualquer coração: a delegada de ferro estava sentada no chão, abraçada a um moletom azul que ainda guardava o cheiro do filho, soluçando baixo para que ninguém na rua pudesse ouvir sua fraqueza.

Aline observava em silêncio, sabendo que Helena jamais permitiria que aquela vulnerabilidade atravessasse os portões da delegacia. Ali, entre as medalhas de natação de Vitor e as fotos de Bernardo ainda filhote, Helena não era a autoridade máxima da cidade, mas uma mãe que perdera sua última âncora de sanidade. O choro era abafado, quase mecânico, como se ela estivesse tentando expelir uma dor que não tinha fim, enquanto Aline se retirava sem fazer barulho, respeitando o santuário de sofrimento da patroa.

— Ela não sai de lá há horas, não é? — sussurrou Aline para si mesma ao descer para a cozinha. — Pobre senhora, a justiça que ela busca é apenas um grito de socorro que ninguém consegue escutar.

De volta ao apartamento, a menção ao nome da delegada Helena causou uma reação física imediata em Gabriel. Mike comentou sobre a possibilidade de tentarem uma audiência de conciliação para explicar o estado de confusão mental de Luiz, mas Gabriel apertou o encosto da cadeira com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. O ódio que brilhou em seus olhos por um segundo foi tão intenso que Mike sentiu um calafrio, percebendo que havia algo muito mais pessoal do que apenas medo do processo.

— Aquela mulher não quer conciliação, Mike — disse Gabriel, com a voz subitamente rouca. — Ela quer sangue, ela quer um culpado para pagar por tudo o que ela acha que a vida lhe deve.

— Você fala como se a conhecesse bem — observou Mike, observando a reação do amigo.

— Conheço o tipo dela — encerrou Gabriel, virando as costas para os dois. — O tipo que destrói famílias usando a lei como desculpa.