A segunda-feira começou com o céu fechado e uma chuva que parecia não ter pressa para terminar. Miguel chegou à escola alguns minutos antes do sinal, com o cabelo úmido e a mochila protegida debaixo da blusa. A noite anterior não havia sido das melhores. Ele demorara para dormir, acordara algumas vezes e, quando finalmente conseguiu descansar, o despertador tocou cedo demais. Para completar, sua mãe havia reclamado da bagunça no quarto, ele saíra de casa sem tomar café direito e ainda descobrira, no caminho, que havia esquecido um dos cadernos sobre a mesa da cozinha.
Não era exatamente uma tragédia, mas Miguel estava com pouca paciência para enfrentar o dia.
Encontrou Gabriel perto da entrada, tentando abrir um pacote de biscoitos enquanto segurava o celular entre o ombro e a orelha. Rebeca estava ao lado dele, contando alguma coisa sobre uma atividade que precisariam entregar naquela semana. Samuel ainda não havia chegado.
— Você está com uma cara péssima — Gabriel comentou assim que desligou o telefone.
Miguel olhou para ele.
— Bom dia para você também.
— Estou falando sério. Dormiu mal?
— Dormi.
— Então acordou assim por vontade própria?
Rebeca soltou uma risada, e Miguel balançou a cabeça.
— Vocês dois são muito engraçados. Já pensaram em trabalhar com humor?
— Eu estou pensando em cobrar para continuar ouvindo suas reclamações — ela respondeu.
Miguel tentou sorrir, mas não estava com disposição para sustentar a brincadeira por muito tempo. Olhou para o portão, esperando ver Samuel aparecer na esquina, com a mochila pendurada em um ombro e aquela expressão de quem ainda estava acordando. O amigo costumava chegar naquele horário, às vezes reclamando do frio, às vezes falando sobre alguma coisa que havia visto na internet.
Naquela manhã, porém, Samuel chegou acompanhado de Caio.
Os dois vinham conversando animadamente, e Caio contava uma história sobre o fim de semana. Samuel ria, interrompendo o colega para corrigir algum detalhe. Quando se aproximaram, ele cumprimentou Miguel com um toque de mãos e perguntou se estava tudo bem. Miguel respondeu que sim, embora a pergunta tivesse sido tão rápida que mal houve tempo para uma conversa.
— Você viu o que o Pedro mandou no grupo? — Caio perguntou a Samuel.
— Vi. A gente precisa decidir o horário.
Os dois continuaram falando sobre o campeonato de futebol. Miguel permaneceu ao lado de Gabriel e Rebeca, ouvindo alguns pedaços da conversa, até que o sinal tocou e todos precisaram entrar.
Durante a primeira aula, Miguel tentou se concentrar na explicação do professor, mas sua atenção escapava a cada poucos minutos. Samuel estava sentado duas fileiras à frente, ao lado de Caio, e os dois trocavam comentários discretos sobre a matéria. Em determinado momento, Samuel virou para trás, fez uma careta engraçada quando percebeu que o professor havia escrito uma conta errada no quadro e provocou algumas risadas. Miguel quase riu também, mas voltou os olhos para o caderno antes que o amigo percebesse.
Não gostava daquela sensação. Era como se estivesse tentando provar alguma coisa para alguém, embora nem soubesse exatamente o quê.
No intervalo entre as aulas, o professor de matemática anunciou uma atividade em duplas que deveria ser entregue no fim do período. Miguel procurou Samuel com o olhar, esperando que os dois fizessem o trabalho juntos, como costumavam fazer. Antes que pudesse perguntar, porém, Caio já havia puxado uma cadeira para perto do amigo.
— Fecha comigo nessa? — Caio perguntou.
Samuel concordou, e Miguel ficou sem saber o que fazer.
Olhou ao redor da sala. Gabriel estava conversando com Rebeca, que já havia começado a organizar as questões no caderno. Os outros estudantes formavam duplas rapidamente, arrastando carteiras e trocando folhas. Miguel sentiu uma irritação imediata, não exatamente com Samuel, mas com aquela situação que parecia se repetir sempre que ele começava a acreditar que tudo estava voltando ao normal.
Poderia ter chamado Gabriel. Poderia ter perguntado a Rebeca se ela queria fazer a atividade com ele. Havia várias possibilidades, mas Miguel ficou parado tempo demais, tentando decidir se deveria demonstrar que estava incomodado ou agir como se nada tivesse acontecido.
Foi então que ouviu uma voz ao lado da carteira.
— Você já tem dupla?
Miguel virou o rosto e encontrou Davi segurando um caderno aberto. Os dois estudavam na mesma turma havia alguns meses, mas raramente conversavam além dos cumprimentos habituais. Davi era um garoto tranquilo, de fala direta, que costumava sentar perto da janela e desenhar pequenas figuras nas margens dos cadernos quando terminava as atividades. Miguel sabia seu nome, conhecia seu rosto e pouco mais do que isso.
— Ainda não — respondeu.
— Quer fazer comigo? Estou tentando entender a segunda questão há uns cinco minutos e estou começando a achar que o problema sou eu.
Miguel olhou para o caderno dele.
— Deixa eu ver.
Davi puxou uma cadeira, sentou-se ao lado e mostrou a conta. Miguel analisou os números por alguns segundos, pegou uma caneta e apontou para uma linha.
— Acho que você pulou uma parte aqui.
— Eu pulei?
— Ou isso, ou o professor está tentando acabar com a nossa autoestima.
Davi riu.
— Nesse caso, prefiro acreditar que pulei a parte.
Os dois começaram a resolver as questões. Davi era bom em algumas partes da matéria, mas se confundia quando precisava organizar os cálculos. Miguel, por sua vez, entendia o raciocínio, embora tivesse dificuldade para explicar os passos com clareza. Depois de algumas tentativas, encontraram um jeito de trabalhar juntos, alternando as respostas e conferindo os resultados.
A atividade acabou sendo mais simples do que Miguel esperava. Quando terminaram, ainda restavam alguns minutos antes do fim da aula. Davi fechou o caderno e observou o desenho que havia feito no canto da folha.
— Você sempre fica tão quieto assim? — Miguel perguntou, olhando para o desenho.
Davi ergueu os olhos.
— Eu?
— Não, o professor. Claro que é você.
— Depende da pessoa.
Miguel sorriu.
— Isso foi uma maneira educada de dizer que você não gosta de conversar comigo?
— Não. Foi uma maneira educada de dizer que você nunca veio conversar comigo.
A resposta surpreendeu Miguel. Ele abriu a boca para responder, mas percebeu que Davi tinha razão. Durante meses, haviam dividido a mesma sala sem desenvolver uma amizade de verdade. Miguel sempre ficava com Samuel, Gabriel ou Rebeca, e raramente pensava em procurar outras pessoas.
— Justo — admitiu. — Acho que nunca tive um motivo.
— E agora tem. Precisava de alguém para fazer a atividade de matemática.
— Nossa amizade começou de uma maneira muito bonita.
Davi riu, e Miguel acabou rindo também. O sinal tocou pouco depois, encerrando a aula. Os dois guardaram o material e saíram da sala junto com os outros estudantes. Miguel imaginou que a conversa terminaria ali, como geralmente acontecia quando falava com alguém fora do seu círculo habitual. Entretanto, Davi continuou caminhando ao lado dele pelo corredor.
— Você vai para a cantina? — perguntou.
— Vou. Estou morrendo de fome.
— Então espera um pouco. Preciso pegar dinheiro na mochila.
Miguel concordou e ficou perto da porta enquanto Davi voltava à sala. Quando o colega reapareceu, os dois seguiram juntos até o pátio.
Foi uma situação simples, sem qualquer importância aparente. Mesmo assim, Miguel percebeu que não estava pensando em Samuel durante aqueles minutos. Não estava tentando descobrir com quem o amigo conversava, se havia combinado alguma coisa para depois da aula ou se lembraria de convidá-lo para o próximo jogo. Estava apenas conversando com alguém que parecia genuinamente interessado no que ele dizia.
Na cantina, Davi comprou um pão de queijo e um suco, enquanto Miguel escolheu um salgado e um refrigerante. Sentaram-se em uma mesa mais afastada, perto de uma janela que dava para a quadra. A chuva havia diminuído, deixando o chão molhado e o ar mais fresco. Por alguns minutos, falaram sobre a escola, os professores e as dificuldades de encontrar alguma coisa decente para comer durante o intervalo.
Depois, a conversa tomou um rumo inesperado.
— Você gosta de morar aqui? — Davi perguntou.
Miguel pensou por alguns segundos antes de responder.
— Gosto. Quer dizer, tem dias em que eu queria morar em uma cidade maior, fazer outras coisas, conhecer lugares diferentes. Mas eu gosto daqui.
— O que você faria se pudesse ir embora amanhã?
Miguel deu uma mordida no salgado.
— Amanhã? Sem avisar ninguém?
— É uma pergunta hipotética.
— Nesse caso, eu provavelmente esqueceria alguma coisa importante, chegaria atrasado à rodoviária e passaria a viagem inteira pensando se tranquei a porta de casa.
Davi riu.
— Você parece o tipo de pessoa que faria isso mesmo.
— Obrigado pela confiança.
— Mas estou falando sério. Você nunca teve vontade de começar de novo em outro lugar?
Miguel ficou em silêncio por um instante. A pergunta parecia simples, mas despertou pensamentos que ele normalmente evitava. Gostava da cidade, das ruas conhecidas, das pessoas que encontrava pelo caminho e da sensação de pertencer àquele lugar. Ao mesmo tempo, sabia que a vida não ficaria limitada àquela rotina para sempre. Em algum momento, precisaria escolher o que fazer depois da escola, decidir se continuaria morando ali e descobrir que tipo de adulto queria ser.
— Já pensei nisso — respondeu. — Só não sei se teria coragem de deixar tudo para trás.
Davi assentiu, como se entendesse a resposta.
— Acho que eu também não. Às vezes, a gente quer mudar de vida, mas quer levar todas as coisas que conhece junto.
Miguel olhou para ele com interesse.
— Essa frase foi muito profunda para alguém que acabou de reclamar da matemática.
— Uma pessoa pode ter vários talentos.
Os dois riram. Miguel não sabia explicar por que aquela conversa estava sendo tão agradável. Talvez fosse porque Davi não tentava preencher todos os silêncios, nem transformava cada resposta em uma oportunidade para contar uma história própria. Ele ouvia, fazia perguntas e respondia com sinceridade. Não parecia interessado em impressionar ninguém.
Miguel começou a contar algumas coisas sobre a própria vida, incluindo as dificuldades que enfrentava para decidir o que faria depois do ensino médio. Falou sobre a vontade de conhecer outros lugares, sobre os trabalhos que ainda precisava entregar e sobre a pressão que sentia quando os adultos perguntavam o que pretendia fazer da vida.
— Parece que todo mundo espera que eu tenha um plano pronto — comentou. — Como se, no dia em que eu fizer dezoito anos, fosse acordar sabendo exatamente o que quero.
— Se descobrir como fazer isso, me conta — Davi respondeu. — Minha família pergunta sobre faculdade como se eu tivesse recebido uma carta com todas as respostas.
Miguel riu.
— E você já sabe o que quer?
— Algumas coisas. Outras, não. Acho que estou tentando descobrir sem deixar todo mundo preocupado.
A resposta fez Miguel pensar na própria família. Sua mãe também costumava perguntar sobre o futuro, embora geralmente terminasse a conversa dizendo que ele ainda tinha tempo para decidir. Miguel sabia que ela queria o melhor para ele, mas nem sempre conseguia explicar que o problema não era apenas escolher uma profissão. Era imaginar uma vida completamente diferente daquela que conhecia.
— Às vezes, parece que todo mundo está esperando a gente crescer, menos a gente — disse.
Davi ficou olhando para ele por alguns segundos, antes de sorrir.
— Essa foi boa. Vou fingir que pensei nisso primeiro.
O sinal tocou, obrigando os dois a voltar para a sala. Durante o caminho, Miguel percebeu que estava mais leve. Não havia resolvido nenhum dos problemas que vinha carregando nos últimos dias, mas, pela primeira vez naquela manhã, conseguia pensar em alguma coisa além deles.
Quando chegaram à sala, Samuel estava conversando com Caio perto da porta. Ao ver Miguel acompanhado de Davi, ergueu as sobrancelhas, demonstrando surpresa.
— Onde você estava?
Miguel parou ao lado da carteira.
— Na cantina.
— Eu procurei você lá.
— Não me viu porque eu estava sentado perto da janela.
Samuel olhou para Davi.
— Vocês estavam juntos?
— Estávamos fazendo a atividade e depois fomos comer alguma coisa — Miguel explicou.
— Legal. — Samuel voltou a olhar para o celular. — Depois você me passa a resposta da última questão? Eu e o Caio não conseguimos terminar.
Miguel demorou um instante para responder. Era uma situação comum. Samuel precisava de ajuda com uma atividade, e Miguel poderia simplesmente passar a resposta quando tivesse oportunidade. Ainda assim, percebeu que o amigo não havia perguntado como tinha sido a conversa com Davi, nem demonstrado qualquer curiosidade sobre o que os dois estavam fazendo. Talvez fosse natural. Samuel não precisava se interessar por todos os detalhes de sua vida.
— Passo, sim — respondeu.
Davi sentou-se em sua carteira, e Miguel fez o mesmo. A aula começou pouco depois, mas, durante alguns minutos, ele continuou pensando na diferença entre as duas conversas. Com Davi, havia falado sobre o futuro, as dúvidas e as coisas que o incomodavam. Com Samuel, nos últimos dias, quase tudo parecia se resumir a combinações de horários, jogos de futebol e conversas interrompidas por outras pessoas.
Miguel sabia que não era justo comparar as duas situações. Conhecia Samuel havia muitos anos, enquanto Davi era alguém com quem acabara de começar a conversar. Uma amizade nova não precisava significar que a antiga havia perdido sua importância.
Mesmo assim, era bom descobrir que existiam outras pessoas com quem podia conversar sem precisar fingir que estava tudo bem.
O restante das aulas passou sem grandes acontecimentos. Na saída, Gabriel e Rebeca combinaram de se encontrar na praça no sábado, e Samuel confirmou que iria depois do jogo com Caio. Miguel escutou a conversa enquanto guardava os livros, esperando que alguém perguntasse se ele também participaria.
Ninguém perguntou.
Talvez porque todos presumissem que ele já sabia que estava convidado. Talvez porque estivessem distraídos. Miguel não tinha como saber, e essa era justamente a parte que mais o incomodava. Antes, não precisava pensar tanto nessas coisas. Os convites surgiam naturalmente, e ele raramente se perguntava se havia sido incluído por hábito ou porque alguém realmente queria sua presença.
Davi apareceu ao lado da carteira, colocando a mochila nas costas.
— Você vai embora agora?
— Vou. Por quê?
— Pensei em passar na padaria antes de ir para casa. Eles têm uns doces muito bons, e eu estou tentando convencer alguém a experimentar comigo.
Miguel sorriu.
— Você está me convidando para comer ou tentando usar a minha fome para promover a padaria?
— As duas coisas. Sou um homem de negócios.
— Então vamos. Mas, se o doce for ruim, a responsabilidade é toda sua.
Os dois saíram da escola conversando. Miguel se despediu de Gabriel, Rebeca e Samuel com um aceno, sem esperar por uma combinação para o dia seguinte. Samuel respondeu ao cumprimento e voltou a falar com Caio, enquanto Miguel seguiu pela calçada ao lado de Davi.
A padaria ficava a poucas quadras dali, em uma rua movimentada por estudantes, trabalhadores e pessoas que paravam para comprar pão antes de voltar para casa. O cheiro de café recém-passado se espalhava pela entrada, e havia algumas mesas ocupadas por clientes que conversavam enquanto esperavam seus pedidos. Davi cumprimentou a atendente e apontou para uma vitrine cheia de doces.
— Eu falei que valia a pena.
Miguel observou as opções.
— Você fala isso com tanta confiança que estou começando a desconfiar.
— Escolhe um e depois me agradece.
Miguel escolheu um doce de chocolate, enquanto Davi pediu um pedaço de bolo. Sentaram-se perto da janela e continuaram conversando sobre coisas que não haviam conseguido terminar durante o intervalo. Falaram de filmes, músicas, professores e até de uma viagem que Davi havia feito com a família alguns anos antes. Miguel descobriu que o colega gostava de desenhar, tinha vontade de conhecer cidades históricas e costumava passar parte dos domingos ajudando o avô em uma pequena oficina.
Davi, por sua vez, descobriu que Miguel gostava de escrever, embora raramente mostrasse seus textos para outras pessoas. Miguel contou que às vezes começava uma história com entusiasmo e abandonava tudo quando chegava a uma parte difícil. Davi disse que fazia a mesma coisa com os desenhos, guardando vários cadernos cheios de ideias que nunca terminava.
— Então somos duas pessoas que começam coisas e não terminam — Miguel concluiu.
— Não. Somos duas pessoas que ainda estão procurando o jeito certo de terminar as coisas.
Miguel apontou para ele com o garfo.
— Você faz isso de propósito?
— Isso o quê?
— Fala umas coisas bonitas do nada, como se estivesse dando uma entrevista.
Davi caiu na risada.
— Desculpa. Vou tentar ser menos interessante.
A conversa continuou até que perceberam quanto tempo havia passado. Miguel precisava voltar para casa, e Davi ainda tinha algumas tarefas para fazer. Pagaram a conta, saíram da padaria e caminharam juntos até uma esquina onde precisariam seguir caminhos diferentes.
— Foi legal conversar com você — Davi disse. — A gente podia fazer isso de novo.
Miguel sorriu, dessa vez sem precisar pensar muito antes de responder.
— Podia. Amanhã a gente se vê na escola.
— Fechado.
Os dois se despediram, e Miguel seguiu para casa com a sensação de que aquele havia sido um dia melhor do que esperava. Não porque tudo tivesse dado certo, mas porque, no meio de uma rotina que começava a parecer estranha, havia encontrado uma companhia inesperada.
Quando chegou em casa, encontrou a mãe organizando algumas roupas na sala. Ela perguntou como havia sido a escola, e Miguel respondeu que estava tudo bem. Depois ajudou com algumas tarefas, tomou banho e foi para o quarto. O celular estava sobre a cama, com várias mensagens acumuladas.
Havia uma fotografia enviada por Gabriel no grupo dos amigos, um comentário de Rebeca sobre a atividade de matemática e algumas mensagens de Samuel combinando os detalhes do jogo de sábado. Miguel leu tudo com atenção. Samuel parecia animado, falando sobre os horários e sobre quem participaria da partida. Em seguida, perguntou se alguém sabia onde poderiam conseguir uma bola emprestada.
Miguel começou a digitar uma resposta, mas parou antes de enviar. Poderia sugerir que jogassem em outro lugar, perguntar se Samuel queria fazer alguma coisa com ele antes da partida ou simplesmente entrar na conversa como fazia sempre. Em vez disso, guardou o celular e abriu uma conversa com Davi.
"Você estava certo sobre o doce. Era muito bom."
A resposta chegou poucos minutos depois.
"Eu sei. Você deveria confiar mais no meu talento para escolher comida."
Miguel riu sozinho e começou a digitar outra mensagem. Os dois conversaram durante algum tempo, trocando comentários sobre a escola e fazendo piadas sobre os professores. Não era nada extraordinário, mas Miguel gostava da facilidade com que a conversa acontecia. Não precisava disputar a atenção de ninguém, nem encontrar um jeito de entrar em assuntos que já estavam em andamento.
Pela primeira vez em vários dias, sentiu que não precisava se esforçar tanto para estar na companhia de alguém.
Ainda assim, quando Davi se despediu e Miguel deixou o celular sobre a cama, sua atenção voltou para Samuel. Abriu a conversa dos dois e releu algumas mensagens antigas. Havia fotografias, brincadeiras e conversas que começavam com uma pergunta simples e terminavam horas depois. Lembrou-se de quantas vezes haviam ficado acordados até tarde, falando sobre coisas que pareciam importantes naquela época. Lembrou-se das promessas de que continuariam amigos mesmo quando terminassem a escola, fossem trabalhar ou começassem a construir suas próprias famílias.
Naquele tempo, tudo parecia tão simples.
Miguel não queria deixar de ser amigo de Samuel. Não queria substituí-lo por Davi, nem transformar a amizade em uma competição para ver quem tinha mais companhia. Só queria entender por que uma relação que sempre lhe trouxera tanta segurança estava começando a deixá-lo tão inseguro.
O problema era que, quanto mais tentava encontrar uma explicação, mais percebia que não havia uma resposta única. Samuel estava conhecendo pessoas novas, fazendo planos diferentes e descobrindo interesses que talvez Miguel não compartilhasse. Isso era natural. Ele próprio começava a perceber que podia construir outras amizades, conversar sobre assuntos diferentes e encontrar companhia fora do círculo ao qual estava acostumado.
Mas uma coisa era entender que as mudanças faziam parte da vida. Outra era sentir que elas estavam acontecendo depressa demais.
Na manhã seguinte, Miguel encontrou Samuel na escola. Os dois trocaram algumas brincadeiras antes da aula, e o amigo perguntou se ele havia conseguido terminar uma atividade. Miguel respondeu que sim, comentou alguma coisa sobre Gabriel e sentou-se em sua carteira. Tudo parecia normal outra vez.
Durante o intervalo, porém, Miguel procurou Davi com o olhar. Encontrou o colega perto da janela, conversando com outros estudantes, e percebeu que estava ansioso para continuar a conversa do dia anterior. Quando Davi o viu, sorriu e fez um gesto para que se aproximasse.
Miguel foi até ele.
Samuel, que estava perto da cantina com Caio, percebeu a movimentação e acompanhou o amigo com os olhos por alguns segundos. Não disse nada, mas pareceu surpreso ao ver Miguel conversando tão animadamente com alguém que, até poucos dias antes, mal fazia parte de sua rotina.
Miguel não percebeu o olhar. Estava ocupado demais contando a Davi uma história sobre a confusão que havia acontecido em casa naquela manhã. Os dois riram, e ele se sentiu novamente à vontade.
Talvez fosse assim que as novas amizades começavam. Sem grandes anúncios, sem promessas e sem a necessidade de decidir o que elas significariam dali para a frente.
Naquela tarde, enquanto voltava para casa, Miguel pensou que talvez estivesse exagerando ao se preocupar tanto com Samuel. A amizade dos dois ainda existia, e nada o impedia de continuar vivendo outras experiências. Ele podia gostar da companhia de Davi sem abandonar o amigo de infância. Podia fazer novos planos sem deixar de valorizar as lembranças antigas.
O que Miguel ainda não compreendia era que as pessoas nem sempre mudavam de lugar na nossa vida de uma vez. Às vezes, isso acontecia aos poucos, por meio de pequenos hábitos, novas companhias e conversas que deixavam de acontecer.
E, enquanto tentava encontrar seu próprio espaço naquele novo cenário, Miguel começava a descobrir que não era o único capaz de seguir em frente.
Samuel também estava mudando. A diferença era que Miguel ainda não sabia se estava preparado para acompanhar essas mudanças ou se continuaria tentando recuperar os dias em que os dois pareciam precisar apenas um do outro.
Por enquanto, havia Davi, uma amizade começando e a possibilidade de descobrir coisas novas sobre si mesmo. Era pouco para resolver todas as suas dúvidas, mas talvez fosse o suficiente para dar o primeiro passo.
Miguel ainda queria que tudo continuasse como antes. Só estava começando a perceber que, enquanto esperava por isso, a vida não ficava parada.
E, de alguma maneira, ele também já não era exatamente o mesmo.
