São Paulo, 1941.
As manhãs começavam com o tilintar das carroças e o ranger dos bondes percorrendo os trilhos de ferro nas ruas de paralelepípedo. As mulheres carregavam sacolas de pano entre os braços e os homens saíam apressados com seus chapéus bem colocados e o jornal debaixo do braço. A cidade era um organismo em expansão, crescendo para todos os lados, mas ainda carregava um ar de província nos bairros onde as famílias se conheciam pelo nome e pela fé.
Na Liberdade, o bairro de imigrantes, vivia Catarina, uma jovem de 15 anos, filha de portugueses que haviam cruzado o Atlântico com a esperança de um futuro melhor. Seu pai era alfaiate, homem rígido de palavras escassas. Sua mãe costurava para fora e ensinava a filha a fazer bainhas e pregar botões desde muito cedo.
Catarina, no entanto, gostava mesmo era dos livros.
Entre um ponto e outro, sonhava. Estudava no colégio de freiras, onde as meninas usavam meias grossas e rabos de cavalo apertados, e onde falar de sentimentos era quase um pecado. Tinha uma vida contida, com poucas amigas e ainda menos risos.
Mas naquela tarde, tudo mudou.
Era uma quinta-feira. O calor fazia suar até as pedras da calçada. Catarina havia escapado das tarefas da mãe e corrido até a biblioteca pública, seu refúgio preferido. Caminhava entre as estantes de madeira, passando os dedos sobre os livros, quando parou diante de uma edição antiga de poesias de Olavo Bilac. Quase no impulso, retirou o livro e se escondeu num canto, com o coração batendo um pouco mais forte do que o habitual.
— Você vem sempre à biblioteca? — perguntou uma voz próxima, quase divertida.
Catarina se virou, surpresa. Diante dela estava uma garota de sua idade, com a pele dourada pelo sol, os cabelos cacheados presos com uma fita vermelha e um sorriso aberto que parecia querer conversar com o mundo inteiro.
— Só quando quero fugir do mundo — respondeu Catarina, apertando o livro contra o peito.
— Então a gente tem isso em comum.
O nome dela era Nágila. Morava perto dali, na casa da tia. Seus pais haviam se mudado para o interior e a deixado em São Paulo para estudar. Nágila tinha um jeito leve de falar, como se cada frase fosse música. Olhava nos olhos com firmeza, mas sem arrogância. Era o tipo de pessoa que deixava qualquer um à vontade, mesmo Catarina, acostumada ao silêncio.
— Gosta de poesia? — perguntou Nágila, puxando uma cadeira ao lado.
— Gosto do que me faz sentir... diferente. — Catarina corou ao perceber a sinceridade da própria frase.
A conversa se estendeu por horas. Falaram de livros, de autores, da escola, das ruas da cidade. Quando a biblioteca fechou, saíram caminhando juntas até a praça da Liberdade, onde as cerejeiras começavam a florir.
Nos dias seguintes, os encontros se repetiram. Não por acaso, mas por vontade. Passaram a andar pela Praça da Sé, observando os bondes que cortavam a cidade, e as senhoras rezando no Mosteiro de São Bento. Sentavam em bancos e riam de coisas pequenas. Falavam sobre o que queriam ser quando crescessem, e sobre os sonhos que pareciam grandes demais para caber em suas casas.
Catarina, pela primeira vez, sentia algo novo. Não era apenas alegria. Era um calor no peito, uma urgência de ver Nágila de novo, de ouvir sua voz, de saber o que ela pensava.
Mas não sabia nomear aquilo. Só sabia que era bom. E que era perigoso.
Nágila parecia perceber. Em certos momentos, seus olhos demoravam mais nos de Catarina. Seus gestos eram suaves, seus sorrisos pareciam vir de algum lugar mais profundo. Mas ela nunca forçava nada. Deixava o tempo falar.
E Catarina, mesmo sem entender tudo, queria continuar ouvindo.
